15.11.07
A nhoqueira humana e a dificuldade de se cocôzar fora de casa
É o que mais acontece: quem lê tem mais bom senso do que quem escreve. Senti isto no meu post “As cinco músicas mais engraçadas do rock and roll”, em que recebi comentários bem enérgicos. Agora, as pessoas em geral me chamaram a atenção para um detalhe: com exceção de “Big Balls” do AC/DC, as músicas não eram engraçadas. Pensei então que o título do post deveria ser “Traduções que surpreendem”. Hotel Califórnia, Money for nothing, How do you sleep e Silly love songs são realmente letras de um vigor inusitado para o tipo de melodia que são. Pronto, consertei.
A única coisa engraçada que tinha mesmo, apontou um leitor, era um dos diversos clipes do YouTube no qual malucos dramatizavam a bossa-nova “Cagar é bom”, do Juca Chaves.
Fui digitar a música no Orkut e encontrei algumas comunidades com o nome “Odeio cagar fora de casa”.
Achei engraçado e digitei “Cagar fora de casa”. Apareceram 284 resultados, quase todos comunidades com o mesmo nome “Odeio cagar fora de casa”. Havia uma ou outra comunidade com o contrário, ou seja, “Amo cagar fora de casa” . Mas aí, sem desmerecer o povo da comunidade, trata-se de algo extremamente exótico. Nada de mais: conheço gente que gosta de ver os programas de leilão na CNT de madrugada, o que dá mais ou menos na mesma coisa, o mesmo exotismo.
De fato, o ato de cagar fora de casa (se os nobres leitores preferirem, troco o “cagar” por “defecar” sem problemas, é só avisarem nos comments) implica em uma série de estratégias que aborrecem e trazem tensão a um ato que deveria, por natureza, acontecer com relaxamento.
Eu, que estou em emprego novo, em horário localizado bem no meio de um dos ciclos digestivos, procurei, inconscientemente, saber dos banheiros estratégicos. O que são “banheiros estratégicos”? Certamente não é fazer no mato, como o sujeito do vídeo abaixo:
Bom, um banheiro estratégico reúne basicamente os seguintes requisitos:
1- Não se encontra com a porta voltada para área de grande circulação. É desagradável sair do banheiro e dar de cara com o mundo real. Se dependesse de mim, toda porta de banheiro público sairia em Shangri-lá ou Xanadu, em mundos imaginários, e só depois o sujeito estaria no meio de faxes, impressoras, gente de gravata e carpete cor cinza-de-cigarro.
2- Não fica perto o suficiente do ambiente mais cheio e nem perto do refeitório. É importante porque é muito constrangedor você estar lá dentro, no reservado trancado, e de repente entram um, dois, três, quatro caras para escovar os dentes. As vozes se misturam e você não consegue identificar. E fica difícil saber a hora de levantar, dar descarga (ok, o “se limpar” está implícito no ato de “levantar”) e abrir a porta do reservado, um momento especial. O ideal é com o banheiro vazio, mas nos casos de escovação dental, sempre fica um gaiato quietinho depois que os outros se foram para se virar para você e mandar, com a boca toda suja de pasta: “Aí, heim? Castigando a louça!”
3- Os reservados devem estar fora da visão direta da porta, em um ângulo de 90 graus. Geralmente, o sujeito que entra no banheiro com reservado logo na reta acaba vendo seu sapato e te identificando imediatamente. “Ô Fulano! Os Jackson Five vão para a hidro é? Ehehehehe” é o tipo de piadinha um tanto desagradável, além de eu achar um tanto racista.
4- As portas dos reservados devem cobrir uma área bem grande, de preferência. Há bares no Rio que adotam quase uma porta de saloon nos reservados. O Sindicato do Chope original, na Farme de Amoedo (rua em que eu freqüentei há muitos anos, nos tempos em que se via mulher por lá), tinha uma porta de saloon e em cima do reservado um espelho. Creio que era para o Senhor Cagador ver quem estaria entrando no banheiro, sei lá. Mas a impressão que se tinha é que a defecção estava sendo transmitida via espelho.
Este banheiro perfeito, mesmo assim, não traz tranqüilidade, e sim viabilidade a sua cagadinha off-home. Costumo dizer que não há no mundo um ser humano com um silêncio mais sepulcral do que aquele que se encontra no reservado enquanto outro FDP qualquer está lavando a mão longamente e assoviando algum sucesso de grupo de pagode. O cara lá, cantando, e o outro lá dentro, olhando para as inscrições “ADA”, “CV”, “TJF” e “Maluf presidente” na porta do banheiro. Ninguém no mundo, nem mesmo um vietnamita submerso num pântano, faz menos barulho do que esse cara no reservado.
Há também aquela situação chamada Venda Casada: o sujeito vai ao banheiro para aliviar a bexiga e percebe que só vai conseguir fazer isso efetivamente se atender integralmente ao chamado da natureza. É como um upgrade sanitário, uma “oferta Bob´s”: “O senhor aceita uma cagadinha junto com seu xixizinho?”. Aí a única resposta é, “pode ser”. Você foi pego de surpresa e o jeito é escolher: ou recolhe as armas ou olha em volta e fecha o reservado.
As técnicas são inúmeras, além da escolha do banheiro. Em todos os lugares em que trabalhei, havia sempre um grupo de 10 ou 12 que tinha o “macete do banheiro”, ou em um andar diferente ou em local distante.
Agora, é fácil perceber quando não deu tempo de chegar: o cara entra no banheiro, vê aqueles três caras na pia – dois escovando os dentes, um lavando a mão – e hesita. Aí pergunta: “Vocês viram fulano? Telefone para ele”. Negozinho responde que não viu, o cara volta e sai. Telefone porra nenhuma. O cara estava como o urubu a lhe beliscar a cueca e voltou atrás, diante da hostilidade vigente no banheiro.
Sobre esse tipo de situação no trabalho, há também o Efeito Nhoqueira Arno. O chefe sacana espera o subordinado entrar no banheiro, dá um tempo de quatro minutos (bem calculado, que é o tempo de sentar, empreender o primeiro esforço-contração e aguardar a segunda leva) e começa a gritar o nome do infeliz. “Fulano! Fulano! Fulano! Cadê Fulano?”. Não dá outra. O cara corta ao meio e estabelece aí o Efeito Nhoqueira Arno. Eu nunca estive de nenhum dos lados dessa nhoqueira, é bom esclarecer.
Agora, se o seu caso é: a empresa só tem um banheiro e fica em frente ao ambiente em que todos trabalham. Algo digno de um pesadelo, como a pegadinha do vídeo acima.
Aí, meu amigo, relaxa mesmo, vulgariza o negócio: antes de ir ao reservado, escancara, pergunta se alguém tem uma revista maneira (evita pedir a PLAYBOY porque pega mal) ou o suplemente de Esportes, avisa que “o trem-merda está chegando à estação” e seja feliz. Cagar fora de casa é ruim de qualquer maneira – mas se você fizer os outros rirem por antecipação, fica tudo bem. Em resumo: o único jeito mesmo é cagar para o que os outros pensam.
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ANDRE JERICO: não estou me lembrando de ter marcado de ir conhecer sua equipe. Tem certeza de que sou eu que marquei?
FERNANDO: Depende de quem fez barulho...
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