17.11.07
De Reservoir Dogs ao Capitão Nascimento: dez filmes que abalaram meu mundo
A revista Piauí publicou, em dois capítulos – um por edição – os diários de Kenneth Tynan, dramaturgo inglês polêmico por ter escrito “Oh Calcutá” (peça em que todos os protagonistas estão pelados). Morto em 1980, amigo de Marlon Brando e Richard Harris, é uma espécie de Roniquito do jet-set conexão Londres-Los Angeles, um porra-louca que nos diários se revela como apreciador do sadismo leve: gosta de bater em mulheres, mas usando escovas de cabelo ou tapas de mão aberta. À parte essas perversidades (todo mundo tem alguma, a bem da verdade), Tynan tem opiniões fortes e algumas, digamos, na mosca: uma delas é que não haverá outra arte que influencie mais gestos e comportamento humano do que o cinema. Bingo.
Eu nunca me peguei imitando algum gesto, mas é certo que o meu comportamento e a visão das coisas tem muito do cinema. E, sorry, antiamericanófilos: muito do cinema americano, onde ninguém entra pelo cano, já disse Paulo Leminski. Na lista de Dez Filmes que Abalaram Meu Mundo, já começo por um americano. Veja bem, não é uma lista de “Os 10 Melhores”, nem de “Os 10 bons”, nem de “Os 10 filmes que eu mais gostei”. Trata-se de filmes e cenas que abalaram o “meu mundo”. Às vezes nem pelo filme todo, e sim por uma cena. Vamos a eles.
1- A FELICIDADE NÃO SE COMPRA (It´s a wonderful life) – A obra-prima de Frank Capra, que dirigiu clássicos como Horizonte Perdido e Do mundo nada se leva, me abalou profundamente em diversas cenas. Mas acima de tudo porque no dia em que minha prima Mariana Lê Gal me mostrou este filme (o filme de nossas vidas, talvez), eu percebi que é possível ser bom sem deixar de ser humano. Não é preciso voar nem ser invulnerável, e que, como em “My name is Earl”, o Karma existe. George Bailey é bom, tudo o que quer na vida é fazer grandes viagens, mas Deus lembra que ele nunca deixará sua cidade. Bailey, apesar de bom, pega seu tio amado pelo colarinho e o xinga de imbecil, quando a situação chega ao limite. Bailey entrega os pontos e decide se matar. Mas o Karma não deixa. Um clássico inesquecível, uma sacudida na alma: Bailey começa a conhecer o mundo, como ele seria se jamais tivesse nascido. O fim do filme arranca sempre lágrimas de mim e de minha prima.
Divertidíssima montagem transformando o filme de Capra em um suspense B
2- CÃES DE ALUGUEL (Reservoir dogs) – “Por que dar gorjeta?”. As explicações de Harvey Keitel me convenceram: eu sempre dou gorjeta. Achava que era algo supérfluo, mas Tarantino abalou meu mundo com essa cena.
"I don´t tip", diz Steve Buscemi. Magistral.
3- ALTA FIDELIDADE (High Fidelity) – A mania de listas eu já tinha, antes de conhecer Rob Gordon. Nunca tinha visto Jack Black e suas reações histéricas, sua energia sexual acumulada e revertida em rock and roll. Fiquei impressionado. Mas o que abalou mesmo foi constatar que alguém pode ser o nosso lar – anos depois, descobri meu lar na Marcele.
4- O BEBÊ DE ROSEMARY (Rosemary’s Baby) – O clássico de Roman Polanski abalou meu mundo da seguinte forma: me ensinou a ser paranóico, coisa que eu até já era um pouco; Rosemary’s Baby me mostrou que a gente não está tão enganado assim quando sente que todos estão contra você e até o cara da carrocinha de cachorro-quente pode ser um agente da Inteligência a fim de te entregar. Pelo menos no meu prédio, fora dois vizinhos muito bacanas, volta e meia tenho a sensação de que todos são uma seita e que o objetivo é me entregar a um capeta num ritual sangrento. Só confio na Marcele. Marcele? Marcele? Você está na cozinha? Ouço barulho de talheres.
