28.01.08
Eclipse, The Best Man (and Woman)
Falei deles aqui, no mês passado. Paula e Maurício são para mim a realização de um delírio castañediano, daquele autor de “A Erva do Diabo”, que desbundou muita gente nos anos 70 e início dos anos 80 com o aprendizado através do peiote. Um dos ensinamentos do índio Don Juan Matus, o mestre que inicia Carlos Castañeda nas experiências alucinógenas, é a formação de um duplo. Não um irmão gêmeo, não um clone, mas você mesmo em outro lugar ao mesmo tempo em que você está agora.
Está certo, tais coisas não foram feitas para serem entendidas, e sim conversadas entre uma execução de “Espanhola” e “Blowin in the Wind” em localidades como Mauá ou São Tomé das Letras. E, por mais que dure a conversa, será impossível entender o mundo do apátrida Castañeda (dizem que era brasileiro, aliás). Pois bem: Paula e Maurício um dia vão escrever o Eclipse. É sério. Um dia vai existir um outro blog chamado Eclipse. Assinado por eles. Não clone ou gêmeo, mas outro e ao mesmo tempo este aqui. Eu sei que não dá para entender. Até porque não há entre nós sentimento de “irmandade” – não tenho vontade de pegar coleções de revistas em quadrinhos emprestadas do Mau ou de consertar o computador quebrado dele, coisas freqüentes na relação entre irmãos. Muito menos Marcele usa roupas da Paula e vice-versa, ou divide algum estojinho da Coty Girl, como sói acontecer entre irmãs. Nada disso.
É algo que sequer nos “une” – e isto não quer dizer que não tenhamos os sentimentos comuns de união e amizade. É mais que uma união, é uma identificação. Trata-se de uma conseqüência da Internet: seu campo de ação fica monumentalmente maior, e você obtém milagres – como o que eu obtive ao descobrir a Marcele em meio a toda a humanidade. Sem a Internet eu teria de achar a Marcele procurando por este mundo, provavelmente a cavalo e com uma espada. E com um GPS para andar pelas ruas de Quintino. Não acharia a Marcele. E sem a Internet eu jamais teria discutido a Copa de 2002 com o Mau, até então um dos fundadores do Futebol Brasil.
A Internet faz estes milagres. Sábado passado, folheávamos todos o Almanaque dos Anos 70 da Ana Maria Bahiana, quando vi Rosebud: uma propaganda do autorama Circuito Gávea da Estrela. Eu não tive. Mau disse:
- O meu está inteirinho, até hoje lá. Funciona perfeitamente. Uma Ferrari e um Copersucar.
- Com a pista? Não acredito – respondi, incrédulo mas sabendo que é verdade.
- Troquei os pneus ano passado, ou seja, está tudo novinho.
Houve uma pausa de uns 20 segundos até que eu disse:
- COMO ASSIM “troquei os pneus”?
Aí ele me disse que achou os pneus dos dois carros no Mercado Livre. Protagonizamos um comercial do famoso site de leilões e compras, a bem da verdade. Mas creiam-me: trocar os pneus dos dois carrinhos é algo que eu definitivamente faria.
Nada disto surpreende: nossas coleções de CDs e livros quase não têm diferenças, ao passo que a Paula e a Marcele pensam o mesmo sobre calor e praia e também preferem as massas (canelones, lasanhas, pizzas, nhoques, espaguetes).

Parte da minha coleção de CDs: Mau provavelmente tem todos estes aí
Continuamos o almoço, bebemos mais e mais, assistimos ao Concert for George, e a Paula e a Marcele dormiram em alguns trechos. Marcele sempre acorda em “My sweet lord”, mas veja o vídeo abaixo e diga se você também não acordaria.
Horas e garrafas depois, me lembro de estar descendo o bondinho do Pão de Açúcar. E eles convidaram a mim e à Marcele para sermos “The Best Man”. Padrinhos de casamento. Minha reação: catatonia. Claro, depois de garrafas e mais garrafas de vinho e de conhaque, além de cerveja, eu tinha relações muito próximas com a catatonia, e caso ela tivesse uma casa de veraneio, eu passaria o fim de semana lá e seria o encarregado de levar gelo e carvão. Mas, enfim, fiquei paralisado e adverti: “Olha, não sei como lidar com essa gigantesca responsabilidade”. Na verdade, a alegria e a felicidade eram tantas que eu não sabia o que fazer – e estávamos dentro do bondinho, qualquer comemoração mais forte poderia ser fatal.
Eu só sou padrinho da minha sobrinha Luiza. Ah, e de casamento dos pais dela, claro. Tenho mais um padrinato, mas o casal já se separou, portanto, creio que não tenho mais deveres e direitos sobre os mesmos. Ser padrinho da Luiza é uma responsabilidade gigantesca. Na verdade, creio que o padrinato (nem sei se essa palavra existe mesmo) é algo que inventaram para as pessoas que se formam em Ciências Humanas. Percebam, por mais que sejamos levados a cargos de chefia tais como editor de jornal ou coordenador dos cursos de Origami de um centro cultural, dificilmente temos sob nossa responsabilidade vidas humanas. Não ganhamos nunca o que ganha um piloto de avião, mas ao mesmo tempo passamos a vida sem ter a vertigem de saber que “Ei, é bom você saber aterrisar essa merda, senão morrem 300”. Mas quanto eu soube que iria ser padrinho da Paula e do Mau, e o bondinho começou a chegar à estação da Praia Vermelha, eu me vi cauteloso: “Oooooopa....isso....calma, garota....estamos chegando...abriirrrrr portasss!”.
Por isso, já sei onde vou estar em um fim de semana de maio: em Lages (SC). De terno, gravata e esperança, em uma mesa rubro-negra, com vinhos e felicidade. E vou de avião – calma, vou deixar tudo a cargo do piloto. Afinal, já estarei indo ao encontro de uma grande responsabilidade.
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27.01.08
Rio, o Carnaval engarrafado

Imagine a situação: eu, brincando de Deus, e você, prefeito da sua cidade. Eu ligo para você com pressa:
- Oi, meu amigo. Aqui é Deus. Quero te fazer uma proposta.
- Diga lá, ò Todo-Poderoso! Obrigado pela classificação à Libertadores ano passado, viu, a torcida do Mengão agrade...
- Esquece isso, esquece, quero falar de outro assunto. No mais, todo mundo ainda reclama do pênalti que eu perdi contra a França. Está me ouvindo bem?
- Sim, pode falar, Senhor!
- Olha, vou fazer umas mexidas aí na tua cidade, ta? Vou implantar um novo programa cultural e de lazer. Consiste nas pessoas irem descalças pisar no asfalto fervendo, andando indefinidamente em grupos, com latinhas de cerveja quente e ruim na mão, enquanto os ladrões atuam sem controle e o barulho infernal de músicas ruins entra por todas as janelas. Pode ser?
- Só isso, Mestre?
- Não. Além disto, vou colocar grupos destes por toda a sua cidade, cessando o direito de ir e vir de quem não fizer parte deles. Haverá engarrafamentos colossais e você vai dar autorização para que as ruas sejam interditadas. E não vale avisar o cidadão muito antes do trecho!
- Mais alguma coisa, mestre?
- Sim, você deve cuidar para que as viagens de carro que antes eram feitas em 10 minutos passem a durar mais de uma hora. Agora, me diga, você me diz sim ou não?
Eu pergunto, você diz sim ou não? Bom, se você diz sim, você é um cara de bom humor, jovem e não deveria estar lendo este blog escrito por um sujeito ranzinza e que reclama de tudo na vida. Pode fazer mal ao seu fígado e na sua aposentadoria certamente você vai ser síndico, se a rabugice do blog te contagiar. E uma vez síndico, vai proibir o uso da piscina à noite. Se você diz Não, Senhor, seja bem-vindo ao Eclipse. Você não gosta de Carnaval e não entende por que aquelas pessoas estão pulando e cantando em homenagem a seres míticos como Pierrô e Colombina, e acha que não vê sentido em comemorar o início de uma quaresma que você mal percebe ou pratica, bom, você tem companhia.

Para quem mora no Rio de Janeiro, é quase uma blasfêmia falar mal de Carnaval. Até porque, nos últimos cinco anos, o Carnaval do Rio voltou a ser o melhor do Brasil, graças ao surgimento de centenas de blocos novos, com os nomes mais bizarros possíveis, como Rôla Preguiçosa ou Que Merda é Essa?. Se antes o tríduo momesco no Rio de Janeiro só chamava a atenção por causa do desfile das escolas de samba, hoje ganha projeção internacional graças aos gigantescos blocos de rua. E é aí que mora o problema: a prefeitura percebeu isto e liberou geral. Está certo? Bom, deve estar. Mas acho que antes o poder público deveria ter criado um sistema de helicópteros pronto para transportar gratuitamente todo aquele que precisa se deslocar com urgência, como pessoas com graves enfermidades, acidentadas ou gente com vontade de ir ao banheiro fazer número 2. Afinal, o Carnaval é simplesmente aquele período em que o prefeito chega e diz: “Vocês querem beber, berrar e fazer zona no meio da rua, fodendo a vida dos outros? Têm minha autorização”. Não me venham dizer que não é isso. É basicamente isto. Se é divertido ou bacana, depende do gosto de cada um. Eu até tento entrar na onda, mas já tenho meu próprio ritual tribal, quase todos os domingos, que é ficar em uma espécie de arena ao lado de milhares de pessoas mandando outras milhares de pessoas TNC ou à PQP. E, acreditem, quando aqueles 11 caras de vermelho e preto conseguem algo realmente grandioso, eu fico igualzinho a essa gente toda do Carnaval: interditando ruas, bebendo cerveja quente e berrando. Só não fico descalço no asfalto quente.

