Gustavo de Almeida e Marcele Fernandes são cariocas, casados e rubro-negros. Ele tem 40 anos e trabalha de noite. Ela tem 27 anos e trabalha de dia. Os dois se encontram nas poucas folgas que restam, nos posts do blog e, quase sempre, nos sonhos também.
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Marcele Fernandes









28.11.07

Quando a arte vem da barbárie (2) - A Terra do 38

O carro com quatro jovens vestidos de preto dentro estaciona devagar na comunidade de Santo Amaro, bairro pobre da periferia de Recife, a capital mais violenta do Brasil. As portas se abrem com discrição e os quatro saem do carro, um deles com uma lata de tinta, o outro com um molde nas mãos. São cinco e meia da manhã, horário em que milhares de trabalhadores começam a se dirigir para os pontos de ônibus - e nesta comunidade não é diferente. À medida que andam, os quatro jovens cumprimentam operários, manicures, empregadas domésticas, balconistas e borracheiros.

Por uma infelicidade de toda Pernambuco, estes quatro jovens jornalistas já são conhecidos: são os autores do blog Pernambuco Bodycount (em inglês, contador de corpos de Pernambuco), que desde 1º de outubro assumiram uma missão: em cada local de homicídio de Recife, desenhar um corpo, com tinta vermelha, para que os crimes jamais caiam no esquecimento. Já pintaram, até a sexta-feira, dia 26 de outubro, nada menos que 56 - média superior a um corpo por dia. É uma cidade onde, em janeiro deste ano, 480 pessoas morreram assassinadas a tiros.

As perspectivas são trágicas: com dois anos de trabalho, se o ritmo de crimes continuar, possivelmente Recife terá mais de 5 mil desenhos de corpos de pessoas assassinadas espalhados por suas ruas. "A gente quis tirar da Internet, que é um meio de elite, e levar o PE Bodycount para a população excluída, que mais sofre com a violência. Para isso surgiu o Marcas. E estamos sendo maravilhosamente recebidos em todas as comunidades onde trabalhamos", diz o jornalista Eduardo Machado, que com os repórteres João Valadares, Rodrigo Carvalho e Carlos Eduardo Santos, todos do Jornal do Commercio, faz o terrível trabalho artístico pelas ruas da capital pernambucana. Quem acompanha o grupo é o fotógrafo Rodrigo Lobo (vale muito a pena conferir o FlickR de Rodrigo, muito bom fotógrafo).

A cada desenho, uma história. No segundo fim de semana de trabalho, tiveram mais uma prova do que sempre defenderam: que a questão da violência em Pernambuco não passa pelo crime organizado, e sim pelos parâmetros comportamentais do nordestino - cabra macho, sim, senhor.
Em Santo Amaro, três jovens encostaram de carro na calçada em frente a um boteco e pediram uma cerveja. A bebida veio, com uns tira-gostos. Abriram então duas portas do carro e colocaram um CD de música baiana, bem animada. Nenhum dos freqüentadores do bar reclamou - muito menos moradores do quarteirão, que já sabem da realidade: não se reclama dos outros no Recife. Curiosamente, muitos dos outros clientes do bar começam a ficar animados com a música. Um deles se aproxima dos jovens e pede que o volume seja aumentado. Como já eram mais de 22h, o dono do veículo se recusa.
É a senha para a violência: contrariado com a negativa, que considerou uma "má-educação", o cliente do bar, embriagado, chama mais dois comparsas, vai em casa, perto dali, pega três armas, volta e assassina com brutalidade os três jovens dos carros. Por causa de uma música baixa demais.

