Gustavo de Almeida e Marcele Fernandes são cariocas, casados e rubro-negros. Ele tem 40 anos e trabalha de noite. Ela tem 27 anos e trabalha de dia. Os dois se encontram nas poucas folgas que restam, nos posts do blog e, quase sempre, nos sonhos também.
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Marcele Fernandes









27.11.07

Quando a arte vem da barbárie (1)

Aos 22 anos, Anna Kahn estava dentro de um ônibus Botafogo-Alvorada trafegando pela orla do Rio quando um arrastão se anunciou: um bando de meninos começou a assaltar os passageiros. Mal chegou ao Túnel Dois Irmãos e um homem armado dentro do coletivo começou a disparar contra os adolescentes. Correria, pânico e gritaria. Mais uma recordação do Rio de Janeiro, que Anna me conta com estranhamento e um certo terror guardado. "O que mais me assusta na violência urbana no Rio é como pode se tornar banal", desabafa.
Ali, naquele ônibus, só o acaso livrou Anna de ser atingida por uma bala perdida, mas ficou o trauma de ter tentado sair do ônibus e ser impedida pelos corpos feridos caídos na porta. Antes deste episódio, já havia ouvido da avó que um assaltante teve a coragem de apontar a arma para a cabeça de uma idosa. E teve o irmão assaltado e ameaçado.
Essa e outras experiências da fotógrafa foram a inspiração amarga para o trabalho feito desde 2002, transformado na exposição 'A testemunha silenciosa — um ensaio fotográfico sobre balas perdidas no Rio de Janeiro'. São 25 imagens de locais marcados por tragédias, ocorridas desde 1992. Anna catalogou cada um dos casos.

Seguindo a trilha dos crimes pelos jornais cariocas, enveredou por vielas e favelas da cidade, muitas vezes correndo riscos de ser ela própria uma vítima da violência que retratava. "Em algumas favelas, não teve jeito: os traficantes mandavam recados para que a gente saísse. Eu ia sempre aos locais com meu assistente, e de carro, com um tripé. Mas no Rio nem sempre é possível fazer fotos de tripé, fotos paradas, com tranqüilidade", conta Anna. Para a fotógrafa profissional, medo mesmo é a Avenida Brasil de madrugada, onde teve de passar e às vezes parar a fim de fazer seus registros. Ou a Linha Amarela, como na última foto deste post.
As fotos todas têm nome das pessoas: Josué, Carla, Gutemberg. Todos mortos.

Uma das fotos que marcaram fundo foi no Posto Seis, em Copacabana. Segundo Anna, uma das poucas que não foi em noite escura, e sim no suave e contraditório crepúsculo: ali, era necessário somar a beleza do pôr-do-sol com a angústia de saber que ali, anos antes, uma mãe morrera ao ser baleada enquanto protegia a filha pequena. "Simboliza ali a passagem do paraíso para o inferno", me conta Anna, pelo telefone.

A exposição de Anna fica até fevereiro no Instituto Moreira Salles, na Gávea.

****

E por falar em eventos culturais, convido os leitores paulistanos a prestigiar o lançamento de Meias vermelhas e histórias inteiras, de Marcos Donizeti, autor do blog Hedonismos. Será no dia 03 de dezembro de 2007 (próxima segunda), a partir de 17hs no Bar Genial, que fica na Rua Girassol, 374, em Vila Madalena.
Note que usei o "em" Vila Madalena. O bom paulistano praticante provavalmente vai me corrigir dizendo que é "NA" Vila Madalena. Na verdade, até hoje eu só sei mesmo que se diz "EM" Vila Isabel, logo, uso a mesma regra...

por Gustavo de Almeida as 13:23:34

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Nome: Fernando Oliveira
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Se for levar a sério mesmo sse trabalho, essa moça não vai fazer mais nada na vida...
27.11.07 @ 17:18

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