Para mim, operário de indústrias de comunicação há mais de 10 anos, Carnaval significa basicamente uma coisa: aporrinhação. Não costumo ir para o Sambódromo – creio que as pessoas que fazem as escalas em todos os jornais que trabalhei já perceberam que eu não teria condições de acompanhar o espetáculo. Além do mais, as notas dadas para escolas de samba têm tanta objetividade quanto aquelas dadas para Saltos Ornamentais. Se até hoje para mim é um mistério porque um salto leva nota 8,7 e o outro leva 8,5 (e a nota é dada em segundos, veja bem), também escapa à minha compreensão porque diabos “Harmonia” é avaliado com 9,8 e não 9,9 – ou 10. E como avaliar o samba-enredo? Sim, eu sei, você avalia o samba em “bom samba” ou samba chato”. Mas dar 6,7 para um e 7,2 para outro, sinceramente, não saberia como fazer. É só transferir, por exemplo, para “Músicas dos Rolling Stones “. Vejamos: dou 10 para “Shine a Light” (uma das minhas favoritas) mas 8,6 para “Live with me” e 5,5 para “2000 light years from home”. “Satisfaction”? Ganha o Estandarte de Ouro porque encanta as arquibancadas, mas eu tiro 0,8 pontos porque o riff é muito repetido.
Será assim que se avalia? Não sei. Sei a nota que dou para o engarrafamento que peguei ontem, que atrasou minha vida por causa dos blocos: zero.
Ainda que o engarrafamento tenha tirado 6 em evolução e 9 em alegorias e adereços.
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24.01.08
Mau-humor no escritório: cinco possíveis causas e como combatê-las

O trabalho com mau humor deve ser realizado neste ambiente
O tema “grosseria em ambiente de trabalho” tem feito parte da minha agenda de debates nos últimos anos. Eu e Marcele chegamos a criar um blog que, se não era sobre o tema em si, pelo menos o abordava, em meio a uma série de outros correlatos – o blog se chamava RH Negativo, e era exclusivamente de histórias do mundo corporativo. Eu e Marcele já tivemos problemas com este mundo - principalmente telefonemas de telemarketing nas manhãs de sábado - e por causa disto, tal projeto foi a nossa primeira parceria. Na verdade, o blog ainda existe e estamos fazendo planos de reativá-lo, já que o tema Escritórios tende a voltar, com o sucesso da extraordinária série The Office (na foto abaixo). Mas, enfim, a primeira coisa que eu teria a dizer sobre a grosseria no ambiente de trabalho é que não faço a mais remota idéia do motivo de sua existência. Pode parecer um questionamento óbvio, mas eu gostaria muito de entender por que diabos uma pessoa acha que pode e deve ser grosseira no trato com integrantes da mesma equipe. Tal prerrogativa, na minha modesta opinião, pertence apenas a zagueiros que usem uma faixa de capitão no braço. E isto quando o time está ganhando de 1 a 0 e a estrelinha tenta um drible a mais, perde a bola, quase cedendo ao adversário o empate. Com exceção disto, vejamos que motivos podem levar alguém a ultrapassar os limites do profissionalismo e tratar o próximo com este tipo de desdém sangrento:

Acima, elenco da série The Office
Caso 1 - Porque o outro fez uma besteira e o esporrento não quer que isto se repita – Bom, é a maneira de, ocorrido um acidente ou coisa assim, combater a conseqüência, e não a causa. Algo como o governo distribuir air-bags nos fins de semana prolongados argumentando que vai diminuir o número de acidentes. A primeira coisa que um chefe ou colega tem de pensar antes de ser mal-educado é que o outro pode ter tido um bom motivo para proceder errado, e não perguntar que motivo foi esse (e analisá-lo seriamente) é o mesmo que culpar o goleiro por sofrer gol de pênalti (daqueles que foram provocados porque o Júnior Baiano colocou a mão na bola).
Caso 2 – Alguém acha que sabe mais que outrem – Este é um tipo muito comum. Alguém que sabe algo tem a mania de reagir com irritaçãozinha ao esclarecer algo para quem não sabe. Sobre isso, eu diria que o conhecimento humano é vasto e pessimamente distribuído – muito pior distribuição que a de renda em São Conrado (incluindo Rocinha). Basta olhar como os participantes dos Big Brothers são “excluídos” da distribuição de conhecimento – outro dia, me conta uma colega de trabalho, um dos participantes dizia não saber o que é “frevo”. Ocorre que, justamente por ser mal distribuído, o conhecimento tem facetas diferentes. Um sabe coisas que o outro não sabe. Tal frase, por mais que óbvia, é capaz de fazer pessoas em ambientes de trabalho ficarem completamente catatônicas. O colega de trabalho mais arrogante é incapaz de perceber que o cara da faxina para o qual ele não dá bom-dia sabe, por exemplo, a escalação completa de Flamengo x Vasco na decisão de 1977 (eu mesmo não sei, teria de consultar). E acredite: há sempre um momento em que um conhecimento pode ser útil. Um maluco ao lado pode estar teimando que o goleiro do Vasco NÃO era o Mazaropi. Aí você entra rasgando.

Caso 3 – Alguém tem mais tempo de casa ou de profissão e crê que o noviço tem de sofrer a mesma coisa – A isto chamo anacronismo. Por exemplo: todos os católicos apostólicos romanos seguem a Bíblia. Seria justo que mantivéssemos o apedrejamento como punição para mulheres que pecam? Faria sentido que sacrificássemos cordeiros no alto de morros? A mesma coisa se aplica ao trabalho. Eu, por exemplo, sofri no início de carreira com o hábito de escrever em máquinas Remington não-elétricas. Em três vias, com papel carbono entre elas. Se algo desse errado, a solução era....arrancar da máquina a folha, embolar com ódio e sofreguidão e escrever a mesma merda tudo de novo. Seria justo que eu fizesse com que algum subordinado meu (em qualquer lugar que eu trabalhasse) abandonasse o computador e a tecla Del em nome de um “sofrimento que eu julgo necessário”? Não, certamente. Por isto, não vejo por quê impingir a pessoas mais novas os esporros que eu mesmo já levei de figuras que eu hoje considero mito e antológicas. E que, de certo modo, até me ajudaram. Acho, sim, que os noviços devem ser avisados, bem, de que o mundo não é exatamente o melhor lugar para se morar e que trabalhar não é uma coisa tão prazeirosa e tranqüila quanto um lanche de fim de tarde na Confeitaria Colombo de Copacabana.

Caso 4 – Alguém tem problemas pessoas e/ou afetivos e acha que a pessoa ao lado não tem direito de ser feliz ou sorrir – A isto costumam simplesmente chamar de mau-humor. Eu chamo isto de socialismo do osso. O sujeito divide só o osso, só o que tem de pior. Bom, é claro que eu não peço e nem desejo que colegas de trabalho dividam suas felicidades sexuais. “Caramba, hoje comi fulana, tava uma delícia” é uma frase que costuma desconcentrar e atrasar minha ida até a cantina. Mas ao mesmo tempo, não quero perceber que há algo errado com a vida da pessoa ao lado, a não ser que esta chegue numa boa e converse num tom tranqüilo sobre os problemas que mais afligem a alma humana. “Cara, não dá, com três atacantes não dá, hoje em dia tem que jogar com dois volantes, ele não entende isso, vamos tomar gols” ou “Para que comprar tantos meias e ficar só com o Souza e o Obina para o ataque?” são desabafos e questionamentos que considero palpáveis e que justificam qualquer mau-humor ou sofrimento. Mais legal é dizer logo que algo acontece. Não deixe seu colega de trabalho fazer conjecturas. Escolha: ou trate com profissionalismo e discrição ou diz logo que está de ovo virado e explica por quê, pedindo desculpas por qualquer inconveniente.
Caso 5 – Alguém tem chefes mais acima e se sente inseguro – Caso clássico. É conhecidíssima a frase e o autor: “O bom chefe tem que ser odiado por mais da metade da equipe que comanda”. Um editor famoso e muito bem-pago tem este conceito, totalmente ultrapassado. Já passei pela gestão dele. O conceito de ser odiado como chefe é ultrapassado e, numa boa, acho que ninguém controla pelo ódio. Pelo contrário: ódio suscita disse-me-disse, rebelião, puxadas de tapete, concorrência entre pessoas de mesma equipe, medo, insegurança. O bom chefe, para mim, tem de unir comando, firmeza e liderança. Comando, porque a hierarquia tem de ser militar, senão não funciona. O soldado não pode levantar a voz para o sargento (e, no meu conceito, o contrário é proibido também). Firmeza, porque as decisões têm de ser assumidas e os prejuízos destas não podem ser impostos apenas ao subordinado, e sim a quem deu a ordem. E liderança porque, acima de tudo, os subordinados devem ter no chefe alguém de quem eles não queiram se livrar jamais. “Com este cara tem diálogo, vamos dar o melhor para ele não sair” é uma das frases que os subordinados devem ter em mente. “Finalmente um chefe que usa camisas para fora da calça” é outra constatação que pode ser benéfica para o ambiente de trabalho.
Se o mau humor no seu trabalho decorre de algum destes cinco casos, mande o link do Eclipse para os colegas. E lembre-se de jogar na Mega Sena: esperança também faz bem ao ambiente de trabalho.
PS - Aliás, falando em link, clique aqui, vote no Eclipse, e nos ajude a escapar da queda para a segunda divisão (se é que estamos mesmo na primeira...)
22.01.08
O bonequinho discute a relação: como decidir qual filme o casal vai ver?