5- CINEMA PARADISO – A magistral obra-prima de Giuseppe Tornatore me jogou num abismo para sempre, onde a queda nunca termina. Me deu, à vida, a vertigem de recordações sem memória acumulada. A nostalgia de coisas que não vivi. Cinema Paradiso me fez gostar mais ainda de cinema e me preparou para um dia ver minha vida toda em fragmentos. A cena dos beijos censurados é inesquecível e me abalou completamente ao ver.
6- FEITIÇO DO TEMPO (Groundhog day) – Dizem que este filme é uma chupada de O ano passado em Marienbad, do francês Alain Resnais. Acho difícil. Feitiço do Tempo é tão-somente uma genial constatação de que erramos a cada minuto, tomamos decisões estapafúrdias a cada segundo, mas que a idade nos melhora. No caso do protagonista de Bill Murray, pôde aprender tudo sem pagar em anos de vida, viveu o mesmo dia até entender seu destino e o que fazer para mudá-lo. Sutil e genial. Filmaço que me fez parar para pensar.
7- DEPOIS DE HORAS (After hours) - A fantástica opereta de Martin Scorsese – um cara tenta voltar para casa e não consegue – é uma espécie de “O bebê de Rosemary” out-door, vivido nas ruas de uma Nova York cheia de bairros intelectuais de classe média-baixa. Este filme me colocou frente a frente com um legítimo yuppie (Griffin Dunne) pela primeira vez, o cara que divide seu tempo entre a vida profissional e a vida física. Nada de vivências morais, espirituais ou metafísicas, apenas a busca do prazer para compensar o trabalho. Uma forma perigosa de viver, em que você acaba virando uma mera estátua de papier-maché.
8- SEXTO SENTIDO (The Sixth Sense) – O filme que projetou M.Night Shyamalan me chocou profundamente, não apenas por me fazer rever o lado espiritual, mas pela forma, pela estética daquele novo cinema. É um cinema onde se espera pela surpresa e ela, previsivelmente, acontece e você quase infarta mesmo assim. É razoável afirmar que Shyamalan até hoje não conseguiu repetir o bom desempenho de Sexto Sentido, mas é lícito afirmar também que todos seus filmes são revestidos desta aura de fascínio, de misticismo e mitologia, que nos traz sensações velhas da infância. A principal delas: descobrir, de novo. Como no início de “A dama na água”, você volta a ver as coisas de dentro de um buraco, e isso às vezes é divertido.
9- KING KONG – A versão de 1977, claro. Vi aos 10 anos. Jessica Lange passa 90% do filme com as pernas de fora. Na maioria das cenas, metida em um shortinho jeans apertadíssimo, em outras cenas de vestido decotado, aquele em que o macacão vai pegá-la no espetáculo já na cidade de Nova York.
Impossível não se abalar com Jessica Lange quando se tem 10 anos de idade.
10- TROPA DE ELITE – No meu ambiente de trabalho, só se fala assim: “Boa, zeromeia. Mas também, com meu fuzil fica fácil, né?”; “Não vai subir ninguém! Não vai subir ninguém!”; “O senhor tem DEZ SEGUNDOS pra baixar essa página, senhor zero dois”; “É 100%, zeromeia?” “Caveira, meu capitão!”. As frases do Capitão Nascimento tomaram o meu mundo de assalto. O filme de José Padilha, na verdade, tomou diversos mundos. Não poderia deixar de estar nesta lista.
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achei muito interressante.
depois da uma passadinha la no meu e vê oque acha blz abraço...
diegones.spaceblog.com.br
abraço
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Muitos dos meus filmes estão na tua lista, o que me envaidece aliás. MAs de todos esses,Gustavo, o mais-mais, o mais especial é Cinema Paradiso. O filme que marca o primeiro quase-beijo, que me fez ter certeza absoluta que o Mau era o homem da minha vida. E que bastava de quase-beijos, é claro.
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E para que o beijo seja beijo, o homem tem que saber da angústia do quase. Aliás, o que nos faz sermos seja lá quem formos é o quase, sempre.
bjs
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Gostei muito da lista. Aliás, o gosto do Gustavo por música/cinema só não é superior ao seu gosto por futebol.
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