Gustavo de Almeida e Marcele Fernandes são cariocas, casados e rubro-negros. Ele tem 40 anos e trabalha de noite. Ela tem 27 anos e trabalha de dia. Os dois se encontram nas poucas folgas que restam, nos posts do blog e, quase sempre, nos sonhos também.
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Marcele Fernandes









11.12.07

Não quero chegar aos 40 anos cantando Satisfaction (não no gargarejo)

Não se confundam com a frase do título. Continuo com meus dois CDs Out of our heads, um com e outro sem o clássico dos Stones, e continuo ouvindo os caras na boa. Só que andei pensando nesse negócio de "show de rock". A idade provecta a que vou chegando (em breve, as terríveis quatro décadas, embora com carinha de três) me levam à inevitável conclusão: embora eu cada vez tenha vontade de ter mais e mais CDs do AC/DC, provando que caminho na direção do rejuvenescimento pueril, por outro lado o meu saco para shows de rock se esgotou de uma forma inacreditável.

Há 10 anos, ninguém diria que o sr. Gustavo de Almeida, jornalista com a carreira em um patamar ainda inferior ao da média, seria capaz de esnobar um show de rock como o do The Police no último sábado. Mesmo não sendo fã, um jornalista “antenado” (não gosto dessa palavra porque, já dizia Bezerra da Silva, quem usa antena é televisão) tinha a obrigação de ir testemunhar a última apresentação do rock geriátrico e visceral dos três canas gringos.
Mas não: a bagatela de R$ 190 pelo ingresso me assustou, ainda mais que, como sabe qualquer leitor do Eclipse, nós trabalhamos em dupla. A empresa Gustavo&Marcele não poderia desembolsar R$ 380 numa p(*) destas. Sem contar que, como sabe qualquer iniciado, não se gasta apenas o do ingresso. Para aturar o The Police até o fim eu precisaria de umas 10 cervejas que, como sói acontecer em shows de rock, estariam no mínimo a R$ 3 a lata. Latinha a um real só mesmo em show de pagode grátis na Praia de Copacabana. E olhe lá. Marcele, com calor, iria beber umas cinco águas com gás (senhores, esta casa jamais fica sem água com gás, diferentemente da casa dos senhores, que sempre fica com água sem gás). Só aí já vão cinqüentinha, se somarmos os dois cachorros-quentes vendidos à maneira gustaviana, o “Hot-Dog Power Trio”: pão, salsicha e mostarda.
Vai daí o táxi para ir e voltar, sabendo que taxistas no Rio e em dezembro costumam ser ideologicamente alinhados com o Sindicato de Condutores Autônomos Porto-Riquenhos de Nova York. Lança aí no borderô mais sessentinha só de ida e volta ao Maracanã, e, voilá, a Marcele&Gustavo LTDA gastaram aí 500 pratas para ver os três bárbaros urrarem no alto do palco (considerando que falam uma língua de bárbaro, claro).
Evitei tudo isto convidando para meu lar três senhores de respeitosa e ilibada conduta. Ao final de oito garrafas de vinho e diante dos olhares incrédulos de minha senhora, a única sóbria no recinto, mandamos o Police procurar bandido e começamos a assistir Tommy, o filme de Ken Russel sobre a ópera-rock de Pete Townshend. Claro, depois das garrafas todas, múltiplas interpretações da complexa Semiologia de Townshend/Russel.

Já vivi essa coisa do rock, all that rock show stuff, e sei bem do que estou falando. Em 1987, um ano depois do Rock In Rio, passei cinco horas sem beber uma gota de líquido sequer por causa do show do Rod Stewart na Praça da Apoteose.

Fui para o gargarejão (o vídeo acima é um ano antes disso) e mifu: nenhum vendedor ambulante passou sequer perto de lá. Na saída, o caos foi tão grande que eu não pude nem parar para beber chongas.

Fui ao show dos Rolling Stones no Maracanã e, na saída, andei quilômetros, depois de passar cinco horas em pé no gramado do estádio. Quilômetros até me desvencilhar do monumental engarrafamento formado pelos Glimmer Twins nos arredores do Maraca e conseguir pegar um táxi numa rua que fluísse. Guardarei para um outro post o relato sobre o show dos Stones em Copacabana, um capítulo à parte em minha vida.
Em 2001 me ajoelhei no gramado imundo da Cidade do Rock ao ouvir os primeiros acordes de “Powderfinger” (seguramente entre as 10 músicas que mais gosto entre todas as músicas existentes no planeta), tocada pelo extraordinário Neil Young.