Nestes tempos de escolha da Lista do Oscar, me vêm à cabeça uma batalha silenciosa de quem tem um relacionamento amoroso heterossexual: a difícil decisão de que filme assistir no cinema. E digo "heterossexual" sem nenhum preconceito: hoje em dia estou convencido de que casais gays têm facilidade muito maior para tais tomadas de decisão do que casais formados por um homem e uma mulher. Um casal gay não hesitaria diante de Querelle, Priscilla a Rainha do Deserto, Brokeback Mountain ou La cage aux folles. Aliás, Seinfeld foi o primeiro a destacar a praticidade de ser um casal gay: “É o único casal que economiza ao dividir as roupas e sapatos”.
Agora, coloque qualquer um destes filmes na frente de um casal heterossexual, e terás a possibilidade de um conflito. Não é preconceito, é apenas uma estatística – tenho certeza de que há casais que concordam em ver e concordam em não ver. Mas quando falamos de possibilidades, precisamos buscar as maiores.
É fato que se trancarmos um casal heterossexual em uma sala branca, com uma TV e um DVD player, diante de uma prateleira com 10 DVDs, eles demorarão pelo menos uma hora e 35 minutos para decidir qual filme ver primeiro. E se o filme for chato, o homem passará a segunda metade do filme resmungando: “Bem que eu falei para vermos Sexta-feira 13 Parte VII”.
Tal tipo de conflito já é registrado por Rita Lee e Erasmo Carlos em “Fama de mau” (“Meu bem ir ao cinema é uma coisa normal/Mas é que eu tenho de manter a minha fama de mau”): no fim da música, eles conversam, o Tremendão concorda em ir ao cinema mas com a ressalva esbanjando testosterona: “Só se for para ver um filme de COW-BOY” (ele fala assim, separado mesmo).
Hoje, Rita Lee devolveria na lata, em falsete: “Tá bom, meu bem, vamos ver Brokeback Mountain”. Este fim de semana, a Marcele optou por ver Eu sou a Lenda, do Will Smith. Aliás, achei ótimo. Na verdade, os meus planos eram ver Meu nome não é Johnny, e ela pensou em ver “Desejo e Reparação”.
O conflito foi decidido por um dos amigos do casal, que JÁ tinha visto "Meu nome não é Johnny" e queria ver o filme do Will Smith. Por educação e cortesia (eu sei que foi muito por isso), Marcele topou. Perguntei pela sinopse (sério, sequer sabia que era refilmagem) e, quando me contaram, lembrei de uma restrição que ela havia se auto-imposto recentemente, a de não ver filmes de terror.
- Marcele, você vai ver um filme de terror?
- Gustavinho, não é um filme de terror. A crítica está falando bem. É ficção científica.
Me calei diante da constatação surpreendente da minha mulher de que não é terror um filme onde um sujeito está completamente sozinho em um mundo com pessoas transformadas em monstros e que só saem à noite para caçá-lo. Um filme onde o sujeito mora em uma casa grande e que é obrigado a encerrar as próprias janelas com chumbo quando o sol se põe e dorme em uma banheira com um fuzil. Tudo bem, não é terror não, vamos lá.
Como eu já disse, curti muito o filme, apesar de ter saído de lá com a impressão de ter exercitado o coração com injeções grátis de anfetaminas. Mas me lembro de ter sacaneado a Marcele na escuridão do cinema. No momento em que cachorros-zumbis gigantescos estão sendo impedidos de passar e atacar Will Smith graças a um fiapo de sol prestes a desaparecer, vejo a Marcele com os olhos arregalados e as mãos prontas para serem colocadas neles. E sussurro no ouvido dela:
- “Gustavinho, não é um filme de terror”
Acho que ela nem ouviu.
Ir ver “Eu sou a lenda” foi excelente para quebrar um hábito. O último filme pauleira que nós tínhamos ido ver foi “Os Infiltrados”, com uma violência tal que nos fez sair neuróticos do cinema. Teve também “Munique”, um filme tão barra-pesada do Spielberg que Marcele precisou se sentar novamente e eu precisei beber um chope “vira-vira” depois de sair da sala de projeção. Ambos têm uma violência crua e um clima de angústia difíceis de serem igualados. “Eu sou a lenda”, creio, superou em angústia e sustos, mas não em violência – já que não há pessoas no filme contra as quais Will Smith pudesse praticar violência (a não ser a violência que ele pratica contra nossos ouvidos ao solfejar “I shot the sheriff”).
Por respeitar sobremaneira a decisão da Marcele de não ver filmes de terror, deixo de ver vários que eu gostaria. Por exemplo, não vi nenhum dos “Chamados”, 1 e 2, no cinema. Vi em DVD. O mesmo vale para “O Grito” 1 e 2. E a refilmagem de “A Profecia” – se bem que, sinceramente, perto do original, este é um filme tão engraçado quanto “American Pie”. Vi outro dia a refilmagem da já clássica cena do cemitério com os cachorros, e, na boa, um clipe de Thriller do Michael Jackson me dá mais medo.
Homens e mulheres sempre terão estes problemas na hora de ir ao cinema. Filmes “Meg Ryan” não são prioridades masculinas, porque essencialmente gostamos de explorar as potencialidades dos novos cinemas multiplex da era digital. Convenhamos, não dá vontade de sair de casa para ver um filme em que não há nenhum carro desabando de uma ponte com 40 metros de altura ou um prédio de 30 andares sendo atacado por pterodáctilos flamejantes. A gente precisa ouvir estes sons para relaxar. Filmes em que não há barulho de ossos sendo partidos, sinceramente, não nos seduzem tanto.
É claro que estou brincando – afinal, em 2007, um dos filmes mais bacanas que vimos foi “Saneamento Básico”, nada de ossos quebrando. Mas tais escolhas apenas confirmam que o acordo homem-mulher é raro. “Saneamento básico” está na lista de filmes que eu e Marcele concordamos em ver no ato, na hora. Assim como “Little Miss Sunshine” (um dos melhores filmes de todos os tempos) e “Ligeiramente grávidos” (ótimo também).
Agora, bem que este último poderia terminar com o pai da bebê sendo convocado para a guerra no Iraque e seqüestrado por xiitas. Pelo menos daria gancho para a seqüência.
19.01.08
O Big Brother do Natal e o ano que ainda não começou
Eu sei, 2008 ainda não começou. Digamos que 2008, até a Quarta de Cinzas, seja apenas um bebê que não fala. Só vai começar a berrar um pouco depois do Carnaval, e mesmo assim baixinho. Ainda tem a tal Semana Santa, período que antecede o tempo mágico no qual tudo vai ser resolvido. No Brasil, eu sei, existe a síndrome de “mañana” que atribuímos errônea e injustamente aos mexicanos. Parem e se recordem de anos como 1986 e 2006: Carnaval, Semana Santa, Copa do Mundo, Eleições, Natal e Ano Novo. Sendo que em 1986 ainda teve cometa Halley e a convocação do Elzo para a Seleção Brasileira (sinceramente, adiei todos meus compromissos da época para depois da convocação do Elzo).

Em 1986 teve até Cometa para tumultuar o calendário
Mas hoje, 18 para 19 de janeiro, respiro aliviado diante da constatação de que pelo menos acabaram as festas de fim de 2007 – Natal e Ano Novo. Junto com o Carnaval, estas duas épocas compõem a Santíssima Trindade para nós, jornalistas. “Santíssima” para não dizer outra coisa. Some-se o fato de ser jornalista ao fato de ser casado e, voilá!, fica-se a um passo de ter verdadeira repulsa ao Natal. Se eu não fosse casado com a Marcele (hipótese na qual não gosto nem de pensar), talvez odiasse Natal – mas certamente não há como odiar o Natal sendo casado com a Marcele. Os olhos dela brilham no Natal, ela adora.

