10.12.07
Um post feito exclusivamente por leitores com mais de 30 anos

Time do Guarani de 1978: haja memória para decorar o 11
Volta e meia escrevo aqui que os comentários dos leitores são melhores que os meus textos. Claro, este tipo de frase está em qualquer manual de Marketing Político, e quem escreveu primeiro “Vox Populi, Vox Dei” certamente tinha a mania de ganhar as eleições no primeiro turno. É a tal da falsa humildade, que sempre dá certo. Nesta tentação, qualquer blogueiro corre o risco de cair. Eu também, claro. Não tenham dúvida.
Mas, pelo menos desta vez, peço três minutos de credibilidade total: falo sério quando digo que, nos meus dois posts sobre os Anos 70, os leitores que comentaram (agradeço a cada um deles) deram um show e mostraram ter memória melhor que a deste blogueiro. Antes que eles fiquem convencidos, vale alertar que não é tão difícil ter memória melhor do que esta minha, totalmente preenchida por informações relevantes como o time do Guarani campeão de 1978 (Neneca, Mauro, Gomes, Edson e Miranda; Zé Carlos, Renato Pé-Murcho e Zenon; Capitão, Careca e Bozó), o time da Itália que me fez chorar em 1982 (Zoff, Gentile, Scirea, Colovatti e Cabrini; Marini, Tardelli e Antonioni; Conti, Paolo Rossi e Graziani) e o nome do candidato do PDS à Prefeitura do Rio em 1985 (Heitor Furtado).

Paolo Rossi: parece o Gianecchini depois da gripe
Peço apenas que não me perguntem por que diabos minha memória “salvou” estas informações. Mas eu mesmo me questiono como não lembrei de algumas coisas que os leitores, com muita sagacidade, conseguiram lembrar.
O comentário que ganhou o Eclipse de Ouro como o melhor de todos foi de um leitor identificado apenas como Miguel. Ele respondeu a uma das duas grandes perguntas da minha vida (a primeira é “O que são, afinal, Kikos Marinhos?”), ou seja, “O que, afinal, era o Mandiopã?”). Fala daí, Miguel: “Só para explicar: o Mandiopã era uma massa de fécula de mandioca desidratada e cortada em forma de pequenos discos. À medida em que eram fritos, absorviam o óleo da frigideira de maneira muito rápida, chegando inclusive a dobrar ou triplicar de tamanho. Não era muito saudável, principalmente o sabor de camarão(?), eu preferia o sabor queijo(!), tudo artificial, mas uma delícia”.
Miguel aproveita para lembrar de algo que agora lembro – “Quem se lembra do achocolatado Muki? Foi uma tentativa da Kibon para diversificar a produção muito calcada nos sorvetes. Os anos 70 popularizaram definitivamente os achocolatados. Lembram- se do sorvete Rico? O fabricante era o Moinho Santista, que também queria diversificar. A menção honrosa é mesmo o drops Dulcora, mas havia um drops ainda mais incrível, um tal de Chu-cola que, dizem, tinha sabor de coca-cola. Que saudade destas drogas!”
Miguel, posso asseverar que Chu-cola tinha mesmo gosto de coca-cola...sem gás! E o Muki era sensacional. Uma das propagandas, de revistinha em quadrinhos, era com Batman e Robin tomando Muki. O nome era uma referência a um sinônimo de força, ou seja, “muque”. Batman, antes de começarmos a desconfiar de sua relação esquisitona com Dick Grayson, era um símbolo de força.
Dupla de heróis esquisitões de malhinha e barriga proeminente
Outro leitor, ao que parece, do Recife, lembra outro símbolo de força, já que falamos nisto, os sapatos. Mas não quaisquer sapatos, como lembra bem o leitor Caio Rio: “É bom relembrar os anos 70, os ‘assustados’ nos finais de semana com luz negra, dançando agarradinho, os encontros de brotos do clube Português e Clube Internacional em Recife, As festas de quinze anos, nas quais só podia entrar de paletó, assistir à estréia de Guerra nas Estrelas. Comprar revista Ele & Ela para ver Sandra Bréa, Matilde Mastrangi, e usar sapatos cavalos de aço, inspirado na novela da Globo com Tarcisio Meira. Era um época mágica”
Novela Cavalo de Aço: um clássico
O leitor Rubinho lembra de Mastrangi em outra situação: “Época em que eu cabulava aulas pra ir ao cinema ver as famosas pornochanchadas: "Aluga-se Mocas", "Histórias que nossas babás nao contavam", "O Bem Dotado" "Amor Estranho Amor" e “O Fuscão Preto”. Com as "princesas" da época
Xuxa, Gretchen, Sandra Bréa, Matilde Mastrangi, Consuelo Leandro, Antonio Fagundes, Tarcísio Meira, Davi Cardoso e Nuno Leal Maia”. Este povo, eu digo, não vestia Silze. Não vestia nada...
