Gustavo de Almeida e Marcele Fernandes são cariocas, casados e rubro-negros. Ele tem 40 anos e trabalha de noite. Ela tem 27 anos e trabalha de dia. Os dois se encontram nas poucas folgas que restam, nos posts do blog e, quase sempre, nos sonhos também.
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Marcele Fernandes









24.12.07

Uma lágrima como presente (George Bailey's Felling)

Bimbalham os sinos. Eu sempre quis um dia começar a escrever um texto sobre Natal com esta expressão manjada. Finalmente realizo este sonho com a Era dos Blogs – só mesmo em um blog, no qual o cidadão escreve o que der na telha, é permitido começar um texto de Natal com “Bimbalham os sinos”. Equivale a “Que vença o melhor” na primeira linha de um texto sobre uma final de campeonato.

Bom, bimbalhar ainda é mais legal do que dizer “Então é Natal”, aquela temível adaptação para o português de Happy Xmas (War is over) do Lennon. Uma música feita em plena guerra do Vietnam, com ironias, mensagens políticas, citações hindus, virou um mela-cueca frenético na voz de Simone, a trilha sonora mais que perfeita para senhoras de meia-idade comprarem soutiens meia-taça para suas sobrinhas nas Lojas Americanas.


Se você não viu "A Felicidade não se compra", não veja este vídeo, é o fim do filme. Para mim, nada no cinema jamais representará melhor o sentimento do Natal quanto o fim deste filme

Por tudo isso, prefiro ainda bimbalhar os sinos, embora o significado da palavra “bimbalhar” me lembre, sei lá por quê, sacanagem. “Vou dar uma bimbalhada naquela guria” é uma frase que encaixaria bem num filme pornô. “Bimbalha, meu gostoso, bimbalha fundo” seria a fala adequada para uma dessas Brasileirinhas da vida. Literalmente da vida, em alguns casos. Mas é Natal, caramba. Nem deveria escrever a palavra “Sacanagem” num texto de Natal.
É Natal e é tempo de voltar a ser criança, ver nascer a esperança. Calma, esta frase é de uma música da Rádio Cidade, que tocava quando eu tinha uns 12 anos e achava simplesmente que o Natal era tudo o que se podia esperar de um ano. As luzes, a árvore, a sensação de felicidade inigualável. O Natal serve para você lembrar exatamente isto: que a tal da “sacanagem” não é nada, se comparado a uma vida de pequenos prazeres. Por isto os sinos bimbalham – por quê sexo não é nada no seu ranking de emoções inesquecíveis. O primeiro beijo é uma emoção que seu coração guarda acima de qualquer one-night-stand. O primeiro beijo na mulher amada e desejada, a emoção do gol, ali, é muito mais forte do que o fornication em si. That’s the point: o Natal serve para você lembrar que, sim, Freud pode estar certo quando diz que o sexo é a mola que move a humanidade. Só que sexo é só a mola. A humanidade não, é algo que o sexo empurra mas que está toda do lado esquerdo, pulsando, se lembrando de dezenas de Natais.

Não há, no mundo, emoção como a dos primeiros Natais. Dos primeiros presentes desembrulhados na árvore. Do objeto do desejo. Do rever aqueles que se viam uma vez por ano. O cheiro das coisas, o cheiro da expectativa, os vinhos, as nozes. Isto tudo, quando visto por uma criança, é fortíssimo, significa a ruptura com todo o dia-a-dia, é, sim, um Mantra que toma a humanidade. Natal, sim, é um gigantesco Maracanã lotado em que, mesmo os que não acreditam ou os que não aceitam, estes são tomados pelo coro de todas as gentes, tal e qual no Maracanã, onde é impossível não se deixar tomar pelas milhares de vozes enlouquecidas.
Não há como não se envolver com esta data. Não há como pensar nos que se foram, para sempre. E pensar que, na verdade, graças ao Natal, eles, sim, ficam, para sempre. Não se consegue esquecer aqueles que, por alguma razão, ficam de fora: os pobres, humildes, que não têm como presentear os seres amados. Os moradores de rua. Os doentes. Os que passarão a noite trabalhando, como bombeiros, policiais, médicos – que ganham pouco mas ficam longe de suas famílias, cumprindo a dura missão, defendendo nossos amores e nossas vidas. Não há como esquecer das crianças que vêem a farra do consumo e estão excluídas. Dos filhos dos trabalhadores que sonham mas não podem. Os filhos e os trabalhadores.
Estas coisas nas quais a gente começa a pensar quando o Natal vai perdendo seu fascínio, ou seja, quando a gente vai ficando adulto. E então, neste momento, lembrarei de todos aqueles Natais que a vida pôde me dar, nos 15 Natais ao lado de um pai, nos 39 Natais ao lado daqueles que amo e preservo, e quando lembrar de tudo isto, agradecerei àquele que neste dia Nasceu.
É Natal, rirei de mim mesmo: o Natal não perdeu seu fascínio coisíssima nenhuma. Só mesmo o Natal para nos fazer pensar na dor alheia e darmos à humanidade, não o sangue que Aquele nos deu – mas uma pequena lágrima.
Que, creio, é o que Ele nos pediria de presente.
Um Feliz Natal, meus amigos.

por Gustavo de Almeida as 02:21:24

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Comentários:


Seus comentários

Nome: Paula Clarice
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Gustavo, que texto romântico. Sabe,se eu tivesse coragem, publicaria no blog um texto que escrevi ontem depois de uma hora de choro de gratidão pelos amigos que 2007 trouxe pra mim. Você e Marcele certamente estavam ali, no meio das lágrimas. Mas se eu tivesse coragem, não seria eu, essa é a verdade. Eu não me emociono com o Natal, mas me emociono com as pequenas demonstrações de amor verdadeiro que a gente recebe nessa época do ano, vindas de onde menos se espera. Feliz Natal para vocês, para a família de vocês. Um grande abraço, queridos amigos.
24.12.07 @ 09:33
Nome: Maloca
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Se não me engano, aquela mão gorda na cadeira que aparece na foto é minha...
Abraço
25.12.07 @ 00:49
Nome: Maloca
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Aliás, isso não é um filme. É uma porrada no peito. "No man is failure who has friends".
Feliz Natal.
25.12.07 @ 01:00
Nome: Gustavo de Almeida
Url: http://www.interney.net/blogs/eclipse
O filme inteiro é uma elegia à humanidade, com personagens que são apenas humanos, nada menos - e nem mais - que isso.
A obra-prima de Frank Capra.
25.12.07 @ 18:51
Eu adoro A felicidade não se compra. Há três natais escrevo sobre esse filme no meu blog. :)
Feliz Natal, Gustavo, pra você e pra Marcele.
25.12.07 @ 20:22

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