11.12.07
Não quero chegar aos 40 anos cantando Satisfaction (não no gargarejo)
Não se confundam com a frase do título. Continuo com meus dois CDs Out of our heads, um com e outro sem o clássico dos Stones, e continuo ouvindo os caras na boa. Só que andei pensando nesse negócio de "show de rock". A idade provecta a que vou chegando (em breve, as terríveis quatro décadas, embora com carinha de três) me levam à inevitável conclusão: embora eu cada vez tenha vontade de ter mais e mais CDs do AC/DC, provando que caminho na direção do rejuvenescimento pueril, por outro lado o meu saco para shows de rock se esgotou de uma forma inacreditável.
Há 10 anos, ninguém diria que o sr. Gustavo de Almeida, jornalista com a carreira em um patamar ainda inferior ao da média, seria capaz de esnobar um show de rock como o do The Police no último sábado. Mesmo não sendo fã, um jornalista “antenado” (não gosto dessa palavra porque, já dizia Bezerra da Silva, quem usa antena é televisão) tinha a obrigação de ir testemunhar a última apresentação do rock geriátrico e visceral dos três canas gringos.
Mas não: a bagatela de R$ 190 pelo ingresso me assustou, ainda mais que, como sabe qualquer leitor do Eclipse, nós trabalhamos em dupla. A empresa Gustavo&Marcele não poderia desembolsar R$ 380 numa p(*) destas. Sem contar que, como sabe qualquer iniciado, não se gasta apenas o do ingresso. Para aturar o The Police até o fim eu precisaria de umas 10 cervejas que, como sói acontecer em shows de rock, estariam no mínimo a R$ 3 a lata. Latinha a um real só mesmo em show de pagode grátis na Praia de Copacabana. E olhe lá. Marcele, com calor, iria beber umas cinco águas com gás (senhores, esta casa jamais fica sem água com gás, diferentemente da casa dos senhores, que sempre fica com água sem gás). Só aí já vão cinqüentinha, se somarmos os dois cachorros-quentes vendidos à maneira gustaviana, o “Hot-Dog Power Trio”: pão, salsicha e mostarda.
Vai daí o táxi para ir e voltar, sabendo que taxistas no Rio e em dezembro costumam ser ideologicamente alinhados com o Sindicato de Condutores Autônomos Porto-Riquenhos de Nova York. Lança aí no borderô mais sessentinha só de ida e volta ao Maracanã, e, voilá, a Marcele&Gustavo LTDA gastaram aí 500 pratas para ver os três bárbaros urrarem no alto do palco (considerando que falam uma língua de bárbaro, claro).
Evitei tudo isto convidando para meu lar três senhores de respeitosa e ilibada conduta. Ao final de oito garrafas de vinho e diante dos olhares incrédulos de minha senhora, a única sóbria no recinto, mandamos o Police procurar bandido e começamos a assistir Tommy, o filme de Ken Russel sobre a ópera-rock de Pete Townshend. Claro, depois das garrafas todas, múltiplas interpretações da complexa Semiologia de Townshend/Russel.
Já vivi essa coisa do rock, all that rock show stuff, e sei bem do que estou falando. Em 1987, um ano depois do Rock In Rio, passei cinco horas sem beber uma gota de líquido sequer por causa do show do Rod Stewart na Praça da Apoteose.
Fui para o gargarejão (o vídeo acima é um ano antes disso) e mifu: nenhum vendedor ambulante passou sequer perto de lá. Na saída, o caos foi tão grande que eu não pude nem parar para beber chongas.

Fui ao show dos Rolling Stones no Maracanã e, na saída, andei quilômetros, depois de passar cinco horas em pé no gramado do estádio. Quilômetros até me desvencilhar do monumental engarrafamento formado pelos Glimmer Twins nos arredores do Maraca e conseguir pegar um táxi numa rua que fluísse. Guardarei para um outro post o relato sobre o show dos Stones em Copacabana, um capítulo à parte em minha vida.
Em 2001 me ajoelhei no gramado imundo da Cidade do Rock ao ouvir os primeiros acordes de “Powderfinger” (seguramente entre as 10 músicas que mais gosto entre todas as músicas existentes no planeta), tocada pelo extraordinário Neil Young.
Na década de 80, fiz coisas inconfessáveis: vi Eletrodomésticos e Robertinho do Recife na Praia do Pepino, Dr. Silvana & Cia. no Morro da Urca, e vi um show do Metrô no CEFET. Metrô, a banda mesmo, aquela com a Virginie.
Portanto, creio que mereço um descanso. Muitos e muitos shows de rock. Por centenas de vezes me irritei com alguém gritando o clássico U-huuuuuuuuuuuuuuuuuu entre cada música. Me emputeci com bêbados gritando rock-aand-rooooooooollll em shows de jazz como Stanley Jordan, Cama de Gato ou Márcio Montarroyos. Tive de me deslocar outras dezenas de vezes com a figura clássica do imbecil que coloca uma gostosa nos ombros (geralmente, depois da dupla aporrinhar dezenas na platéia, ela desmonta o jegue, dá um selinho, diz “valeu gatinho” e vai embora, deixando o trouxa com um princípio de hérnia sacro-lombar). Suei e rangi os dentes ao sair de shows megalotados, com pessoas andando a esmo, ambulantes berrando para empurrar as últimas cervejas, táxis, vans e kombis piratas oferecendo serviços como em um mercado em Calcutá e churrasqueiras sendo apagadas dando ao local uma atmosfera “Blade Runner filmado em Bombaim”. Desculpe, embaixador da índia, pelo uso das duas cidades como más referências.

Hoje em dia, senhores, show tem que ser como eu vi o do Buddy Guy, no Metropolitan (ou ATL Hall, ou Claro Hall, ou sei lá o quê na Barra): sentado em uma confortável mesinha, com uma garrafa (no caso, de whisky nacional, claro), balde de gelo e os amigos para trocar comentários irônicos.
Sobre o quê?
Sobre os caras que compraram platéia e estão lá na frente berrando u-huuuu. Pô, dá a maior inveja.
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Marcelo, acho que vc tem razão, eu sou um cara meio chato mesmo, não entendo por que tenho tantos amigos (não mereço). Mas conheço um segredo para evitar tanta chatice: não digitar http://www.interney.net/blogs/eclipse. Sempre funciona!
José, citei vários shows de rock nacional, é só reler. Mas você tem razão em um ponto: em termos de aporrinhação, os megashows internacionais são muito mais brabos, acaba que a gente não lembra de um show nacional que tenha sido uma grande roubada.
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Entendo seu ponto de vista, e garanto que meu gosto musical é praticamente o mesmo que o seu. Não vivo sem meu Almann Brothers Second Set.
O meu problema é com a aporrinhação dos megashows, só isso...
Mas obrigado pela sua história!
abs
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Você tá parecendo a raposa daquela fábula da raposa e as uvas: "Estão verdes ..."
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:*)
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Abraços solidários,
Jacintho.
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Doni,
O pior é que o Iron Maiden vai ignorar o Rio...
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É pq vc não tem acompanhado a bagaceira sonora que as "bandas" de "rock" de hj tem feito...
Mas a música de hj é ótima pra quem tem o intestino preso, isso não podemos negar
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O problema não é o show internacional e/ou único, é o hype. Igg Pop no Claro que é rock eu vi no gargarejo, sem estresse, Neil Young na cidade do rock, idem. Dois ótimos shows com nível de perrengue aceitável.
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