Só que as negociações relativas ao Natal envolvem hoje pelo menos quatro núcleos familiares – isto falando por baixo: o meu (eu e Marcele), o da família da mulher do meu irmão, a do núcleo original da Marcele e o do meu núcleo original. Meu pai, vivo fosse, acabaria com as negociações: “Vai ser aqui em casa, não enche o saco”, diria o velho. Mas hoje em dia não.
E digo quatro núcleos por otimismo: ainda tem o da tia da Marcele. A tia dela faz aniversário dia 25 de dezembro (ela e o Joel Santana), o que torna cláusula pétrea a ida da Marcele à casa da tia. Ou seja, imagine negociar Natal com quatro núcleos e ainda com uma cláusula irremovível que é o dia 25 na casa da tia da Marcele. Ah, e detalhe: sendo jornalista e ESTANDO DE PLANTÃO no Natal....
Geralmente, os casados começam os debates do Natal em outubro. A primeira providência para abrir os debates é puxar da memória onde foi a ceia e onde foi o almoço do dia 25 no ano anterior. Não, não é simples assim. Uma das partes sempre terá um argumento para impetrar um pedido de liminar:
- Fernando, a gente não almoçou na sua mãe no dia 25? Este ano quero almoçar na casa do meu pai.
- Mas amor, a minha mãe vai passar a noite do dia 24 na casa do meu irmão.
- Ué, por quê a gente não vai para lá?
- Porquê você quer ir na sua irmã. Epa! É mesmo! Como assim? O almoço é meu.
- É, mas quem escolheu ceia na casa da minha irmã foi você, ué!
- Bom, muda tudo então.
- Minha irmã já encomendou os pratos.
- Pô, mas estamos em outubro!
- Na minha família é assim, a gente é organizado.
- O que você está querendo dizer? Que a minha família é desorganizada?
- Não disse isso, mas bem que a sua mãe podia ser um pouco mais atenta, né? Ano passado ela esqueceu do pernil e a ceia foi terrível!
- Como assim, ceia? Você acabou de me dizer que a gente almoçou na minha mãe dia 25!
- Eu disse? Foi você, Fernando.
- Não, foi você. Aperta a tecla Page Up e vê.
- Ah, mas enfim, teve um ano que ela esqueceu o pernil.
- E daí? Sua família é que é perfeitinha e delicada?
- Não, mas a tua faz muita zona e teus primos são uns primatas.
- (....)
- (....)
Natal é tempo de paz. E os casais, mundo afora, passam dois meses em negociações que parecem as de Churchill, Roosevelt, Stalin e Hitler na Conferência de Munique (aquela de 1938, que acelerou a Segunda Grande Guerra). Aliás, eu mesmo não entendo por quê o Natal é uma festa exclusivamente da família, algo que fecha a humanidade em pequenos blocos humanos, relegando à solidão milhares de pessoas por aí que por um motivo ou outro estão sem família (temporária ou definitivamente). E, o que é mais engraçado, guardaram o Dia da Confraternização Universal para o dia 1ª de Janeiro – não por acaso um dia em que eu gostaria de jamais ver qualquer ser humano na minha frente, tamanha a minha ressaca. Se fosse o Natal uma festa coletiva, acho que todos os problemas estariam resolvidos. Passaríamos o Natal num grande restaurante, numa daquelas mesas gigantescas. Mas não, o Natal foi feito para gerar amplos debates.
Os pais – ou apenas mães ou apenas pais – ficam esperando a decisão. E torcendo muito. Imagino até que eles se reúnam, com telão ou TV de Plasma, e fiquem assistindo, comendo pipocas e bebendo Ice Tea de pêssego. Nós, filhos, discutindo e se atordoando, e eles lá, no ar-condicionado e vendo a gente no Big Brother Brasil do Natal.
- Hmmmm....(mastigando milho que não estourou)...E aí, quem ta ganhando?
- Acho que teu filho vai conseguir a ceia. Que pena. Esse ano eu queria a ceia.
- Ô, dona Marluce. Normal. Tua filha curte mais é almoço na sua casa, tarde do dia seguinte, essas coisas....
- Mas seu Ranulfo, este ano eu tinha preparado um guisado especial...
- Marluce, cala a boca senão ele vai querer que guarde pro almoço do dia seguinte!
- Ô, seu Oswaldo, tou morrendo de fome não.
- Olha lá, olha lá – diz dona Matilde, esposa de Ranulfo e mãe do Homem. – Ele está usando o argumento da vaga na garagem!
- Isso é desleal! – protesta dona Marluce, mãe da Mulher. – Oswaldo, faz alguma coisa! Fala alguma coisa! Vai lá!
- Cala a boca, Marluce. Isto é só um jogo!
- Meu filho é fera, olha ali! Está argumentando que a ceia tem de ser na casa da irmã, na Barra porque lá tem garagem com segurança! – diz Ranulfo, pai do Homem.
- Não adianta, eu vou virar a mesa: digo que pego as crianças de manhã – argumenta Oswaldo, pai da Mulher.
- O senhor não se atreva! – responde Ranulfo, colocando dedo na cara. – Olha a regra!
As mulheres entram no meio separando, até que Marluce, mãe da Mulher, dá um grito:
- Gente! Gente! Olha lá, ela virou o jogo!
- Mas o que ela falou? – pergunta Ranulfo.
Os casais silenciam, Matilde aumenta o volume da TV e ainda ouvem:
- “.....e nenhum jogo da Libertadores...”
O Homem capitula. A ceia é na mãe dela.
16.01.08
Neuroses tecnológicas - A ciência a serviço da aporrinhação
Apesar de estar muito longe de ter me formado em psicologia ou mesmo ter lido até mesmo autores mais básicos da área como R.D.Laing, tenho lá minhas teses sobre o comportamento neurótico. A bem da verdade, eu deveria receber o pHD em Neurose, já que até – em tese – perdi um emprego certa vez, supostamente por ter enviado um email por engano chamando um colega de profissão de “neurótico de guerra”. É evidente que o email foi enviado para o ofendido sem querer. É o perigo da maledicência: pelas costas, sempre gera riscos como a vingança ou a hemorróida.
Tenho a tese sobre Neurose de que elas estão diretamente relacionadas aos bens e serviços de suas épocas específicas, i.e., muitas delas são geradas por peculiaridades do tempo em que vive o paciente. É fato que hoje não encontraremos pessoas com irritabilidade específica com discagem telefônica naquele disquinho que antecedeu os teclados – bem como não havia em 1950 gente que odiasse música eletrônica e jingles baseados em músicas baianas.
Eu conversava outro dia com um roteirista de famoso filme de sucesso e reparei o quanto era difícil manter cinco minutos de conversa com o mesmo (aliás, um cara que é uma excelente conversa): como dezenas de pessoas o ligam a cada hora, constantemente ele tem de sair da minha ligação – pedindo licença – para atender outra em espera. E senti saudade do tempo em que não havia “chamada em espera”. De fato, quando é comigo é algo extremamente neurotizante: estou falando com sabe-se lá que secretário ou investigador, e ouço o “beep, beep, beep” constante, olho no visor e vejo “Marcele”. E penso: “Se eu não atender, ela vai ficar preocupada”. “Diacho”, diria o Capitão Marvel que não era da Marvel.
Sendo assim, mais uma lista: a de 10 modernidades que vão gerar neuroses.

1- O CELULAR – Esta é manjada, mas não poderia faltar em uma lista decente, e em primeiro lugar. Nos tempos em que não existia o fantástico telefone móvel (sem dúvida um dos maiores avanços da civilização, mas neurotizante), a Marcele me telefonaria no parágrafo anterior e ouviria o velho sinal de OCUPADO. Velho e saudoso. Aliás, nem isso, já que ela não me ligaria ao celular. Tentaria me achar no trabalho. Nos tempos pré-telemóvel, se deixava recado e não se dizia “Vou tentar o celular” para o infeliz que teve o trabalho de atender o telefone, como se diséssemos, “Tentar ligar pro celular é uma alternativa melhor do que deixar recado com você, seu imbecil”. E bons tempos aqueles em que não éramos achados e isso não gerava imagens na cabeça de nossos entes queridos como "corpo deitado no chão sobre poça de sangue com o celular tocando em vão do lado e prestes a ser atendido pelo bombeiro do rabecão".
Hoje, o cara não ser achado é visto como criminoso ou vítima de crime. Se sumiu e não atende celular, ou o cara despreza o emprego ou está cometendo adultério, dependendo de quem ligar. O quê? Você NÃO TEM CELULAR? – esta é a frase-chave desta neurose.
2-A CHAMADA EM ESPERA – Seja em celular, seja em telefone fixo, a chamada em espera é algo feito para neurastênicos de carteirinha. “Só um minutinho” e lá vai o cara para a outra ligação. Comédias invariavelmente usam este recurso. Em “The Holiday”, comediazinha romântica bem interessante com Cameron Diaz. Kate Winslet, Jack Black e Jude Law, há esta troca involuntária de chamadas, gerando mal-estar. Na vida real, é um porre. Para jornalistas então, é um suplício: numa ligação, está o promotor público que cuida da chacina da Baixada Fluminense. Na outra, minha mãe perguntando se eu troquei o filtro da pia nos últimos três meses. Os assuntos se misturam. Não me pergunte como.
3- SONS RANDÔMICOS – Hoje em dia o sujeito programa sons para tudo: recebimento de mensagens no celular, erro no uso do mouse, chegada de emails no computador, mensagem na caixa postal, alerta do celular para hora de tomar remédio – isto tudo sem contar o breepbreep dos rádios Nextel, a última onda entre os mais avançados tecnologicamente e economicamente. Considerando que cada indivíduo num local de trabalho “gera” três sons diferentes (e rezando para que seus flatos sejam do tipo bufa e não barulhentos), e em um escritório com 30 funcionários, pode-se entender que, em um dia de trabalho, você ouvirá pelo menos noventa sonzinhos diferentes para as mais variadas modalidades.
4-O ORKUT -Vai gerar neurose, aviso logo. Hoje em dia, você conhece alguém em um ambiente de trabalho e vai logo no Orkut da pessoa para ver que amigo seu a conhece. No dia seguinte, liga pro amigo: “Aí, conheci fulano. Vi no orkut que você é amigo dele. Qual é a do cara?”. Resposta neurótica do amigo: “Cara, não é tão meu amigo assim não, o cara me enviou convite e eu aceitei. Saí com a irmã dele um vez, não comi, mas ele foi ao boliche na mesma noite e viu a gente na fila do milk-shake” (boliche? Milk shake? Havia Orkut na década de 50?). O Orkut basicamente fez de todos nós uns arapongas. Fuxicamos as fotos, olhamos os depoimentos, e até lemos os recados alheios. Bonde neurose total. Aguardem: em mais dois anos, os consultórios de psicologia terão pacientes com problemas psíquicos gerados pelo Orkut.

