24.12.07
Uma lágrima como presente (George Bailey's Felling)
Bimbalham os sinos. Eu sempre quis um dia começar a escrever um texto sobre Natal com esta expressão manjada. Finalmente realizo este sonho com a Era dos Blogs – só mesmo em um blog, no qual o cidadão escreve o que der na telha, é permitido começar um texto de Natal com “Bimbalham os sinos”. Equivale a “Que vença o melhor” na primeira linha de um texto sobre uma final de campeonato.
Bom, bimbalhar ainda é mais legal do que dizer “Então é Natal”, aquela temível adaptação para o português de Happy Xmas (War is over) do Lennon. Uma música feita em plena guerra do Vietnam, com ironias, mensagens políticas, citações hindus, virou um mela-cueca frenético na voz de Simone, a trilha sonora mais que perfeita para senhoras de meia-idade comprarem soutiens meia-taça para suas sobrinhas nas Lojas Americanas.
Se você não viu "A Felicidade não se compra", não veja este vídeo, é o fim do filme. Para mim, nada no cinema jamais representará melhor o sentimento do Natal quanto o fim deste filme
Por tudo isso, prefiro ainda bimbalhar os sinos, embora o significado da palavra “bimbalhar” me lembre, sei lá por quê, sacanagem. “Vou dar uma bimbalhada naquela guria” é uma frase que encaixaria bem num filme pornô. “Bimbalha, meu gostoso, bimbalha fundo” seria a fala adequada para uma dessas Brasileirinhas da vida. Literalmente da vida, em alguns casos. Mas é Natal, caramba. Nem deveria escrever a palavra “Sacanagem” num texto de Natal.
É Natal e é tempo de voltar a ser criança, ver nascer a esperança. Calma, esta frase é de uma música da Rádio Cidade, que tocava quando eu tinha uns 12 anos e achava simplesmente que o Natal era tudo o que se podia esperar de um ano. As luzes, a árvore, a sensação de felicidade inigualável. O Natal serve para você lembrar exatamente isto: que a tal da “sacanagem” não é nada, se comparado a uma vida de pequenos prazeres. Por isto os sinos bimbalham – por quê sexo não é nada no seu ranking de emoções inesquecíveis. O primeiro beijo é uma emoção que seu coração guarda acima de qualquer one-night-stand. O primeiro beijo na mulher amada e desejada, a emoção do gol, ali, é muito mais forte do que o fornication em si. That’s the point: o Natal serve para você lembrar que, sim, Freud pode estar certo quando diz que o sexo é a mola que move a humanidade. Só que sexo é só a mola. A humanidade não, é algo que o sexo empurra mas que está toda do lado esquerdo, pulsando, se lembrando de dezenas de Natais.

Não há, no mundo, emoção como a dos primeiros Natais. Dos primeiros presentes desembrulhados na árvore. Do objeto do desejo. Do rever aqueles que se viam uma vez por ano. O cheiro das coisas, o cheiro da expectativa, os vinhos, as nozes. Isto tudo, quando visto por uma criança, é fortíssimo, significa a ruptura com todo o dia-a-dia, é, sim, um Mantra que toma a humanidade. Natal, sim, é um gigantesco Maracanã lotado em que, mesmo os que não acreditam ou os que não aceitam, estes são tomados pelo coro de todas as gentes, tal e qual no Maracanã, onde é impossível não se deixar tomar pelas milhares de vozes enlouquecidas.
Não há como não se envolver com esta data. Não há como pensar nos que se foram, para sempre. E pensar que, na verdade, graças ao Natal, eles, sim, ficam, para sempre. Não se consegue esquecer aqueles que, por alguma razão, ficam de fora: os pobres, humildes, que não têm como presentear os seres amados. Os moradores de rua. Os doentes. Os que passarão a noite trabalhando, como bombeiros, policiais, médicos – que ganham pouco mas ficam longe de suas famílias, cumprindo a dura missão, defendendo nossos amores e nossas vidas. Não há como esquecer das crianças que vêem a farra do consumo e estão excluídas. Dos filhos dos trabalhadores que sonham mas não podem. Os filhos e os trabalhadores.
Estas coisas nas quais a gente começa a pensar quando o Natal vai perdendo seu fascínio, ou seja, quando a gente vai ficando adulto. E então, neste momento, lembrarei de todos aqueles Natais que a vida pôde me dar, nos 15 Natais ao lado de um pai, nos 39 Natais ao lado daqueles que amo e preservo, e quando lembrar de tudo isto, agradecerei àquele que neste dia Nasceu.
É Natal, rirei de mim mesmo: o Natal não perdeu seu fascínio coisíssima nenhuma. Só mesmo o Natal para nos fazer pensar na dor alheia e darmos à humanidade, não o sangue que Aquele nos deu – mas uma pequena lágrima.
Que, creio, é o que Ele nos pediria de presente.
Um Feliz Natal, meus amigos.
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Abraço
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A obra-prima de Frank Capra.
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Feliz Natal, Gustavo, pra você e pra Marcele.
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