19.12.07
Festas de fim de ano: um guia de sobrevivência
Festas de fim de ano: evite o mico, ele pode te acompanhar pelo resto da vida
Já é uma instituição mundial, e um dia, acredito, algum deputado federal vai ter a idéia de pegar um dia de dezembro e instituir de vez o Dia da Confraternização de Fim de Ano no Trabalho. Anos depois de instituída oficialmente a data, digamos, no dia 19 de dezembro (me parece, em relação ao Natal, suficientemente próximo para comemorar e distante para pecar), o IBGE irá a campo e constatará: no período de dezembro e janeiro, crescerão os divórcios.
Até tu, David Hasselhoff?
Como jornalista experiente e suruba (royalties para Perry White, do Planeta Diário), já passei por vários tipos de eventos tribais como este, e os vejo sempre como uma espécie de sinalização, um indicativo do quanto a empresa tem apreço por seu funcionário. Na empresa em que estou atualmente, o apreço é alto: a festa de fim de ano (ontem) foi na casa de espetáculos Canecão, havia cerveja e whisky 12 anos, salgadinhos diversos e houve sorteio de prêmios ótimos: geladeiras, fogões, DVD player, IPods, etc. Sem contar o pacote de fim de ano, que teve um vale-supermercado de bom valor para gastar à vontade.
Em comparação com a empresa em que eu trabalhava antes, pode-se dizer que eu fui, até 5 de setembro, funcionário de Auschwitz. E meu sobrenome era Goldenstein. No ano passado, não se esboçou dar absolutamente nada para os funcionários. Houve uma festa de fim de ano, sim, mas o local escolhido (próximo a uma das favelas mais perigosas do Rio de Janeiro) não permitia que os funcionários ficassem até muito tarde.
Na festa deste ano, no entanto, em outra empresa e bem mais farta, tive de usar a experiência e controlar meus horários com rigor. Para o homem casado, a festa de fim de ano é uma crise permanente, principalmente quando são daquelas com a regra “Não pode levar o cônjuge”. Era o caso. Percebi que, pela quantidade de gente, se metade dos presentes tivesse levado o cônjuge, o Canecão teria que construir na hora um anexo. Talvez improvisando com lenha e gravetos, tal e qual os escoteiros-mirins.
Reconheçamos: há uma demanda e ao mesmo tempo escassez de estudos sérios sobre os efeitos do fenômeno Birita no Ambiente de Trabalho. Há diversos tipos humanos, claro, diferentes. Hoje em dia, casado e sossegado no meu canto, sou do tipo que inaugura a porta da saída. Acabo não testemunhando o que seriam os highlights do evento, ou seja, aquilo que será o principal assunto diante do altar-mor do dia seguinte, a Máquina de Café, elevada à condição de oráculo quando o cérebro padece com a sombra de litros de chope e uísque cowboy.
A pergunta é praticamente uma oração diante do Deus-Café: “E aí? Quem pegou quem?”. Bob Dylan seria perfeito para responder esta (tinha de escrever algo que justificasse um vídeo, ora): a resposta ficará soprando no vento.
A primeira coisa que podemos notar sobre as festas de fim de ano é que a mais assanhada nunca trabalha no seu setor. Pode reparar.
Se você não é do comercial, sempre a mulher mais aloprada pela cachaça é “aquela loura boa do comercial”. Se você não é do marketing, “é aquela morena bunduda do marketing”. Se você não é do RH, a mais agitada e dançarina é “a gordinha bonitinha do RH”. E por aí vai. Segue o velho princípio de que a grama do vizinho é mais verde. Ou é regada com mais cerveja.