5-AS MILHARES DE BRINCADEIRINHAS DO FACEBOOK – Isto é neurose total. A cada vez que entro no site de relacionamentos Facebook, tem lá alguém com tempo de sobra para mandar convite para uma brincadeira em que você vira zumbi ou vampiro e ganha pontos se morder alguém. Sim, é preciso ter tempo de sobra e uma expectativa de vida de 900 anos para usar todas as babaquicezinhas do Facebook. Incrível ver homens adultos, professores, advogados, médicos, enviando “uma mordida” para você ou então um “chopinho virtual”. Isso aí me lembra brincar de casinha, quando minha sobrinha Luiza está brincando de fazer chazinho e eu pego a xícara de brinquedo, viro na boca e digo, “Que chazinho gostoso, Luíza”. Imagine que todos os dias malucos do Facebook estão enviado cervejas, drinks com nomes gays (“sex on the beach”, “tom collins”) e brindes simbólicos uns aos outros. O que significa tudo isso?
6-O CONVERSOR SEM OPÇÃO MANUAL DA NET DIGITAL – A neurose será para internação em manicômio judiciário. Já me imagino no alto de um prédio, com um rifle e ouvindo Alá me orientando a derrubar os cães infiéis – pelo menos se acontecer mais uma vez de o controle remoto se perder e eu precisar trocar de canal rápido para o SporTv porque ouvi na TV do vizinho um gol. Um gol, claro, no clássico entre Ipiranga x XV de Piracicaba na Copa SP de Futebol Junior (ou evento de grandeza equivalente). O novo conversor digital da NET não é como aquele antigo, que permite ir clicando até o canal chegar. Inexiste tal opção. Eles nos fizeram escravos para sempre do controle remoto. Para um casamento não amadurecido, inclusive, isto pode ser fatal.
Não é nosso caso, graças a Deus – já que fomos sábios e obtivemos duas televisões.
7-O MESSENGER – Neste caso, as consultas clínicas, além da área de psiquiatria, serão feitas também, claro, aos reumatologistas e ortopedistas que tenham especialização em ergonomia. O messenger é outro fator de “aproximação” entre os amigos com um diferencial: seu amigo nunca sabe como é seu dia-a-dia, o que faz com que ele te considere sempre disponível. Não raro recebo perguntas como “E aí?” (questionamento que deveria ser respondido por Sófocles ou Platão) no período de tempo compreendido entre as 18h30 e as 22h30. Não há dúvidas que o cidadão normal, bem ajustado na vida e sem traumas está, neste horário, completamente à toa e pronto para uma boa conversa. Não tem a menor obrigação de saber que das 18h30 às 22h30 eu torço para ter prisão de ventre a fim de não precisar nem ir ao banheiro. Neste horário, somente uma atriz pornô de filmes de gangbangs com mais de 20 homens atinge o mesmo nível de ocupação que eu. Trabalho em um jornal, é apenas isso. Mas se eu não respondo ao amigo que está no GMAIL me perguntando se eu lembro quem compunha com Capitão e Careca o ataque do Guarani de 1978 (respondo logo, era Bozó) é óbvio – e normal – que o cara fique chateado. No MSN então, é pior ainda. A neurose é: entrou no MSN, alguém logo te aborda. Ninguém quer saber de usar o messenger como telefone, porque, afinal de contas, o seu telefone não fica dizendo para todos os outros telefones amigos “Ei, meu dono está em casa, caso precisem falar com ele”. E seria uma loucura eu plugar meu telefone e telefonar para a casa de um amigo meu e dizer “Qualé, maluco” para a primeira pessoa que atendesse.
Vejam bem, considero normal, a tecnologia é para isto mesmo. E ninguém precisa parar de me abordar nos messengers – para mim é suficiente que entendam apenas que, se eu não responder, é porque estou longe da mesa ou então discutindo ao telefone com alguém que está na emergência de um hospital fotografando policiais do Bope carregando corpos ensangüentados para atendimento. It´s the business’s bones, my friend.
11.01.08
Sete motivos para adorar o verão
Se o Gustavo listou os sete motivos para odiar o verão, eu vou tratar de listar os sete motivos para adorá-lo:

1) IMPLICAR COM O GUSTAVO. Se seu marido odeia o verão, você pode se divertir muito implicando com ele e com a campanha que ele promove contra a estação anualmente. Se o slogan dele é "O Rio de Janeiro só tem duas estações: verão e inferno" (supostamente creditada ao genial Maloca - "supostamente" porque quando a frase foi dita, todos no recinto estavam tão bêbados que ninguém tem muita certeza), o slogan da minha campanha desde o post de "Sete motivos para odiar o verão" é: "Eu não sei como você pode ser capaz de odiar algo tão natural e bonito quanto o verão, meu amor". Pra ser sincera, eu tenho usado essa frase pra quase tudo ultimamente: "Eu não sei como você pode ser capaz de odiar algo tão natural quanto o atraso do entregador de jornal, meu bem" ou "Eu não sei como você pode ser capaz de odiar alto tão natural quanto o fato de um político ser corrupto" são bons exemplos proferidos desde ontem.
2) HORÁRIO DE VERÃO. Eu odeio a primeira semana do horário de verão. Acordar uma hora mais cedo é chato, principalmente se você precisa acordar muuuuito cedo, com o céu ainda escuro (o que, felizmente, não é o meu caso). Ainda assim, depois que o corpo se acostuma com o novo fuso horário, é uma beleza poder sair do trabalho e ainda ter alguns minutinhos de Sol. Ou chegar na praia às 15h da tarde e só sair às 19h30min.

3) A TEMPERATURA. Eu simplesmente não gosto de frio. E, pra ser sincera, o verão aqui na zona sul do Rio nem é tão pesado. Quero ver é passar o verão em Bangu, com as temperaturas mais altas da cidade e sem a chance de dar uma passadinha na praia antes (ou depois) do trabalho.
4) SORVETE. Sou apaixonada por sorvete. E a temperatura ideal para consumi-lo só acontece em bons verões: 35oC.
5) ROUPAS. No verão eu tenho uma boa desculpa para não estar sempre bem arrumada ou bem penteada, além de ainda ter a vantagem adicional de usar mais chinelos e sandálias do que nunca. E quem me conhece pessoalmente sabe que se existe algo certo em minha aparência é o meu cabelo despenteado (bem vestida ainda vá lá; mas bem penteada...). Para não ser injusta, talvez eu não tenha ficado despenteada no casamento. Pelo menos nas primeiras horas.

6) PRAIA. Não sou exatamente a frequentadora mais assídua da praia (apesar de ter batido o meu recorde de três idas à praia no mesmo mês), mas devo confessar que ir na praia de vez em quando é uma delícia. Sentar em baixo de um bom guarda sol, olhar o mar, beber um mate gelado e arrematar com um biscoito globo é um dos programas perfeitos para uma cidade que está a 40oC.
7) O ANIVERSÁRIO DO GUSTAVO. Afinal, ele nasceu no auge do verão: dia 2 de janeiro. Se não existisse nenhum outro motivo para eu adorar a estação, esse me bastava.

Agora, uma pausa para os nossos comerciais:

O Eclipse foi indicado para o Prêmio Ibest. Apesar de eu não fazer idéia de como a indicação funciona, fiquei orgulhosa de ver alguns dos concorrentes. São seis vizinhos de condomínio participando, dividindo a mesma categoria (Blogs, Variedades): Pensar Enlouquece, Pense Nisso, do Alexandre Inagaki; Enloucrescendo, do Ian Black; Uma dama não comenta, da Giovana Cantarelli, da Lilase e do Mestre Delih; Ao Mirante, Nelson!, do Nelson Moraes; Hedonismos, do Doni e, finalmente, o Guloseima, da Luciana.
Como bem disse a Giovanna, não que a gente tenha a chance de ganhar um concurso de iôiô quando o Ina é um dos candidatos, mas não custa nada tentar.
E eu acrescento: não que a gente tenha a chance de ganhar quando um blog tão bom como o do Zander Catta Preta esteja em primeiro lugar mas, novamente, não custa nada tentar.
E já que eu estou falando de blogs bons, não posso esquecer do espetacular "Raios Triplos", que por enquanto não está concorrendo a nenhum prêmio, mas bem que merecia.
Se você quiser votar na gente, é só clicar no selo:

Categorias: Blogosfera, Comportamento, Cotidiano, Publicidade, Relacionamentos
8.01.08
Sete motivos para detestar o verão