"A noção que nós temos aqui é de que a vida não vale nada", diz Eduardo, com a voz amarga. "Aqui não tem pistola, não tem fuzil, não tem traficante. É a terra do 38, tudo se resolve à bala".
Na mesma semana, no bairro Alto do Maracanã, Zona Norte do Recife, os quatro contam no blog que Zaqueu, um serralheiro de 60 anos, viu o filho de 30 ser assassinado na mesma rua onde cresceu. Ao se dirigirem ao local da morte, um morador pegou o pincel das mãos de Eduardo e pintou sozinho o chão de vermelho para marcar a morte do amigo. O pai, Zaqueu, não saiu de casa, mas deu autorização aos jornalistas para que fizessem a pintura. Enquanto isso, a cena que emocionou o grupo: o morador anônimo que tomara o pincel começava a chorar. Mas continuou pintando, diante dos moradores.
No fim, disse aos quatro jornalistas que já havia três marcas na região onde mora, no bairro de Dois Unidos. As marcas já eram uma realidade. O grupo está quase virando celebridade, embora façam o possível para não se deixarem banalizar. Banal é a violência. Os cinco rapazes de camisa preta (“Vamos todos com a mesma, escrito Marcas da Violência”) estão quase se tornando uma grife. Sem nenhum glamour – apenas tragédia.
A Secretaria de Defesa Social faz de tudo para diminuí-los. Em vão. Logo no começo do blog, veio um feriadão e eles deram o bodycount: 54 mortos em três dias. Três dias. Em uma capital brasileira e cidades em torno. “Demos o número, demos os nomes e locais de cada um dos mortos. Pegaram os nomes, e divulgaram que três deles não tinham sido assassinados. Um atropelado, um por afogamento e o terceiro por choque elétrico”, conta Eduardo. “Nos contestaram num sábado pela manhã. João estava de plantão, e nos dividimos: eu fui para o local do choque elétrico, os dois restantes para o afogamento e o atropelamento, em zonas mais distantes de Recife. Do atropelado nós conseguimos o atestado de óbito: três tiros”.
Neste ponto da entrevista eu pensei que o governo socialista de Pernambuco deve ter achado que as balas de revólver eram fabricadas pela Volkswagen. Eduardo prossegue e acerta o que eu pensei: “Colocamos no blog uma manchete: ATROPELADO POR TRÊS TIROS”.

As duas partes do curtametragem sobre o projeto Marcas da Violência

Rodrigo Carvalho, que é pauteiro do Jornal do Commercio de lá, também se sente desiludido em relação à violência em Recife. Ele e Eduardo fecham questão: ali, sim, em Recife era caso de chamar a Força Nacional de Segurança Pública. “São muitos motivos, e ao mesmo tempo um samba de uma nota só. O homicídio dá origem a outros. O cara perde o pai, mais tarde será assassino ou será vítima também”, lamenta. Apesar de não haver (ainda) a figura do traficante de fuzil na capital pernambucana, as drogas já estão em um estágio avançado: o maldito crack já assola as comunidades carentes de Recife, deixando sua trilha de morte, sangue e vício incurável. Quem se vicia, assalta, rouba. E cria mais barbárie, nas favelas recifenses. “Esta semana”, conta Rodrigo, “mataram um menino de 17 anos, cortaram a cabeça e escreveram com faca nas costas dele, cortando: ‘ladrão’”. Rodrigo reconhece que cada bairro carente tem seu grupo, que há uma falência total do Estado e das instituições. “Quem quer resolver algo tem que estar disposto a matar. Junte-se a isso a disponibilidade da arma e a total desvalorização da vida, e o resultado é catastrófico”, conta Rodrigo. O resultado é este: a triste terra do 38.

P.S. - No Santa Bárbara e Rebouças o mesmo texto, mas com o comercial que eles fizeram depois de ganhar o Prêmio Vladimir Herzog de Internet.

por Gustavo de Almeida as 02:16:45

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Comentários:


