Gustavo de Almeida e Marcele Fernandes são cariocas, casados e rubro-negros. Ele tem 40 anos e trabalha de noite. Ela tem 27 anos e trabalha de dia. Os dois se encontram nas poucas folgas que restam, nos posts do blog e, quase sempre, nos sonhos também.
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Marcele Fernandes









4.12.07

Parabéns para você, Britney Spears e Sangue de Boi: as receitas dos bons amigos de verdade

É fato para mim consolidado que o sujeito de classe média por volta dos 30 anos hoje em dia não tem mais condição de fazer uma festa BLT (boca livre total) para os amigos. Uma simples (?) festa de criança chega a passar dos 3 mil reais de custo, se o cara contratar um entertainer para manter a molecada sentada em flor de lótus por pelo menos 15 minutos. As soluções para a classe média comemorar aniversários dos 20 aos 80 anos passam pelo barzinho com comanda até a casa noturna megalotada, incluindo no meio o clássico "barzinho em local ao ar livre". Aqui no Rio, temos o estranho hábito de beber em um estacionamento: na Cobal do Humaitá ou do Leblon, bebemos em mesas próximas a carros manobrando. Bom, há hábitos etílicos mais estranhos, tenho certeza. No fim de semana passado descobri, por exemplo, que se bebe na feira. Ao lado de legumes, hortaliças, frutas e peixes japoneses de aquário, cervejas em lata não muito geladas. Bom, coming back to the cold cow, a birita em boteco é apenas um dos tipos de festas para comemorar o fato de que alguém nasceu. Vejamos algumas das principais formas e suas vantagens e desvantagens. Notem que excluo dessa lista o raríssimo tipo, o BLT. Este é quase tão raro quanto um eclipse (opa).

Tipo 1 – Juntar umas mesas – O aniversariante manda um email dizendo que obviamente não pode pagar para todo mundo e nem fazer festa (que é bem o meu caso) mas que “PARA NÃO DEIXAR PASSAR A DATA EM BRANCO”, vai tomar um chope na Cobal do Humaitá. No email ele diz se aceita cartão de crédito no bar escolhido e quanto é o chope.
Lá na Cobal, você chega em um momento no qual já há umas 35 pessoas na mesa, sendo que a que você conhece melhor está ao lado do aniversariante – ou seja, em local inacessível. Aí você senta numa pontinha improvisada da mesa e logo ao lado estão duas meninas que trabalharam com você na década de 90. Uma delas sempre te odiou. Você nem tenta puxar conversa. Chega mais gente e você ouve a sentença: “Gente, vamos juntar mais umas mesas”. Aí você levanta meio puto, cai sua mochila ou óculos no chão enquanto os garçons estão arrumando tudo. A única pessoa com quem você poderia bater um papo (claro, tirando um aniversariante) reencontra um amigo que “não vê há mais de 20 anos”. Você finge que o celular está tocando e começa a falar em árabe com um interlocutor imaginário. No fim, é clássico: todos saíram da mesa deixando dinheiro suficiente para “quatro chopes”. Nestes quatro chopes, claro, não estão incluídos os seis tira-gostos do qual o muquirana participou e os 10% do garçom. A conta chega e está só você, o aniversariante e mais duas mulheres (que você descobre depois serem a mãe e uma amiga da mãe do aniversariante), sua parte na conta dá 400 reais. E você tomou quatro chopes.


Britney Spears: símbolo de festa cara e chata


Tipo 2 – Comanda e BRITNEY SPEARS
– Um amigo seu que é muito amigo mas não presta muita atenção nos teus hábitos culturais e de consumo te chama para uma festa em uma boate na Lagoa. Ou melhor, em São Conrado. Cada um paga a sua, pois tem comanda. Vejamos alguns preços da tal boate, que tem, claro, consumação: água mineral (R$ 5), chope (R$ 8), porção de frango à passarinho (R$ 20), água da bica (R$ 4) e palito de dente (R$ 4). O repertório da tal boate se baseia em Britney Spears, Beyoncé e Spice Girls. Você encontra seu amigo aniversariante duas vezes em toda a noite: uma quando ele te apresenta uma mulher que ele tá pegando e que te olha com um certo desprezo por causa das suas roupas e outra quando ele berra no teu ouvido algo que você nunca vai saber o que é – nem ele vai lembrar, já que você sacudiu a cabeça concordando mesmo.

Tipo 3 – Comanda e GENTE SAINDO PELO LADRÃO – Este amigo te chama para um local mais simples, mais chumbrega. Tem comanda e tudo o mais, mas também a tal de Música ao Vivo: uma banda de covers ou uma roda de samba. O lugar está absurdamente lotado e as pessoas suam por osmose. Basta passar ao lado de alguém para sentir um vapor, uma temperatura emanando. Todos os aparelhos de ar-condicionado da pobre casa bateram pino e formam poças asquerosas. Você vê seu amigo de longe, uma vez. No meio de uma multidão se acotovelando, lutando para chegar ao balcão e pedir uma cerveja (quente), vocês se esbarram e você diz “parabéns”. Ele: “Quê?”. Você: “Esquece”. Este tipo de comemoração eu poderia chamar “Vá a uma roubada por seu amigo, ele merece”.