Leme: onde o sol é mais bonito
O Rio em Janeiro, definitivamente, não é minha pátria. Não que eu me recuse a ir à praia (neste verão já fui à praia TRÊS vezes, o que praticamente triplica minha média anual), andar de bicicleta pela Lagoa, freqüentar quiosques e beber litros e litros de mate direto da fonte (aquele latão de metal). Nada disso. Sei entrar no clima. Mas é que o verão no Rio é algo que acaba com qualquer senso de humor. Groucho Marx se tornaria Zé Ramalho no verão do Rio. Syd Barret suicidaria umas cinco vezes. Ben Stiller e Will Ferrel pediriam para serem dirigidos por Ingmar Bergman (caso estivesse vivo) no verão carioca, pois este é de causar depressão em quem é obrigado a cumprir a maldição eterna, ou seja, trabalhar.
Sejamos francos: por mais legal que seja seu trabalho, até mesmo se você ganha muito bem para, por exemplo, empurrar pessoas para dentro dos vagões do metrô na hora do rush, tenho certeza de que você toparia parar de trabalhar caso ganhasse a mega sena. Ou, no mínimo, trocaria seu trabalho atual pelo hobby de empurrar pessoas para dentro de vagões do metrô na hora do rush.
Trabalhar ou mesmo se deslocar para o trabalho sob um sol sufocante de 38 graus no Rio de Janeiro é tarefa que mereceria até um projeto de lei criando a aposentadoria precoce. Sim, acho que nós, habitantes dos trópicos, merecíamos trabalhar menos do que pessoas como meu amigo Maurício Neves, que mora em Lages e freqüentemente comenta sobre caminhadas noturnas com um leve friozinho em janeiro após um delicioso jantar com vinho. Isto é parte de uma mensagem dele, enviada anos atrás, e que eu nunca esqueci – pois a li enquanto derretia em suores mesmo com o ventilador ligado ao lado do computador. Isto porque, por incrível que pareça, jamais tive no mesmo ambiente – pelo menos em casa – computador e ar-condicionado.
Além do calor, tem as chuvas, como citarei embaixo. Chuva é algo que fica bonitinho visto de dentro de um quarto, embaixo de cobertas, com ar-condicionado e televisão. E, de preferência, uns snacks com vinho tinto.

Só que é o seguinte: chuva quando tentamos nos deslocar através dela, flagrados no meio do caminho sem guarda-chuva, bom, não há como definir. Só mesmo a cara que fiz há uns 15 anos, diante de uma namorada. Eu tinha passado um dia péssimo em Niterói, indo e voltando da faculdade. Existe por aqui e até em Niterói mesmo um velho ditado que dizia “Pior do que Niterói, só Niterói com chuva”. Naquele dia eu assinei o ditado embaixo. Pisei em poças grandes e pequenas pocinhas. O cabelo encharcou e secou dezenas de vezes (não que eu ligasse muito). Os tênis e as meias se fundiram em uma maçaroca de tecidos em volta dos meus pés, uma maçaroca gelada. Pelo menos cinco carros atiraram água suja e enlameada passando a 200 quilômetros por hora.
Atravessei a cidade de Niterói, a Ponte Niterói-Rio e o Rio até chegar à casa da guria. E, ao chegar lá, desabafei diante dela – que tinha passado o dia em casa, exatamente do melhor jeito de ver a chuva, debaixo das cobertas. Depois de um desabafo em que só faltou eu chamar São Pedro para a porrada, ela me diz a seguinte frase, com uma cara visivelmente decepcionada e um tom de bicho-grilo na voz:
- Eu não sei como você pode ter um sentimento tão agressivo e atroz por uma coisa tão natural quanto chuva.
Desce o pano. Molhado.
Como acredito no potencial das listas, melhor fazer em forma de listas: xxx motivos para que eu não ache o verão esta festa toda – ou, melhor dizendo, xxx motivos para detestar o verão.
1- CASAMENTO DE VIÚVA – No caso do Rio, o verão tem essa particularidade irritante: você sai de casa sem guarda-chuva, debaixo de um sol de Saara, e de repente leva um pancadão de água na cabeça;
2- RODELAS – Não é o meu caso, porque me previno com o velho e bom banho, e ainda uso uma camiseta branca por baixo da social (o calor não fica maior nem menor). Mas é deprimente ver as pessoas com aquelas rodelas embaixo do braço. E mais deprimente ainda quando elas nos proporcionam odores semelhantes ao do escritório de um taxidermista (acho que desde que vi o episódio abaixo do Pica-Pau que eu não usava esta palavra).
Espere até um minuto de desenho para ver a palavra "taxidermista", em inglês. Este é o histórico episódio do "Mansões, iate, mulheres" e do "Camarão? Impossível, hoje eles estão de folga"
3- ROUPAS – Por mais que você lute, qualquer roupa vai te deixar com calor. Já no inverno, é diferente. Você escolhe a roupa e se apresenta melhor.
4- PROGRAMAÇÃO – No verão, torna-se suicídio escolher um programa em local sem ar-condicionado. Qualquer lugar sem ar, ou mesmo ao ar livre mas com restrições (tipo, “aberto”, como certos barezinhos) se torna o Inferno de Dante.
5- A ALEGRIA INCONTIDA – As TVs parecem querer nos convencer que tudo está maravilhoso. Creio que é influência do “Here comes the sun” dos ingleses – estes sim, precisam soltar fogos por causa do surgimento de um sol de 40 graus. Não vejo as TVs criarem símbolos para celebrarem a piedade, a clemência, quando a temperatura cai para níveis humanos em maio ou junho. Só vejo um maldito solzinho nas campanhas de verão e nas “programações de verão” de filmes e programas “jovens”. A associação de “verão” com “jovem” também é irritante, porque se baseia e consolida logo em seguida uma tese meio furada: a de que “jovem” não trabalha, fica o dia todo surfando. Aliás, eu nunca entendi o gigantesco nicho de mídia existente para o público de surfe. Em cada praia, do total da população, qual a porcentagem de surfistas? Qual a última vez em que você foi assistir, in loco, a uma competição de surfe, na arquibancada, torcendo e gritando “Tu és/Surfista de tradição/Raça, amor e paixão”? Quando você conseguiu assistir na TV a um programa sobre surfe INTEIRO, do início ao fim, sem que fosse apenas um programa apresentado pela Dora Vergueiro e pela Luiza Althenhoffen seminuas (aí não se trata de surfe)?
6- PRONTO PARA SUAR – No verão, o sujeito toma banho – seja quente ou frio – e sai do chuveiro, se enxuga e começa a se arrumar para trabalhar. Se o sapato ou a meia ou uma calça específica demandarem mais de cinco minutos de procura – é comum ter dificuldade de achar um par de meias – o sujeito JÁ ESTÁ SUADO e pronto para voltar pro banho. Aí ele olha para o relógio e pensa: “Fudeu”. Já vai ter que sair suado de casa.

Imagina você ser obrigado a ir a essa praia aí de cima
7- A OBRIGAÇÃO DE SER E ESTAR "VERÃO" – No verão, o cara que não está com saco de ir à praia vira um paria. Quem fala mal do calor abrasivo do Rio de Janeiro é tido como um subversivo perigoso. Se reclamarmos do sol inclemente que transforma capôs de carros em chapeiras de hambúrgueres somos perseguidos como bruxas na Idade Média. No verão, somos cafonas se não gostamos de andar por aí descalços e com uma latinha de cerveja quente na mão – hábito que tende a se tornar freqüente no carnaval. Como consegui encontrar uma praia razoavelmente civilizada recentemente, não tenho sofrido muito com isso. Mas continuo acreditando no direito de não ir à praia.
Próxima tese: o Rio seria melhor se fosse ali, na altura de Lages (SC). Nevaria no Cristo. E até haveria muito mais público para o surfe. Só não saberia como eu iria torcer pelo Flamengo também no surfe.
6.01.08
“Como recuperar 40 bilhões sem ter de aumentar os impostos” ou “A terrível história da CPMF” (a Contribuição provisória sobre movimentação ou transmissão de valores e de créditos e direitos de natureza financeira)
Eu trabalho numa instituição financeira pública. Ou, como gostam de dizer por lá, de “economia mista”. Atendendo ao público em uma instituição financeira pública, o que mais escuto são reclamações. Não só reclamações sobre a empresa, mas sobre o governo. Vocês não têm idéia da quantidade de vezes que eu escuto coisas como, por exemplo, “O meu empréstimo não é aprovado porque eu tenho o nome no Serasa, mas aquele desgraçado do Renan é inocente, né?” ou, uma das minhas favoritas, “Eu não vou pagar essa CPMF! Devolve o meu dinheiro!”.

Eu também quero o meu dinheiro de volta. Tudo o que eu já paguei em CPMF, desde 1996, e que tenho certeza de que foi mal aproveitado, eu quero de volta. É por isso que toda vez que um cliente pedia o dinheiro da CPMF de volta eu tentava explicar calmamente que eu, por mais que quisesse, não tinha como devolver. E que eu também detestava o imposto e que só de pensar em pagá-lo por mais alguns anos os meus olhos ardiam e eu achava que ia desmaiar.
Quando o Congresso deu um basta na Contribuição provisória mais permanente que eu já vi, fiquei bastante aliviada. E, durante alguns minutos, até não acreditei. Mas confesso que desde que esse novo “não-pacote” do governo foi lançado, estou começando a sentir saudades do velho imposto (para não dizer que estou com saudades do Collor). O Governo e trocentos políticos corruptos recebiam uns sete reais meus a cada dez dias, mas o que é isso perto da grana que eu pago de Imposto de Renda ou, até mesmo, de todo o dinheiro que eles recebiam da CPMF das contas milionárias que existem por aí?
Se a CPMF era o “imposto dos justos”, o “imposto que atinge a todos”, o “imposto que protege os pobres”, o “imposto que sustenta o SUS” (mesmo o congresso tendo aprovado há anos uma lei que desvinculava o dinheiro recebido através da CPMF da Saúde) o quê é esse “novo” IOF? Será que o IOF é um Imposto sobre Operações Financeiras que quer se vingar dos pobres coitados que rezavam para a CPMF acabar? Pobres coitados que pagam cartão de crédito atrasado, que precisam pedir dinheiro emprestado para pagar as contas e que tem de fazer financiamentos para poder plantar e colher a safra de feijão?
Eu não sei o que é pior. Esse novo IOF atingir principalmente quem o governo dizia tanto que tentava proteger com a continuidade do CPMF, ou as declarações estapafúrdias que eu tive de escutar desde o dia primeiro de janeiro, quando aconteceu o lançamento do “não-pacote”. Como o senhor Guido Mantega, que teve a pachorra de dizer: “O presidente não está deixando de cumprir uma promessa. Ele realmente prometeu que não aumentaria nenhum imposto para compensar a falta da CPMF, mas essa promessa era para o ano de 2007. Ele não se referiu a 2008”.