Uma merda que você faça na festa de fim de ano entra sempre para a história, nunca duvide disto. Trata-se de um evento sazonal, um único dia ao ano, tal e qual final antiga do Mundial Interclubes. Sempre nos anos seguintes vão fazer uma memória – do mesmo jeito que até hoje alguém lembra do “Mundial do gol do Renato Gaúcho ou do gol do Raúl do Real Madrid”, ficará para a posteridade sua imagem, camisa aberta no peito e suado, dançando funk, atacando a baixinha meio cabeça chata do Telemarketing ao som de “Tapinha não dói”. Vão lembrar que você efetivamente colocou a mão na cintura e dobrou o joelho tal e qual uma tchutchuca. Por isto, em festa de fim de ano, se você é solteiro, não entre em pilha de mulher. Remember Norman Mailer: tough guys don´t dance. Use a técnica Águia Selvagem, observe de longe e faça um só ataque, mortal. Tudo bem, vão falar durante anos do barraco que a mulher armou quando te afastou com os dois braços no seu peito, mas pelo menos você não vai ser chamado de “MC” por anos a fio.
Outra recomendação expressa: não pense que o chefão do setor está relaxado. Só porque ele comandou um coro de “Ei, fulano, vai tomar no c(*)” aos berros e socando o ar para cima não significa que ele vai deixar de te avaliar. Ele não vai saber por quê você pegou dois chopes ao mesmo tempo da bandeja do garçom e está bebendo enquando alterna os copos. Nem é obrigado a entender que você sonha, efetivamente, em comer a secretária e a moça do xerox ao mesmo tempo e está ensaiando, fingindo que é recheio de sanduíche das duas ao som de “Dancing Queen”, do Abba (banda que, aliás, considero meio gay).
A festa de fim de ano da empresa tem sempre o personagem meio Alfredo (o homem chamado Alfredo da música do Vinícius), aquele cara cujo trabalho é uma rotina (hoje em dia, esclareço, invejo os que têm rotina). Uma figura meio apagada, muito gentil, que é solteirão, sóbrio, não fala muito sobre assuntos que não são de trabalho e – fundamental – não participa dos debates acalorados das segundas-feiras porque não tem time de futebol. “Torço pelo Brasil”, costuma dizer o Alfredo, sobriamente, enquanto guarda um formulário na gaveta 3 do arquivo e a fecha sem fazer barulho.
O Alfredo chega à festa de fim de ano com a cara de quem vai extrair um dente. Está cumprindo uma obrigação de RH, na cabeça dele. Não quer que os chefes pensem que ele não está integrado. Então, no início, o Alfredo bebe apenas refrigerantes, até que um dos chefes, profissional da galhofa, reclama. “Porra, Alfredo, vai ficar na coca-cola? Quero ninguém sóbrio não, heim, toma um uisquinho que eu pago o táxi”. Não tenha dúvidas: será Alfredo o voluntário para fazer coreografia e playback de I Will Survive às três da manhã. Quiçá, de peruca loura.
Repito: há grande demanda e escassez de estudos sérios sobre as festas de fim de ano de empresas. Tenho certeza de que descobriremos algo sobre a personalidade do ser humano que nem mesmo Freud conseguiu registrar.
Também, pudera: Freud nunca ouviu Tati Quebra-Barraco. Tem vezes que tapinha dói, sim. Principalmente se chegamos em casa tarde demais depois de uma festa de fim de ano da empresa...
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FELIZ NATAL!
1998 - Trinta anos esta madrugada
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Bom texto cara.
Parece que você descreveu as nossas festas da empresa!
um grande abraço
e boas festas
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Se você não vai, fica com fama de mala, o RH avalia que você tem fobia social ou, no mínimo, não sabe trabalhar em equipe, já que não sabe se divertir em equipe.
Se você vai, ou resiste e assiste hectalitros de birita grátis passando pela sua frente enquanto atura todo mundo aloprado, ou entra na onda e perde a linha.
O problema (pelo menos o MEU PROBLEMA) é ficar naquele estágio prestes a escrever o álbum branco pensando que todo mundo está como em Woodstock, quando na verdade 90% estão apenas ligeiramente altos e ainda conseguem falar "a inconstitucionalidade da medida persecutória é improvável e improbatória", ou algo do tipo, sem enrolar a língua.
Em ambos os casos, queima-se o filme.
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