Na década de 80, fiz coisas inconfessáveis: vi Eletrodomésticos e Robertinho do Recife na Praia do Pepino, Dr. Silvana & Cia. no Morro da Urca, e vi um show do Metrô no CEFET. Metrô, a banda mesmo, aquela com a Virginie.
Portanto, creio que mereço um descanso. Muitos e muitos shows de rock. Por centenas de vezes me irritei com alguém gritando o clássico U-huuuuuuuuuuuuuuuuuu entre cada música. Me emputeci com bêbados gritando rock-aand-rooooooooollll em shows de jazz como Stanley Jordan, Cama de Gato ou Márcio Montarroyos. Tive de me deslocar outras dezenas de vezes com a figura clássica do imbecil que coloca uma gostosa nos ombros (geralmente, depois da dupla aporrinhar dezenas na platéia, ela desmonta o jegue, dá um selinho, diz “valeu gatinho” e vai embora, deixando o trouxa com um princípio de hérnia sacro-lombar). Suei e rangi os dentes ao sair de shows megalotados, com pessoas andando a esmo, ambulantes berrando para empurrar as últimas cervejas, táxis, vans e kombis piratas oferecendo serviços como em um mercado em Calcutá e churrasqueiras sendo apagadas dando ao local uma atmosfera “Blade Runner filmado em Bombaim”. Desculpe, embaixador da índia, pelo uso das duas cidades como más referências.

Hoje em dia, senhores, show tem que ser como eu vi o do Buddy Guy, no Metropolitan (ou ATL Hall, ou Claro Hall, ou sei lá o quê na Barra): sentado em uma confortável mesinha, com uma garrafa (no caso, de whisky nacional, claro), balde de gelo e os amigos para trocar comentários irônicos.
Sobre o quê?
Sobre os caras que compraram platéia e estão lá na frente berrando u-huuuu. Pô, dá a maior inveja.

por Gustavo de Almeida as 01:24:45

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Comentários:


Seus comentários

Nome: Marcello
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Tenho só 29, mas to na mesma. Some-se ao seu relato o deslocamento de Florianópolis para os grandes centros. Muita grana. Ficar em casa bebendo e vendo um bom DVD acaba saindo mais barato. Imagina ter ido ver o Led em Londres??? $$$! Parabéns pelo blog.
11.12.07 @ 10:31
Nome: Marcelo
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Cara, com todo respeito, mas vc é muito chato.
11.12.07 @ 10:36
Nome: Jose Leyumih Jr.
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Puta que pariu, esse jornalista so vai em shows de cantores internacionais, assista pelo menos uma vez na sua vida um show de cantor nacional... Jota Quest, Skank, Charlie Brown Jr. entre outros muitos bons. Duvido se enxoaria de rock-and-roll, é uma pena que eles nao tem voz de Axl Roses (Gun´s Roses), nem o som da guitarra de Max Cavalera (Sepultura), nem o jeito demoniaco de Ozzy Osbourne, mas o que isso tem haver, vamos celebra ao Rock Nacional... Mesmo que tem algumas bandinhas vergonhosas... tal de NX0 isso é uma bosta. Temos que matar esses caras de emo f*... Viva Raul, Renato, Cazuza e entre outros...
11.12.07 @ 10:47
Nome: Gustavo de Almeida
Url: http://www.interney.net/blogs/eclipse
Marcello, ver o Led em Londres deve ter sido sensacional (sei de gente que foi). Mas custou os olhos da cara.

Marcelo, acho que vc tem razão, eu sou um cara meio chato mesmo, não entendo por que tenho tantos amigos (não mereço). Mas conheço um segredo para evitar tanta chatice: não digitar http://www.interney.net/blogs/eclipse. Sempre funciona!