Sem contar que eu não precisava ouvir do presidente em que votei (deve ter soado uma voz dos céus, logo que entrei na cabine de votação em 2006 e apertei o 13: “perdoai, senhor, ela não sabe o que faz”) dizer que não vai reajustar o salário dos funcionários públicos, nem abrir mais concursos. Raciocinem comigo: pra quê mais concursos, né, gente? As repartições públicas já estão lotadas de gente que não faz nada o dia inteiro (já que funcionário público não faz porcaria nenhuma). E existem outros métodos mais proveitosos para selecionar pessoal, como o teste do sofá e o nepotismo. Os funcionários públicos também não precisam ter seus salários reajustados, porque eles já ganham bem demais e durante os últimos dez anos, principalmente na era FHC, tiveram aumentos de salários estupendos! Eu, particularmente, acredito que os funcionários públicos que menos trabalham e mais ganham são aqueles dos hospitais e das escolas. E ah, também acredito em Papai Noel, Coelhinho da Páscoa e Políticos Honestos.
Enfim, o motivo desse texto é aliviar a raiva e dar algumas sugestões para o Presidente, que está precisando de ajuda para arranjar os 40 bilhões de reais que vão faltar para a CPMF:

1) Acabar com a corrupção. Diminuindo a quantidade de propinodutos da vida, eu aposto que o dinheiro vai render mais, presidente. É só o senhor deixar de ser distraído e reparar quando alguém de confiança distribuí mesadas para deputados.
2) Diminuir realmente as despesas. Inclusive as pessoais. Afinal de contas, se a fatura do cartão de crédito corporativo era de quase 10 milhões em 2005, quanto deve ser hoje em dia? Presidente, é melhor tirar esse cartão da mão da dona Marisa e dos seus assessores e guardar em um lugar bem escondido. E esquecer de onde colocou, pro senhor não usar também!
3) Criar uma lei que institua que quem quer ser deputado ou senador, tem de trabalhar de graça. Nada de salário de 22,5 mil reais e trocentos reais em mordomias. Se você quer realmente ajudar o seu país, só precisa de uma ajuda de custo. Se o povão consegue sobreviver com um salário mínimo de 380 reais por mês, porque os deputados não conseguem? Os gastos anuais de quase 1 bilhão de reais acabariam e a IOF não precisaria aumentar tanto.
4) Parar de criar datas de validade para promessas. Essa sugestão é importante, presidente. Se não o povo simplesmente passa a achar que tudo o que senhor fala daqui por diante é mentira. Ou então, que só é válido para este ano. Ou pra esta semana, ou pra este dia. Nunca se sabe... já pensaram se esses novos prazos de validade para promessas são decrescentes, como o IOF era antigamente, e expirem cada vez mais rápido? Só espero que essa nova modalidade de promessa criada pelo Governo não seja adotada pelas pessoas comuns (principalmente se essas pessoas comuns forem casadas, porque o número de divórcios cresceria brutalmente; pena que nós, cidadãos, não podemos nos divorciar de nosso querido presidente).
Mais sugestões para o presidente:
5) O leitor Heitor Reis sugere nos comentários o cancelamento da venda da Vale do Rio Doce, que renderia algumas dezenas de bilhões de dólares ao governo (e que pagaria alguns anos de ausência de CPMF).
6) A Janaína sugere um estoque de óleo de peroba. Com a cara de pau deles, Naína, bem que eles estão precisando...!
Serviço: Se você precisa aprender como calcular os impostos que tem de pagar, aqui está um bom site para isso.
5.01.08
"Te vejo como amigo" - a frase que explode o motor na linha de chegada

No post sobre as maravilhas da auto-descoberta marcante que é se ver no espelho e fazer “tsk, tsk”, realmente, ficou uma lacuna, muito bem apontada pelo Maloca, escritor de excelente cepa e que entende do riscado como poucos – sem deméritos. Se tem alguém que já ouviu a tenebrosa frase “Te vejo como amigo” pelo menos uma vez na vida, este alguém é o Maloca, blogueiro que nos deixa ávidos por atualização a cada post sazonal. No entanto, podemos curtir pelo menos os comentários, como o deixado no post citado, que reproduzo abaixo:
“Seu método do homem feio tem uma variável que não foi citada no texto: o perigo virar o melhor amigo. Aquele perigo insondável que leva a moça a dizer, quando você chega junto, "ah, peraí, mas eu gosto de você como amigo!". Frase que em termos menos gentis pode ser traduzida como "olha, você é muito legal, mas para mim é tão assexuado quanto um protozoário". Equivale ao piloto da Jordan ter o motor explodido na reta de chegada. Além do mais, para as mulheres, não existe homem feio ou bonito, só homem interessante ou não interessante. Digo, interessante como o Brad Pit, ou desinteressante, como o Marty Feldman. Ou interessante como o Eike Batista ou desinteressante como um vendedor de bananada na Central do Brasil.” (O GRIFO É MEU)
Me detendo na primeira parte do comentário, de fato, a frase “Te vejo como amigo” é um flagelo tão gigantesco na humanidade que gerou centenas de emails semanais na época em que eu e o Augusto Sales organizávamos uma coluna no extinto e saudoso Falaê!. Inicialmente batizada como “Te vejo como amigo” e depois transformada em “Frito na hora!” (não come agora e nem embrulha), a seção descrevia diversos casos em que a aproximação e perspectiva de aterrissagem para o coito foi impedida bruscamente pela inesperada e indesejada declaração de amizade da parte feminina. Uma das brincadeiras que fizemos foi “salva” do limbo da web pelo site Dharmalog, que postou em formato de lista dando o devido crédito:
As 10 frases mais desagradáveis de ouvir de uma mulher que está nos nossos sonhos (cortesia falaê)
1- “Te vejo como amigo” - a campeã, claro …
2- “O pessoal vai estar lá também?” (nota atual: quando você sugere ir a um barzinho antes da festa)
3- “Ah, ele não é bonito, mas tem um, ah, sei lá” - referindo-se ao José Mayer
4- “Eu ando precisando ficar sozinha um pouco” - pronunciada dez minutos antes dela estar abraçada a um playboy com camisa “Bad Boy”
5- “Posso levar um amigo?”
6- “Tá, eu vou, mas tenho que ir embora cedo, tá?”
7- “Eu não estou preparada para uma nova relação”
8- “Acho você um dos caras mais legais desse mundo, e acho que você merece alguém que te faça feliz” (nota da redação: “It ain´t me, babe, no, no, no, it ain´t me, babe, it ain´t me what you’re looking for” – quem diria, Bob Dylan também deu toco)
9- “Esse seu amigo tem namorada?”
10- “Ah, eu sou Vasco”
Não adianta: a falta de comunicação eficiente entre homens e mulheres sempre vai gerar estes 10 – ou pelo menos 9, já que para vascaínos talvez a última frase seja agradável – ruídos na linha. Essa falta de comunicação gerou o cult movie "When Harry met Sally", por exemplo. Os homens certamente falham nisso: é preciso caprichar na hora de mostrar aquele desinteresse conhecido vulgarmente pelo nome de “charminho”. Se exagerar na dose, logo a moça perde o foco e não se sente mais caça, e sim uma herbívora ao lado de um elefante (dependendo do seu peso). O homem deve demonstrar que não vê mal nenhum em jantar com as amigas. E que também, em contrapartida, vê menos mal ainda em jantar AS amigas. Nisto, creio que já há consenso.