Seus comentários

Nome: Luiz Lucchesi
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Infelizmente é uma realidade nacional.Recife é uma capital linda, mas estas barbáries existem em todo o país. Nosso grande problema é a chamada educação; é a base de tudo.Enquanto o governo maior (curiosamente Pernambucano)não investir pesado em educação, a tendência são estas barbáries cada vez aumentar mais.
28.11.07 @ 09:53
Nome: leo
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Parabens pela ideia !!!!!! Outro dia eu estava reparando as estradas numa viagem de fim de semana a quantidade de cruzes existentes a beira das estradas e cada vez mais aumentando.
Daqui a um tempo estaremos andando nas estradas cercados de cruzes - marcando que ali uma ou mais vidas se acabaram !!!!
28.11.07 @ 10:08
Nome: Anderson Siqueira dos Santos
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bom dia!
primeiramente parabéns pela iniciativa, mas tenho uma pergunta!
sou morador do Rio de Janeiro e convivo com a falta de segurança todos os dias e vejo que existe a guerra entre bandidos e policia e a guerra de bandidos contra bandidos e ai vai a minha pergunta sera que as pinturas não servirão de incentivo a assassinos?
exemplo: se um bandido quer mostrar o seu poder ele começa a matar e a sua área começa a ficar famosa pelos crimes com intuito de intimidar outros bandidos que queiram invadir sua área ou então se um determinado bairro a varios homicídios e todos são registrado com pinturas isso pode inibir o comércio dentro daquele bairro e até a compra e venda de imóvel etc...
sei que a finalidade de voces não é essa mas estou pensando nas consequências, espero que entendam a minha preocupação.

Atenciosamente,
Anderson Siqueira

28.11.07 @ 10:14
Nome: Rodrigo Câmara
Url: http://www.rodrigocamara.com.br
Parabéns ao grupo de jornalistas pela iniciativa.
Acredito em duas formas de motivação: A pela desgraça e pelo amor. Em trabalhos desenvolvidos por mim nos últimos anos, pude perceber que a motivação por desgraça permite uma maior relãção com o obsservador do manisfesto ou da mensagem, criando um caminho mais breve entre a pessoa e o fato.
Arte e comunicação de mãos dadas.
Desejo sucesso e bons resultados para o projeto de vocês.

Att.,

Rodrigo Câmara
Fotógrafo - 30 anos BH - MG
28.11.07 @ 10:22
Nome: nejao
Url: http://www.nejao666.zip.net
genial gente,até copiei a noticia para meus blogs,é isso ai se todo o BRASIL tivesse estas idéias.
28.11.07 @ 10:39
Nome: Viviane
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Parabéns ao grupo pela iniciativa... pelo trabalho que vimos nao ser facil...
Continuem. Mostrem o que os "olhos não veem" mas o coração SEMPRE sente!
Seria OTIMO se mais pessoas perpertuassem a ideia...
Abçs e fiquem com Deus!
Vicky
28.11.07 @ 10:44
Nome: JFParanaguá
Url: http://jfparanagua.com.br
Parabenizo o grupo pela idéia. Apesar de desenvolver um outro tipo de registro, catalogando as inscrições urbanas, o trabalho de vocês é um alerta. Seria oportuno que em outras metropóles a iniciativa fosse copiada. Talvez dessa forma, sensibilize as pessoas pelo respeito à vida e um comprometimento das instituições.
Desejo sucesso!!!!
JFParanaguá
RP e fotógrafo
28.11.07 @ 10:50
Nome: JAIME FONSECA
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Eu acho que o Anderson esta certo, mas por outro lado, vcs jornalista estão de parabens, estão motivados para o bem, isso é o que basta, se isso não der certo podemos mudar a tática o que interessa é estar pronto para inibir o crime que assola o pais.
28.11.07 @ 11:01
Nome: nilton
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Parabens !!!!!
uma ótima iniciativa que deveria ser copiado em todas as capitas e até em todas as cidades para que se começe a contar o final dos tempos.
esta infeliz realidade que vivemos, não vai parar por ai e veremos em breve coisas muito pior, e que Deus proteja as pessoas de bem!!!
28.11.07 @ 11:02
Nome: nelson tury
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e incrivel a escalada da violencia e desprezo pela vida humana
28.11.07 @ 11:28
Nome: Gustavo de Almeida
Url: http://www.interney.net/blogs/eclipse
Amigos, peço que não deixem de visitar o PE BODYCOUNT (http://www.pebodycount.com.br ) também. Obrigado pelos comentários de todos vocês.