Sobre vestimenta, o meu confrade Maurício Neves de Jesus – quiçá o maior flamengologista vivo, ao lado de Eduardo Vinícius – lembra uma da seleção brasileira: “Seleção Brasileira vestindo Adidas é MUITO anos 70... 3 listras na manga na Copa de 78”.
A seleção com Adidas no ombro
Isto me fez lembrar de SILZE, A MARCA DAS TRÊS ESTRELAS. Onde se comprava Silze? Bom, tinha na loja Van Sport, do Rio Sul. Ou na loja Bayard. Mas eu comprei Silze uma vez na Sears, loja que citei nos posts anteriores – mas não como fez Myrian Gomes nos comentários: “Essa viagem no tempo me lembrou de tantas coisas boas. Namorar assistindo Sala Especial de sexta feira...Era o máximo, a Sears... lembra aquele cheirinho que só a Sears tinha? Parece que a gente entrava em outro mundo!”, lembra Myrian. Outra “viagem” que ela causou na minha mente: “Abastecer o carro até as 20.00 de sexta-feira porque senão...só na segunda!”
Outro confrade, o mestre Arthur Muhlemberg – autor de um dos maiores sucessos da Internet atual, o Urublog – lembra coisas da rua e do futebol. “Três coisas dos anos 70 que seu texto me fez lembrar: fichas de plástico nos ônibus (ideais pra fazer colar com superbonder e fazer botão raspando na calçada), Pingo de Leite, Zorro e Banda (minha junk food na época) e Videotapes de partidas do Maracanã passando nas altas madrugadas (23h30) pela TVE, para serem assistidos secretamente por quem já devia estar na cama dormindo. O vozeirão do José Cunha ( Taí o que voce queria!) me obrigava colocar o botão de volume muito perto do zero pra não acordar a familia inteira”. Zé Cunha é anos 70, sem dúvida. O gol no bordão do Zé Cunha era: “Ta lááááááááááááá”.
Bordão? “Tiowood” nos lembra um célebre da época: “Celacanto provoca maremoto”. E ainda acrescenta outros itens: “National Kid; Ademir da Guia jogando; Fuscão com vidro bolha e roda gaúcha, paçoquinha Amor, só nos 70!”. Verdade. Me lembro aliás que, nos anos 70, ter roda de magnésio tornava o Fusca um carrão e atraía mulheres. Saudades das mulheres que gostavam de homem com Fusca...
O mesmo Miguel que respondeu à questão “O que era o Mandiopã” tinha deixado um comentário bacana no post anterior, mostrando que é palmeirense: “Lí vários comentários dos leitores, um mais legal que o outro, faltaram aquelas lembranças da minha cidade (Guarujá dos anos 70, sem muvuca de fim de ano, praias quase virgens, podia-se tomar banho de cachoeira na praia de Iporanga onde hoje é um condomínio fechado, infelizmente ainda bem! Pois hoje a cachoeira estaria destruída pelos vândalos. Todas as ruas longe das praias eram de terra, não haviam muitos prédios e o surfe estava começando aqui no Estado de SP). Lembro das sessões de desenhos da TV Tupi comandadas pela bela Giovanna (do blogueiro: no link, maravilhoso texto que inclui ainda o Capitão Aza), e do esquadrão do Palmeiras campeão de 72, 73, 74, 76, àquele que começa por Leão, Eurico, Luis Pereira, Alfredo Mostarda, etc...”
Miguel, não lembro da Giovanna, mas lembro bem das sessões de desenho. Enfim, a memória é instável, e, como podemos perceber por este longo e maravilhoso debate, totalmente emocional. Nos emocionamos com lembranças, mas estas só são “registradas” no momento se houver alguma emoção, expectativa, êxtase, felicidade momentânea. É do ser humano. Por isto, parei para refletir no recado deixado pelo leitor Flavio Diniz Santos: “Pô, essa galera de hoje vai lembrar de quê daqui a 30 anos? As coisas de hoje são pouco marcantes. Muito legal ter essas lembranças, passei por quase tudo isso, o que me torna uma pessoa feliz . Abraços a todos que curtiram essa época . E vocês esqueceram do Embaré....Valeu mesmo!”
Flavio, obrigado por me lembrar mais uma vez que a vida é memória.
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