Quero o mesmo prato que ela pediu
A comparação feita por Maloca no comentário é espetacular porque é exatamente essa a sensação: tudo o que foi investido é jogado fora na reta de chegada. Toda a direção perigosa, as curvas, as derrapagens evitadas, as paradas para reabastecer, tudo vai por água abaixo porque a incauta resolve que você é um amigo maravilhoso. Não sei por que desígnios da natureza ela acha que esta seria uma boa notícia a ser dada às 3h da madrugada em um bar tomando a saideira, mas, enfim, ela disse. E agora?
Uma das opções é pedir para ir ao banheiro e, uma vez lá, se suicidar. De preferência, com barulho (o auto-tiro de calibre 12 costuma ter excelentes resultados) para não correr o risco de ela ir embora e esquecer que você esteve lá com ela. Claro que muitas vezes isto acontece às 3h da manhã de sábado e no dia seguinte tem rodada do campeonato com jogo do Flamengo, o que afasta qualquer possibilidade de suicídio.
Imagino neste caso que, logo após a frase mortal, você deva responder algo engraçadinho como “Ah, sem problemas, nunca comi uma inimiga” ou “Bom, acho que se a gente for para um motel, neste caso, como somos amigos, dividiremos a conta, né?”. Observe se a reação dela é lhe atirar um cinzeiro ou puxar o cabelo levemente. Se ela puxar o cabelo, olhe para trás e veja se não tem um cara rindo e fazendo o gesto do indicador entrando numa rodinha na outra formada pelo outro indicador e o polegar. Ela pode ter gostado deste jeitão rústico.
As mulheres podem dar seu quinhão no combate a este flagelo. Uma das medidas é acabar com essa mania de massagem no ego e avisar logo ao pobre amigo que ele não é merecedor da sua libido. Mande indiretas sutis. Se ele for um cara gordo e baixo, passe o tempo todo falando que tem tesão no Emil Zatopek, do Oscar e do Dida, goleiro do Milan. Se o cara for magriço, elogie Faustão, Jô Soares e diga que tem tesão no Bud Spencer. Evite reclamar de outros homens no aspecto moral e intelectual – isto dá falsas esperanças aos caras menos bonitos que estão te cercando, pois ficam pensando que uma hora pinta a chance de mostrar seu valor. Faça reclamações como “O Beto está relaxando na malhação, vestiu calça 48 outro dia” ou “Qual é a do Paçoca? Não vai trabalhar tríceps?”. Acredite: seu amigo feio vai desanimar muito de ter qualquer relação carnal com você – até por medo de reproduzir usando genes de alguém que diga estas duas frases.
O homem também pode antecipar a frase. Digamos que não exatamente com a pergunta “Antão? Tamos ou não tamos aí nessa floresta?”, já que é pouco sutil e acaba tendo a mesma conseqüência e no entanto sem os prazeres da causa, afinal, com essa você não vai comer a moça. Notem: eu não disse que é um prazer perder uma amizade, longe disto. Mas se for para perder, melhor que seja por uma noite lasciva do que por causa de frases infelizes. Pelo menos o rancor é muito menor. Mas, voltando: podemos, sim, antecipar quem vai dizer a frase no caso de abordagem. Geralmente quem diz a frase é aquela menina que tem vida social muito agitada e quer sair! Sair! Sair! Reunir a galera! Chama os amigos! Empolgação! Mermão, fica de olho: é cavalo de tróia. Ela estimula a reunião com dezenas de amigos, faz você chamar “aquele ex-colega de turma que ganhou o último campeonato de wakeboard” e aí, já viu. Quanto mais agitada a vida social da guria, mais chances de ela achar que é uma perda de tempo dar para você, principalmente SÓ para você. E vai decidir dar para TODO MUNDO menos para você. “Quero ver gente!”, diz a empolgadíssima foliã. Não tenha dúvidas: se você a chama para uma pizzaria ou uma rodada de bridge e ela diz que quer ver gente, é porque você não é gente. Portanto, não reproduz.
Sinais são tudo, e isto dos dois lados da questão. Os dois lados sinalizarem logo o que desejam (não, não é legal roubar uma calcinha dela do banheiro e deixá-la displicentemente pendurada no bolso do paletó, aparecendo uma rendinha) facilita horrores. Numa destas, acredite, você até começa a namorar uma amiga. E o pior é que você vai descobrir, tanto homem quanto mulher, que não existe nada melhor do que namorar amigos, é como Volkswagen, você conhece, você confia. Do amigo você jamais vai ouvir de repente que “Alá é mais importante”, por exemplo – você já sabe das crenças dele. Da amiga você jamais vai ouvir “Hoje à noite não, tenho cliente”, porque provavelmente você já sabe onde ela trabalha. Amigos rules, leve fé.
Eu mesmo me casei com uma grande amiga.
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3.01.08
O dentista tarado e o proctologista de Manaus
Início de ano, e eu e Marcele almoçamos com amiga recém-separada, jovem e workaholic. A dura rotina, que a deixa sem tempo para conhecer outros homens ou mesmo tentar retomar o antigo, tem assustado os pais dela. Médicos, os dois. E, claro, conhecem outros médicos e, claro, até o filho de outro casal médico, que é dentista. A nova luta passou a ser: arrumar um novo marido para a filha. Ela nos conta que, em meio a esta dura missão, eis que os pais dela, em uma festa, reencontram o tal filho de casal amigo, que é dentista. E conversaram com o garoto, de seus 23 ou 24 anos. Dia seguinte, encontram a filha e informam: passaram o telefone celular dela para o dentista. Lavínia, nossa amiga, ficou indignada:
- Cara, tinha que falar comigo antes. Como vão dando meu telefone para o cara que eu nem conheço direito? E meu pai disse que o menino ficou “empolgado” quando soube que eu me separei!

Esse “empolgado”, claro, não me desceu bem. Confesso que, daqui a umas décadas, quando eu for pai de uma jovem sexualmente ativa, não vai me agradar que um malandro qualquer demonstre “empolgação” em relação à minha filha.
- Porra, como assim? Ele bateu no ombro do teu pai e disse ‘Aê, aquelas carnes tão livres agora é? Vou sacudir aquele esqueleto geral’?
- Não sei se foi assim. Mas eu havia comentado antes que precisava ir ao dentista, meu pai aproveitou o gancho e entrou no assunto.
Para mim, pior ainda. Como assim: o cara que poderá fazer o tratamento dentário na minha filha é o mesmo cara que demonstrou vontade de merendá-la? Ora, algo está totalmente errado.
- Como é isso? O cara vai fazer um tratamento de canal, depois vai te pegar, no meio de um beijo de língua vai sentir um gosto estranho e perceber que ELE cometeu um erro na obturação? Não dá – eu disse.
Nossa amiga continuou lá pê da vida com os pais, até porque sempre fez questão de demonstrar – pelo menos para nós – que não está correndo atrás de homem nenhum, está é querendo trabalhar e beber as cervejas (e whiskies) dela.
Ontem, como a Marcele já escreveu, fiz 40 anos. Algumas das congratulações que recebi vieram embutidas (com trocadilho, por favor) com o aviso engraçadinho: “40 anos, está na hora de fazer o exame de próstata, heim, garotão...”. Um dos meus amigos mais próximos, e que já está no pós-40 também, me parabenizou dizendo que já está vendo hospedagem em Manaus para quando formos todos fazer o exame.
- Manaus? Por quê – eu disse, com a cabeça meio devastada pela cerveja, de noite.
- Ora, é a única fórmula possível. Você não vai querer encontrar o médico que te fizer este exame, assim, na rua, né? No bar, no cinema...Não deve ser um encontro agradável. Então a boa é em Manaus. É difícil encontrar no Rio alguém que você conheça em Manaus.

Marcele, no entanto, foi quem deu o veredicto, bem irritada:
- O Gustavo não vai ao dentista há anos, que dirá exame de próstata.
Ela acertou. E voltou ao assunto da nossa amiga Lavínia. O lance mais alarmante para mim não é o pai dela ter liberado o celular pro dentista tarado. O lance mais intrigante é o cara cogitar a venda casada, ou seja, tratar o dente de uma mulher e depois comê-la (talvez antes ou, há quem faça, até durante).

Andando pelas ruas do nosso bairro com a Marcele, passamos em frente ao barbeiro, tão antigo que poderia ter uma estátua de índio americano na porta.
- O seu pai possivelmente cortava o cabelo com aquele senhorzinho ali – ela comenta. Eu penso, penso, lembro, lembro, e respondo:
- Nem sempre. Era raro. Afinal, aquele senhorzinho jogava duplas de buraco com meu pai (a dinheiro, claro).
- E daí?
- É difícil explicar, mas é complicado ter relações de amizade e deixar alguém executar serviços em você, digo, no seu corpo. É estranho. Tem um amigo meu que é ortopedista e já passou a faca em vários amigos. Mas acho estranho. Não sei porquê,
mas acho. E meu pai devia achar também. Num dia, ele depenava o cara no buraco. E no outro, o que o barbeiro iria fazer com o cabelo dele?
Em resumo: onde se divide o pão (entre amigos), não se come a carne. Amigos, amigos, negócios à parte. Ainda bem que a Marcele não é dentista.
2.01.08
Feliz Aniversário, Feliz Ano Novo
O Ano Novo de vocês deve ter começado ontem, mas o meu teve início hoje: dia dois de janeiro de 2008, o ano 40 da era Gustavo. Se no ano de 1968 dona Zezé e seu Joaquim não tivessem tido um menino de olhos azuis, tão loiro que parecia ter cabelos brancos, o mundo de uma menina de olhos e cabelos negros que só nasceu em 1980 não teria sentido. Ou, talvez, até tivesse sentido, mas não teria tanta felicidade.

O menino loiro cresceu, seus cabelos escureceram e começaram a cair, os olhos ficaram ainda mais azuis e vivos. E a menina morena se perde, se engasga, sente um nó na garganta só de pensar nesses olhos. E não sabe como, nem a quem agradecer pelo menino loiro ter se tornado esse homem com quatro décadas de história e que ainda tem tanto por viver, esse homem que a acompanha por todos os lugares (mesmo quando não está com ela).
Então, é melhor agradecer ao menino mesmo: Gustavo, obrigada por você existir, obrigada por você ser quem é, obrigada por ter me encontrado e, depois, ainda me aturar por cinco anos. E agüenta firme, que você ainda vai ter de me aturar por, no mínimo, mais uns sessenta (que eu faço questão de comemorar ao seu lado o centenário da tua era). Desejar felicidade para você é nada, desejar felicidade para você é muito pouco, porque eu te desejo tudo, absolutamente tudo. Ainda assim, Feliz Aniversário, meu amor.