José, citei vários shows de rock nacional, é só reler. Mas você tem razão em um ponto: em termos de aporrinhação, os megashows internacionais são muito mais brabos, acaba que a gente não lembra de um show nacional que tenha sido uma grande roubada.
11.12.07 @ 11:16
Nome: Carol
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Muito bom ... concordo.
11.12.07 @ 11:22
Nome: jamari frança
Url: http://www.oglobo.com.br
Tô nessa tb. Neste sábado infiltrado na ala vip do Police, cercado por pseudo celebridades me perguntei mil vezes o que estava fazendo ali. Profissionalmente são 25 anos de estrada, vi o Police em 82, cobri o primeiro rock in rio...já me livrei de todos os vícios, só falta me livrar do show de rock. Eu chego lá.
11.12.07 @ 11:48
Nome: Eugenio
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Tenho 49 anos (Faço 50 em março/2008) e a cada dia que passa gosto mais de rock, pesadão mesmo. Tanto é que jamais deixei ou deixarei de comprar CD's, DVD's e Songbooks das bandas que curto, e são muitas. Sempre que posso, vou assistir ao vivo os shows desse gênero. Recentemente comecei a estudar guitarra, junto a um renomado mestre desse instrumento. E estou me esforçando p/ tocar bem e no menor espaço de tempo possível, mesmo tendo que trabalhar arduamente como Gerente em uma empresa. Tenho o apoio total de minha família, a qual respeita meu gosto musical e minhas opções de lazer. Idade, na minha opinião, em nada me prejudica e é questão de cabeça (Aliás, como diz o ditado popular: "A mente destrói a gente").
11.12.07 @ 12:03
Nome: Gustavo de Almeida
Url: http://www.interney.net/blogs/eclipse
Eugenio,
Entendo seu ponto de vista, e garanto que meu gosto musical é praticamente o mesmo que o seu. Não vivo sem meu Almann Brothers Second Set.
O meu problema é com a aporrinhação dos megashows, só isso...
Mas obrigado pela sua história!
abs
11.12.07 @ 12:49
Nome: Henrique
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Um blogueiro de m... que não tem dinheiro nem pra pagar um show.
Você tá parecendo a raposa daquela fábula da raposa e as uvas: "Estão verdes ..."
11.12.07 @ 13:26
hahaha, impressionante como me senti igualzinha. 3.5, acho que é coisa da idade mesmo.
:*)
11.12.07 @ 13:34
Nome: Jacintho Camarotto
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Concordo em gênero número e grau com você. Tenho quarenta anos de estrada e rock and roll mas hoje prefiro uma mesa com amigos e muita birita, pode ser whisky nacional como vc ou mesmo cachaça da boa, e shows na tv, mesmo com menor impacto sensorial é mais confortável e posso ir ao banheiro sem enfrenar qualquer tipo de fila. Também quero cada vez mais ter novos, velhos, discos de rock, jazz, blues, mpb samba de verdade etc. (pagode e sertanejo não, pelo amos de Deus). Nessa idade quase provecta, quarentinha, quero amis é conforto e qualidade de vida.
Abraços solidários,
Jacintho.
11.12.07 @ 13:49
Seu post explica também porque eu não irei ver o Iron Maiden hehehe
11.12.07 @ 17:12
Nome: Marcello
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Gustavo, não deve ser fácil chegar no show, gastar os olhos da cara e ter que ficar no lado dos Globais que estão lá só para aparecer na Caras. Depois de muitos shows com empurra empurra fui para o Rio ver o Velvet Revolver e fiquei no camarote do Sei-lá-o-que Hall. Agora só assim, sem ninguém me empurrando ou gritando no meu ouvido, senão, fico em casa. Parabéns pelo blog. Abç
12.12.07 @ 09:22
Nome: Gustavo de Almeida
Url: http://www.interney.net/blogs/eclipse
Marcello, tem também a tal da áreA VIP, dedicada aos arroz-de-festa que nem sabem quem está tocando. Mas as operadoras de celular entopem a visão de quem paga ingresso só para que o Tiago Lacerda ou o Bernardinho apareçam no show patrocinado...

Doni,
O pior é que o Iron Maiden vai ignorar o Rio...


12.12.07 @ 12:18
Vc reclama do Police?
É pq vc não tem acompanhado a bagaceira sonora que as "bandas" de "rock" de hj tem feito...
Mas a música de hj é ótima pra quem tem o intestino preso, isso não podemos negar
12.12.07 @ 13:37
Nome: Marlos
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Cara, e você nem foi no show do U2 no autódromo. Aquilo sim foi um inferno. A cidade parou, pelo menos duas pessoas que conheço torceram o tornozelo naquela buraqueira. Na saída, estava no meio de uma multidão que tomou um caminho que levava a um beco sem saída, cercado por tapumes. Como não parava de chegar vir gente, para não morrer espremido, arranquei alguns tapumes na porrada e me embrenhei pelas ferragens para sair.
O problema não é o show internacional e/ou único, é o hype. Igg Pop no Claro que é rock eu vi no gargarejo, sem estresse, Neil Young na cidade do rock, idem. Dois ótimos shows com nível de perrengue aceitável.
15.12.07 @ 21:08
Ah cara... Powderfinger é uma das minhas preferidas...
31.03.10 @ 15:58

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