A dúvida do Anderson é muito pertinente, e fez uma excelente pergunta.

Anderson, de fato. Mas no caso do Recife, é diferente do Rio, o crime é avulso, o homicídio não é obra do crime organizado. Pintar é nunca mais esquecer, é registrar para que todos se engajem na luta pela paz.

Sua dúvida é pertinente, mas creio que neste caso o silêncio é o mais perigoso.

abraço
28.11.07 @ 11:52
Nome: Ivan - Osasco - SP
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Parabéns!!!

Precisamos de iniciativa como esta, precisamos que o mundo veja o quanto estamos abandonados pelas nossas liderança que só lembra do povo na epoca das eleições, uma vergonha nacional. Recentimente estive no estado da Bahia e a coisa por lá não é diferente, escureceu, praticamente se dar o toque de recolher por causa da violencia, meu Deus onde vamos parar com esse desprezo pela vida!!?
Parabéns galera.
28.11.07 @ 11:54
Nome: Alexandre Inagaki
Url: http://pensarenlouquece.com
Iniciativa realmente importante. Só acrescentaria uma menção à inspiração inicial do PE Body Count, que foi o Rio Body Count - http://pt.wikipedia.org/wiki/Rio_Body_Count -, criado por André "Malvados" Dahmer, que por sua vez se inspirou no Iraq Body Count - http://www.iraqbodycount.org/.
28.11.07 @ 13:13
Nome: Gustavo de Almeida
Url: http://www.interney.net/blogs/eclipse
Eles assumem a inspiração. Eu é que não registrei, primeiro por ser o projeto do meu amigo Dahmer já bastante conhecido, e depois porque a matéria é sobre o Marcas em primeiro lugar. O PE já foi tema de diversas matérias desde o início do ano.
28.11.07 @ 13:23
Nome: Paulo Cesar
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Magistral o projeto dos jovens recifenses, é o primeiro passo. por que não colocar uma marca no chão onde houver um acidente de trânsito grave?
28.11.07 @ 15:47
Nome: margarida
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Será que Recife é realmente a cidade mais violenta do país? E o Rio de janeiro? O problema é que Recife fica no Nordeste e Rio de janeiro será sempre a cidade maravilhosa.É melhor verificarmos os DADOS REAIS.E não mascará-los.
30.11.07 @ 12:50
Nome: Gustavo de Almeida
Url: http://www.interney.net/blogs/eclipse
Margarida:

os dados são DOS JORNALISTAS de Recife, que são moradores de Recife, que adoram Recife.
Quem diz que é a quarta capital mais violenta da América Latina são os jornalistas de lá.

abraços



01.12.07 @ 02:36
Nome: EAD
Url: http://www.ead.feuc.br
Jah fui a Recife eh um lugar maravilhoso pena q a violência está se alastrando por lá!!
03.12.07 @ 17:52
Nome: kominski
Url:
isto prova que armas não matam pessoas, pessoas MATAM pessoas. onde esta agora a malfadada lei 10.826(estatuto do desarmamento)?????. me respondam!!!!
antes mesmo da invenção da pólvora já existia a barbárie, a violencia é intrínseca ao se humano.
já dizia um pensador antigo (não sei o nome dele) SI VÍS PACEM PARABELLUM, SE QUERES A PAZ PREPARE-SE PARA A GUERRA.
E DIREITOS HUMANOS PARA HUMANOS DIREITOS.
06.04.08 @ 12:21
Nome: Tuanny Ubiali
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Muito bem colocado a pesquisa de voces, inclusive sou de Florianópolis, Santa Catarina,curso direito, e venho fazendo um trabalho em específico a violência no Recife/PE, e depois de procurar muito, algumas pesquisas dizem que melhorou a violência..outros dizem que piorou, outros ainda mencionam q continua o mesmo.Por fim, gostei muito dos vídeos,inclusive gostaria de saber, se é realmente um documentário feito por voces sobre a violência no Recife,ou são apenas vídeos para pôr na internet para a consciência social?

Grata.
24.06.08 @ 18:06

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