Gustavo de Almeida e Marcele Fernandes são cariocas, casados e rubro-negros. Ele tem 40 anos e trabalha de noite. Ela tem 27 anos e trabalha de dia. Os dois se encontram nas poucas folgas que restam, nos posts do blog e, quase sempre, nos sonhos também.
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Marcele Fernandes









10.11.07

Sete dias imaginários longe da Marcele

Marcele está viajando. Não, não é em sentido figurado, embora nos últimos cinco anos, se eu falei essa frase, foi assim. Marcele não viaja sem mim, nem eu sem ela. Pelo menos nos últimos cinco (mais oito meses, seis) anos. Ela teve de ir a uma formatura, e eu tinha de ficar por causa do jornal. Marcele ainda esboçou uma tentativa de me fazer ir ao encontro dela em outro Estado, às pressas, no sábado, mas aí eu entendo que a pressa dela fez com que abstraísse o fato de eu sair do trabalho sexta-feira já na madrugada de sábado e, portanto, precisar dormir como um corvo no dia seguinte.
Eu não havia dormido direito na véspera, já que o fato de Marcele viajar implica no seguinte: ela fica até tarde da madrugada arrumando malas e passando roupas em uma tábua que ela deixará na sala depois que terminar. Aí, no dia seguinte, ela acorda cedo para caramba. Marcele é uma pessoa que vive sem dormir. Deixa para dormir no sábado, até duas da tarde. Mas no resto da semana, dorme tarde, acorda cedo.
Eu cheguei três da manhã do trabalho e precisei abrir um vinho e dar uma navegada na Internet. E comecei a divagar sobre Marcele viajando, nesta liberdade falsa que nos acomete: em dois anos de casados, a primeira noite que passamos longe um do outro. É claro que em alguns momentos você até pensa que, “ah, vai ser bom, ficar sozinho um pouco, para ela também”. Porra nenhuma. São cinco horas da manhã e Marcele está me fazendo uma falta danada. E nem sinto falta exatamente da Marcele pelo lado só-love, só-carinho. Sinto falta dos pequenos problemas que ela pede para resolver: “Me dá um copo d’água” ou “Liga o chuveiro pra mim?” são frases que fazem parte da minha vida tanto quanto o Flamengo (acho que esse foi o maior elogio que eu já fiz a uma mulher em toda a minha vida).
É bem verdade que ela é meio bagunceira, mas eu tenho lá minhas manias. Esta viagem será curta, claro, por sorte, e logo logo Marcele vai estar do meu lado. Mas fico imaginando se ela resolve passar uma semana inteira fora.


Opa! Essa não é a Playboy da Mônica!

Primeiro dia: Chego do trabalho. Arrumo a mesa com um prato, dois talheres, a taça, o vinho e o macarrão com molho de tomate, feito no liquidificador, tudo beleza pura. Água mineral com gás, com direito a sobremesa. Termino a refeição, lavo o prato (como sempre) e deito para ver um filme qualquer. Leio a Playboy com as fotos da Mônica Veloso. Aproveito a ausência da Marcele e coloco “O Chamado” ou “Bruxa de Blair” no DVD. Ela não gosta de filme de terror. Eu gosto. Vejo o filme de terror numa boa. Durmo.


Filminho leve de terror que até ajuda a dormir


Segundo dia:
Chego do trabalho. Tou sem saco de comer na mesa. Faço um macarrão rapidinho, mas sem molho de tomate batido. Uso um de latinha mesmo, esquentando. Ligo a TV, mas já não pego o DVD. Vejo o Jornal Nacional. A ausência da Marcele me sufoca completamente. Me deito de saudades e tento dormir para aliviar.


Esse é o mais conhecido, mas os outros são muito bons


Terceiro dia:
Chego do trabalho. Faço macarrão e tempero com ovo frito. Nem ligo a TV. Coloco umas músicas no media player do computador e vou ler. Bill Bryson. Lembro que ela levou um livro do Bill Bryson que eu comprei para ela; me dá uma saudade danada da Marcele. Porra, para que uma semana, cacete?

Quarto dia: Chego do trabalho. Ligo a TV. Penso em fazer um Miojo Lamen. Desisto, dá muito trabalho. Peço uma pizza. Marcele liga, interurbano. Eu choro. A pizza chega, eu tenho de me recompor para pagar o entregador, senão ele vai ficar me zoando geral quando eu passar em frente à pizzaria, que é aqui do lado.

Quinto dia: Nem fui trabalhar. Chutei o balde. Inventei uma gripe. Estou caído na cama, vendo um seriado qualquer. Percebo que é “Dawson’s Creek”. Meu Deus, a que ponto eu cheguei. Abro um pacote de biscoitos de polvinho assim que escurece. Janto biscoito de polvilho. Bebo uma vodka com gelo e durmo. Que sorte.