Sangue de boi: vinho para macho


Tipo 4- Festa americana –
É um tipo interessante, a não ser pelo fato de que é você quem leva a maior quantidade de cerveja. Se for vinho então, ferrou: você leva um Malbec ou Bonarda de bom ano e procedência enquanto o amigo do seu amigo levará um Sanguê deboá, ou melhor, um Sangue de Boi garrafão cinco litros (o clássico, por sinal). Mas, ora, quem está preocupado com desigualdade? Você não é nenhum muquirana. Mas se seus amigos forem como os meus, vai acontecer o seguinte: todos vão levar birita e NINGUÉM vai levar comida nenhuma, nem mesmo as mulheres, de quem racionalmente se esperam salgadinhos e canapés (embora eu tenha sérias restrições a quem leva canapés para uma festa americana). Aí vai bater uma fome federal e você vai acabar indo para...o caso 1, ou seja, comer na Cobal ou no Cervantes. E algum filho da puta que levou o garrafão de Sangue de Boi vai beber vários chopes e ir embora antes, deixando que você e seu amigo dividam a conta de R$ 400. É o eterno retorno.

Música que bêbado adora acompanhar berrando

Tipo 5 – Aperte P para se matar – A festa no Playground é algo tão clássico quanto o milkshake de Ovomaltine. E dentre as listas de roubadas, é praticamente uma unanimidade. Curioso é que já consegui ir a boas festas em playgrounds, dentre elas o casamento do meu irmão e um dos três aniversários de minha sobrinha (creio que o segundo). Mas são exceções que confirmam a regra. Festa no playground geralmente tem buffet de salgados em chamas (como eu defino aquele negocinho para manter quente a coxinha) e horário para começarem as reclamações. A tolerância é até meia-noite, mas às 22h01 é normal que venha a primeira ordem para “abaixar o som”, justamente quando se formou um coro para Candy, do Iggy Pop. Você já conhece algumas das figuras que chegam para estragar a festa – afinal, como em todo elevador, você não sabia qual botão apertar para ir ao Playground e deu de cara com um vizinho no andar dele. Não, não me venha com essa de que “Play é sempre P”, já estive em diversos prédios onde, incrivelmente, “P” é o térreo e “S” é “sobreloja” ou “subsolo”. E o Playground ser uma das sobrelojas, veja só. Você então dá de cara com o vizinho e ele já te olha meio puto – ninguém consegue olhar com respeito um sujeito com duas garrafas de Ballantines na mão indo para seu playground. A festa no Play americana é assim, rola aquela pressão do resto do condomínio quando vê você chegando com a bebida. Mas respiram de alívio silenciosamente: “Vai faltar comida para esses desgraçados e eles vão ter que acabar de novo no Tipo 1”, pensam o síndico e o porteiro.
A principal adversidade da festa no Play é que você ficará para sempre marcado na memória dos pais e avós do aniversariante. “Quem é aquele baixinho que teve de ser carregado para ir embora?”, já foi uma frase muito falada nas minhas ausências.

Bom, creio ter escrito os cinco tipos clássicos de aniversários mais baratos. Em ocasião oportuna escreverei sobre o maior dos privilégios: a obtenção do passe Boca Livre Total. Aguardo comentários.

por Gustavo de Almeida as 01:36:44

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Comentários:


Seus comentários

Nome: Fernando Oliveira
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Faltou aquele aniversário em churrascaria, quando o aniversariante diz que paga só os rodízios e cada um paga a própria bebida. Ninguém consegue conversar com aquele monte de espetos de carne no meio
04.12.07 @ 14:56
Nome: Paula Clarice
Url: http://engavetado.blogspot.com
Hahaha!!
Esse texto tá impagável!!! hahahaha!!! mto bom!!
05.12.07 @ 09:24
Nome: Maloca
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Certamente, são cinco roubadas clássicas que todo mundo já

vivenciou. Para mim, a pior de todas é a mesa de bar lotada. Em

duas ocasiões (aniversário da mesma pessoa) fiquei no meu

cantinho, fazendo cara de paisagem e tentando ser simpático

com completos desconhecidos. Pior ainda é quando o

desconhecido conhece você, geralmente é aquela figura com

quem você ficou horas conversando durante um porre cuja

lembrança desapareceu na ressaca. É uma forma de prisão, como

esperar sentado por atendimento numa repartição pública lotada

com a pessoa ao lado puxando conversa para matar o tempo. A

diferença é que você não pode abrir um livro. Pelo menos, pode

beber.
Não comprar comida é a melhor maneira de acabar com a festa em duas horas. Fiz um bota-fora de um apartamento em que morei e só comprei bebida. Resultado: em poucas horas e muitos copos, houve uma debandada geral para o Cervantes, como uma turba de homens das cavernas bêbados que saísse para caçar um bisão.
Recentemente, fui a uma festa BLT que era no play e com roda de samba! Tinha tudo para ser uma roubada, tirando o aspecto BLT, mas fui muito boa.
08.12.07 @ 15:29
Nome: Alessandra
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Na churrascaria é ainda pior do que no bar!!! Furadíssima, a gente ainda gasta uma grana alta.
04.01.08 @ 18:13

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