Gustavo de Almeida e Marcele Fernandes são cariocas, casados e rubro-negros. Ele tem 40 anos e trabalha de noite. Ela tem 27 anos e trabalha de dia. Os dois se encontram nas poucas folgas que restam, nos posts do blog e, quase sempre, nos sonhos também.
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Marcele Fernandes









24.11.07

Compras de Natal ao som de prazer sexual

Quem acompanha minimamente o Eclipse já deve ter percebido que somos um casal (ainda) sem filhos. A Internet mantém os textos eternamente no ar, por isso é bom assinalar: estamos em dezembro de 2007 e Marcele e Gustavo ainda não têm filhos. Vai que o moleque, aos 2 anos de idade, acha no Google este texto e fica magoado ao ler. Bom, mas como eu ia dizendo, não temos filhos, o que é óbvio, já que um só rebento já significaria a atualização altamente esporádica do Eclipse, e não as tentativas de todo dia deixar um texto. Não ter filhos significa falta de experiência – minha – no contato com as lojas de brinquedos. A cada ida para comprar presente para um dos sobrinhos ou filhos de amigos, é uma experiência nova. Ouço a voz de Martinho da Vila.
- O que ele está cantando? – pergunto.
- Não sei – responde Marcele, distraída.
Estamos nas Lojas Americanas. Seção de brinquedos. Descomunal, diga-se. Estamos procurando um presente para a afilhada da Marcele. Ainda não é de Natal, mas o clima é como se fosse. Paramos em uma estante só de barbies e ouço a voz de Martinho da Vila nos alto-falantes da loja, que tocam um CD especial de músicas de Natal. Martinho, com seu velho estilo Morrisey de cantar um lamento baixinho, canta “Feliz Natal Papai Noel “. Nunca tinha ouvido. De repente, dou um susto na Marcele:
- Peraí! O QUE ELE ESTÁ CANTANDO?
Ela olha para cima como à busca da letra da música, gira os olhos e diz, “Não ouvi”. Eu saio de perto dela para não conversar, saio buscando um lugar para ouvir direito a letra. “Papai Noel, etc, etc”, “Com seu trenó”, e de repente, no meio da música, “PRAZER SEXUAL”.
- Marcele.
- O que é? – responde ela, manuseando uma Barbie de roupa espacial e outra com roupa medieval.
- Você não ouviu? Tem a expressão PRAZER SEXUAL na letra do Martinho.
- Sério? Tem isso mesmo? – diz ela, arqueando as sobrancelhas, mas dando a entender que não está muito surpresa. Decerto, eu penso. Não expliquei que tem PAPAI NOEL e PRAZER SEXUAL na mesma letra de música. Até aí tudo bem, ora. Estamos em um país livre. Estamos na América (hehe)! Mas precisava colocar uma música destas num CD de músicas de Natal? Como explicar o que é "libido" para um moleque com uma Batalha Naval da Glasslite na mão?


Feliz Natal Papai Noel
Que desce ao léu com seu trenó
Com seu trenó trazendo um saco de emoções
Muito tato pra lidar com os amores
Apurado paladar para os quitutes
Pro prazer sexual muita libido
Que a justiça seja nua e sem antolhos

Das duas uma: ou a proximidade dos 40 anos está me tornando um sujeito careta, conservador e retrógrado, ou é normal se pensar em prazer sexual durante os festejos de Natal. De fato, nunca pensei nas rabanadas como afrodisíacos, nunca tinha reparado como nozes e castanhas têm formatos indecentes, safados, e jamais curti os prazeres do sexo com ouro, incenso e mirra espalhados pela alcova. Como eu nunca pensei em pedir ao Papai Noel uma caixa de Viagra? Bom, deve ser porque ainda não preciso. Ainda. Me sinto um ultrapassado por nunca ter reparado que aquelas coroas, primas das nossas mães, que vão às ceias de Natal, na verdade saem de lá bêbadas direto para a Praça Mauá, fazerem ménage-a-trois com dois estivadores angolanos. E sabe que até hoje nunca havia reparado como a carne do chester é tenra, macia....sensual...humm....
É, fiquei velho mesmo. Deixando a música louca do Martinho da Vila de lado, tentei ajudar Marcele a escolher um presente para a afilhada. No entanto, os autoramas, times de botão e dinossauros ferozes que ofereci foram enfaticamente recusados por minha senhora, que insistiu: o negócio da afilhada é Barbie mesmo. Pela primeira vez em 39 anos de existência, me detive por mais de 20 segundos diante de uma prateleira de Barbies. A primeira vez que parei mais de 10 segundos foi cinco minutos antes, na hora em que falei com ela sobre a música do Martinho.
Pego uma Barbie com biquíni. Marcele recusa. Diz que quer vestido mais longo. Reparo então que todas as Barbies estão com sainhas meio “cachorras”. Estilo “tou ficando atoladinha”. Umas Barbies estão de shortinho apertado. Menos mal que a Barbie é (corrijam-me se estiver enganado) americana – portanto, tem bunda magra, achatada. Seria pior se fossem popozudas. De repente, avisto um boneco em vez de boneca.
- Olhai, Marcele. Leva o Ken para a sua afilhada.
- Gustavo, não se fabrica mais o Ken.
- Pô, mas este boneco é o Ken.
- Gustavo, deve ser o Antonio, não o Ken.
- Antonio? Como assim?
- A Barbie e o Ken terminaram, e ela agora está com o Antonio.
- Como assim???!!? A Barbie disse “A fila tem que andar” e já está com outro?
Ela pega um Antonio e me mostra:
- Olha aqui, é esse – diz, me mostrando um boneco meio latino, um pouco escurecido. Só que eu aí surpreendo Marcele:
- ESTE AQUI que eu estava olhando não é o Antonio, é o Ken!
- Ué? Voltaram a fazer o Ken?
- Devem ter percebido que na verdade, antes de ser morto, o Ken é corno. Um boneco corno. O primeiro boneco corno da humanidade.
- (...)
- Por que não fazem um bar para o Ken encher a cara, cigarros pro Ken, o Ken com barba por fazer, e o Ken com olho roxo de brigar com bêbados num botequim pé-sujo? O Ken tomou um pé na bunda de alguém com quem estava há 40 anos (corrijam-me, corrijam-me) e está aí, numa boa, face glabra e sem um cabelo desarrumado sequer? Ora, façam-me o favor.

