14.11.07
Por que aqui na face da Terra só bicho escroto é que pode ter?

Eu não tenho medo de escuro. Não tenho (muito) medo de fazer reportagens durante operações em favelas. Não tenho medo de andar em rua vazia. Não tenho (muito) medo de assombração.
Mas admito: não me dou bem com nenhum ser vivo que tenha mais de quatro patas. Há alguns de quatro patas (a maioria jornalistas) que eu não gosto, admito, mas passou disso, sem chance de negociação. A barata, por exemplo, é um bicho que a Marcele consegue até pegar com a mão, em caso de necessidade. Eu creio que se for me dada a opção de pegar uma barata com a mão ou enfrentar um leão que tenha passado uma semana comendo iogurte, bom, escolho o leão meio que de olho na barata. Vai que ela passa por cima de mim enquanto o leão estiver dilacerando meu tórax?
Deste modo, quando a Marcele me avisou pelo Google Chat que na nossa sala havia uma mariposa que, calculo eu, tinha mais ou menos a envergadura de um albatroz, fiquei em dúvidas se voltava para casa ou não.
Pensei até em chamar uma equipe do Batalhão de Polícia Florestal e de Meio Ambiente (BPFMA) para recolher a mariposa, mas os caras mal têm carro e equipamento para cuidar das florestas, estava arriscado eu ser preso se chamasse. Um amigo que trabalha com o BPFMA ainda me enviou um email zoando: "Se a sra. De Almeida matar a mariposa, estará cometendo crime ambiental!". Quer dizer, zoando não, do jeito que o cara é dedicado ao trabalho dele de meio ambiente, poderia estar falando sério!
Cheguei em casa depois de uma hora e meia, a sala já estava desocupada pela tropa inimiga. A Marcele havia conseguido aprisionar a mariposa em um pote plástico e, aos poucos, jogou a dita pela janela da sala. A mariposa provavelmente agiu por puro reflexo: procurou a primeira luz em uma janela aberta que era...tchan, tchan, tchan, tchan: o banheiro. E lá se instalou.
Marcele fechou a porta e assim passamos a usar o banheiro de empregada doméstica para as necessidades básicas. O chuveiro de lá é elétrico, mas temos um problema: algum defeito no escoamento faz com que, ao tomar banho, toda a cozinha e o corredor fiquem completamente alagados, tal e qual a Praça da Bandeira em dia de temporal.
O pior: quando eu cheguei em casa, Marcele estava expulsando uma formiga estilo saúva, bem grande, de sua panturrilha. Na cozinha, formigas pequenas e viciadas em doce faziam uma fila que, desenrolada, poderia se estender pela Ponte Rio-Niterói. Quando a Marcele (claro) resolveu entrar no banheiro e ver se a mariposa tinha ido embora, deu de cara com um filhote de barata.
Nossa casa, onde moramos há dois anos, nunca teve insetos. Estou desconfiado de uma conspiração. Talvez dos vizinhos, cansados de nossa vida noturna. Ou dos insetos mesmo, sei lá.
Sei que é dura a vida de esposa de Gustavo, coitada.
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