Equipamento indispensável para ser personagem do chato Michael Moore


Sexto dia:
Me ligam do trabalho. Eu mando todo mundo à merda. Que porra é essa de ficar ligando para minha casa? Aviso que vou pedir demissão. Ouço um barulho, é o gato da vizinha. Estou com fome. O gato que se cuide. Marcele liga. Eu nem choro mais, mas digo que ela não voltar logo, neste mesmo dia, eu viro personagem de documentário do Michael Moore.


As equipes chegam e começam a cercar o prédio

Sétimo dia: Estou no alto do prédio, com um rifle de mira telescópica. Já tombaram a velhinha que era dona do gato, o Seu Geraldo, que limpa os corredores do prédio e o síndico. Falta ainda o padeiro, um careca que sempre nos roubou. As vozes dentro da minha cabeça me dizem que Deus está gostando e que eu vou ser bem recebido, por virgens, em um paraíso só meu. Eu respondo a Deus: “Paraíso o caralho, eu quero a Marcele! Agora!”. As equipes de operações especiais (“Nunca serão!!!!”) começam a cercar a casa, a tropa de elite já domina a situação. Na minha cabeça, ouço a voz do Capitão Nascimento recitando Salmos, aqueles que o Cid Moreira recitava.


Oitavo dia:
A Marcele chega e pergunta: “Pô, Gustavo, podia ter aproveitado a folga no trabalho para arrumar a cozinha, heim?”. É ela mesmo. Meu amor está de volta. Abraço e choro, feliz, digo que amo a Marcele umas 20 vezes, até o carcereiro vir interromper a conversa para me levar de volta à cela. Marcele, com os olhos lindos dela, pisca para mim e me passa um maço de Marlboro por baixo dos panos, cochichando: “Aí dentro isso é dinheiro”. Sou um homem feliz de novo.

Marcele voltou. E eu também. Descubro o óbvio: ficar longe dela é ruim demais.

por Gustavo de Almeida as 05:27:39

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Comentários:


Seus comentários

Nome: Marcelo Lemos
Url: http://www.brasiladentro.com.br
Parabéns!! Ajuda a valorizar o que temos, pois na maioria das vezes só valorizamos quando perdemos... (rimo, rs)
10.11.07 @ 12:48
Nome: Mau
Url:
Deve ser o post de amor mais belo de toda a história dos blogs!
12.11.07 @ 00:47
Ah, o amor...
A cada vez que o meu marido viaja eu lembro do filme "Sozinho em Casa" e já me vejo a pular na cama, com a gata, e a fazer 2198491236503496 coisas que não faço pq ele não gosta de fazer, ou temos outras coisas juntos.
No final das contas, viro uma neurótica agarrada ao telemóvel, à espera que ele ligue e diga: "inspire".
É... sem ele, eu não vivo. Sobrevivo... e mal.
Beijos
12.11.07 @ 09:22
Nome: Rosana
Url:
Adorei seu post, muitíssimo engraçado, rí demais. Sua esposa deve ter adorar demais
12.11.07 @ 12:07
Nome: Paula
Url:
Adorei o texto, muito bom! Quando amamos de verdade, sentimos muita falta da pessoa amada e cada dia que ela fica longe parece uma eternindade. Parabéns pelo texto, beijos para o casal!
23.11.07 @ 12:33
Nome: Mariana
Url: http://vutcha.blogspot.com
O texto eh velho, mas putiz, que lindo!!!!!!
27.02.08 @ 12:48
nossa amei lindo demais parabens
beijo a vcs que deus abençoe
13.12.08 @ 19:13
Nome: N.Sara
Url:
É assim mesmo, Gustavo!
Quando Ricardo vai visitar a família sem mim, fico que nem bicho do mato, recolhida em casa. A primeira coisa que eu faço é fechar, lacrar todos os vidros das janelas e as copacabanas, porque 'tenho medo da rua'. Comida é qualquer coisa que saia da lata, começo a roer pão duro! E nenhuma gota d'água nas plantinhas, pois ficam para além do meu domínio, no peitoril, do lado de fora do vidro hermeticamente fechado. Os pés de orégano e de manjericão ficam sequinhos, retorcidos que nem rabinho de porco... E passar pelas lagartixas que morgam no teto e no umbral de entrada? Essas coisinhas temíveis, nojentas, feias, sem Ricardo para caçar uma ou outra destemida que invade a casa? E as cascudas? A premonição que há cascudas em casa e eu sem meu batedor? Ai, e se são voadoras? Ah não... E quando ele volta, a casa é casa outra vez, e não território inexplorado, deixa de ser filme de horror e de ficção científica no primeiro sorriso que ele dá quando me pergunta: " No aguastes mí albahaca? El orégano está medio muerto!" Y improvisa uma espécie de terapia intensiva com muita água e abre as janelas e me dá de comer e de beber.
23.06.09 @ 15:39

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