Marcele não me explica nada. Mais tarde descubro, no Google, que ainda tem um tal de Blaire na jogada. Além dele, Ken e Antonio estão aí na prateleira, Barbie pode escolher à vontade. Ou, sei lá, fazer um ménage-a-trois com os dois. Que nem as primas coroas da minha mãe, na noite de Natal, com os estivadores angolanos. Martinho da Vila está no ar. A atmosfera é puro sexo. Estamos na seção de brinquedos das Lojas Americanas.
Sigo até a estante de jogos de tabuleiro e começo a salivar com as edições novas e especiais do WAR. Tudo na faixa dos 90 reais, caro pra cacete, apesar de eu ter gastado outro dia exatamente 90 reais bebendo vinho e comendo com os amigos durante o jogo da Seleção Brasileira. E olha que WAR não dá ressaca.
Paro diante de um DETETIVE.
- Não acredito.
- O que foi?
- Eles mudaram. Mudaram. Os modelos mudaram.
- Que modelos? – pergunta Marcele.
- Senhor Marinho, Senhorita Rosa, Dona Branca, Dona Violeta, Professor Black e Coronel Mostarda não são mais os mesmos. Não, não, não pode ser.
Era verdade. Fotografo a atual “Senhorita Rosa” num celular, é um desenho de computador, insosso e forçadamente pseudosensual. Olha só:

Nada, nada daquela senhorita Rosa que nos povoava a imaginação – enquanto tentávamos descobrir o assassino (eu sempre achei o Professor Black, por ser mais discreto, o potencial assassino, com o candelabro na sala de estar), imaginávamos encontrar a Senhorita Rosa na biblioteca e possuí-la selvagemente, sem que ela sequer largasse a sensual piteira com o cigarro na ponta, como a exigir britanicamente uma sessão de rigor e disciplina, como a querer ser punida (“You are a bad, bad, bad girl”, “Yes, and i need to be punished” - in Sideways).
Senhorita Rosa hoje só excitaria um software. Mesmo assim, um de Linux brocharia.
Continuamos andando shopping afora. Ainda é novembro e os corredores estão tomados, há quase uma guerra. Sim, a atmosfera é de puro sexo: do jeito que a coisa está, quem deixar para fazer compras de Natal em cima da hora vai se f(*) muito.
Ao som de Martinho da Vila.

por Gustavo de Almeida as 12:16:17

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Comentários:


Seus comentários

Nome: Zé Evaristo
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O velho Martinho sempre gostou de uma sacanagem, não tem jeito...
24.11.07 @ 15:33
Nome: Regina
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Chorei de rir!!! Muito bom. Mas tbm me admirei: trocaram os personagens do jogo detetive!!!!!!!!!!! O mundo está perdido mesmo... Eu já acho um milagre a Barbie não aparecer vestida (me corrijam!) de militar.
24.11.07 @ 15:36
Nome: Gustavo de Almeida
Url: http://www.interney.net/blogs/eclipse
Regina, aposto que a Barbie já foi vestida de militar algum dia. Vou até procurar no Google!!!

Abs,
24.11.07 @ 16:13
Nome: Núbia Rocha
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Amei essa história enquanto Marcele se preocupava com os presentes a imagin ação sexual dele não parava...........
25.11.07 @ 08:25
Nome: Gustavo de Almeida
Url: http://www.interney.net/blogs/eclipse
Núbia, a culpa foi do Martinho da Vila...

abs
Gustavo
25.11.07 @ 10:56
Nome: alessandra
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ai, gente, se eu pudesse ficava aqui lendo vocês o dia todo, muito bom!!!
28.11.07 @ 10:21
Nome: Ludmilla
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Hahahaha! Muitas gargalhadas por causa do Antônio, o pseudo Ricardão da barbie.
Já imagino a afilhada da Marcele brincando: Ken e Barbie se casam (ao som de Martinho da Vila). Antônio é o motorista da noiva...
01.12.07 @ 09:04
Nome: Paula Máiran
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Gustavo, chorei de rir...rss... E logo me lembrei de um dia desses em que a Mariana (hoje com 5 aninhos)fechou a porta do quarto da avó para brincar com três Barbies e um Ken pelados na cama de casal. Explicou para a babá que o que eles iriam fazer só deveria ser feito a portas fechadas... Quando a babá perguntou se iam namorar, ela disse que não, que iriam fazer sexo...E ainda explicou, diante de uma terceira pergunta da pobre babá, que o Ken só era um, mas que teria de dar conta das três bonecas, porque ninguém poderia ficar sozinho naquela história... E aí Gustavo e Marcele??? O mundo mudou mesmo...rsss
01.12.07 @ 23:35
Nome: Srta. Rosa
Url: http://senhoritarosa.wordpress.com
Fiquei arrasada. :(*
23.07.08 @ 14:16
Nome: marianny
Url: http://momo 123
eu sou de mais
06.09.11 @ 22:33

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