9.11.07
Sobre o Brasil, a dor e a impunidade
Felipe tinha 22 anos quando entrou na casa de Renata, em uma rua tranqüila de Bangu, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. A casa, humilde, de um só andar, ficava na avenida mais larga do Conjunto da Marinha, um condomínio aberto e de casas construídas pelas Forças Armadas há umas cinco décadas - o improviso e o crescimento da família dos militares, todos praças e subalternos, fez com que a cara das casinhas fosse mudando. Uns construíam terraços, outros um puxadinho. Mas ninguém brigava.
A cada rua, uma família. Felipe começou a namorar Renata quando a menina tinha 15 anos. Ao entrar na casa dela, naquele domingo, dia 23 de setembro, Renata já tinha completado 16 anos. Era mais uma tarde de domingo, e na televisão, Faustão apresentava a parte de seu programa antes do futebol, que começaria às 16h. Os pais de Felipe estavam na estrada, voltando de Jaconé, distrito de Saquarema.
Os namorados resolveram ir à Bienal do Livro, afinal, era o último dia e uma professora de Renata tinha recomendado a ela uma reedição mais prolongada de "O Pequeno Príncipe". O casal andou por duas horas na Bienal. Felipe, feliz com seu trabalho de motorista do comandante dos Pára-Quedistas do Exército Brasileiro. Ela, cheia de expectativas. Apesar de fazer curso técnico de Publicidade, Renata começava a simpatizar com a idéia de seguir a carreira do namorado. Se conheciam desde a infância.
Quando se sorriram na Bienal, resolveram que iriam esticar mais a programação para ir à Praia da Reserva, depois do Recreio dos Bandeirantes. Isto para quem sai da Barra. Para quem tem Bangu como referencial, é antes.
Eram 18h30 de domingo, dia 23 de setembro, quando os dois caminharam pela areia fina da praia da Reserva, o cheiro de maresia, os pássaros de fim de tarde, o quadro envolvendo os dois apaixonados parecia perfeito. Às 19h25, no entanto, quando resolveram sair da praia, Felipe se tornou saudade - como escreveu, um dia, Nelson Cavaquinho. Na verdade, Felipe nem soube que assim se tornaria.
Um BMW dirigido pelo policial civil Rodrigo atingiu o soldado pára-quedista em cheio. Mesmo com o corpo malhado, e a pele curtida em horas de treinamento dentro da água gelada e da selva, sua vida se partiu tal e qual um graveto. Tênue, como se escorresse. O BMW o atingiu quando entrava em seu carro e Renata aguardava do lado do carona. O carro importado dirigido pelo policial destruiu parte do canteiro central e ao se chocar, matou Felipe instantaneamente, empurrando-o contra o volante, e ainda causou lesões de extrema gravidade em Renata. Diversas lesões na coluna vertebral, com ossos entrando na medula. Renata continua internada, até os dias de hoje, no Hospital Naval Marcílio Dias, no Lins.
Ao despertar, dois dias depois, Renata soube descrever tudo: quando deixou o celular no porta-luvas, quando deixou o livro no banco de trás e quando colocou a mão na maçaneta da porta do carona. Daí, sua memória escurece.
Ela ainda não sabe que Felipe se foi.
Hoje conversei com os pais de Felipe e a mãe de Renata. Falamos sobre impunidade e de como, no Brasil, alguém dentro de um BMW pode andar à velocidade que quiser, matar quem quiser, que dificilmente será punido. Porque estamos no Brasil.
O pai de Felipe me conta que nenhum deputado o procurou, jamais. Nenhum advogado, ninguém de comissões de direitos humanos - apenas o comandante da unidade do Exército onde Felipe trabalhava o deu apoio na hora da dor. Apenas o Exército Brasileiro. Felipe foi enterrado com o apoio de soldados pára-quedistas e seu comandante insiste também na luta contra a impunidade.
Mas, infelizmente, era um BMW. E eles são "apenas" o Exército Brasileiro e duas famílias de Bangu.
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Comentários:
Seus comentários
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Tanto voce como eu temos potencial para tornar qualquer caso do nosso interesse a tornar-se solucionado, se assim nós quizermos e lutarmos para isso, concordo que a justiça é do lado de quem tem muito dinheiro, mas nós pequenos também temos muito a declarar.... pau nessa cambada de safados, corruptos do governo brasileiro, queremos que resolvam o caso deste rapaz.
O Brasil pode tornar se o melhor pais do mundo se o povo passar a usar mais a inteligência e agir de alguma forma, há muita acomodação.
'' POVO MOSTRE OS DENTES''
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concordo com tudo o que dizes
Fui como jornalista ao encontro da família de Fellipe e da de Renata. Me envolvi. Impossível não se comover, não desejar que eles pelo menos tenham a sensação da Justiça.
A reportagem sairá em O DIA no dia 11 de novembro. Mas devo escrever mais sobre o assunto, citando um outro caso.
É impossível olhar a impunidade de perto sem sentir dor.
um abraço,
Gustavo de Almeida
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Vivemos sim num país de impunidade, você pode matar qualquer um, agredir qualquer um, desde que não seja um criminoso, (assaltante, traficante, estuprador, seuqestrador...etc)pois a sociedade gosta de elementos assim, por isso os defendem tanto.
Os imbecis que integram orgãos de dereitos humanos facilmente condenariam, acusariam, fariam de tudo para punir qualquer um que fizesse algo errado contra um criminoso, mas jamais vi alguem desses orgãos defender um pai de familia.
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A policia sempre reclama de péssimos vencimentos, fazem greve pedindo aumentos de salários, e um policial civil tem dinheiro suficiente para comprar um BMW. Mesmo velho, com mais de 10 anos, custa mais que um "popular" zerado fabricado no Brasil.
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O problema em questão, para que se busque uma solução verdadeiramente eficaz deve ser analisado de forma diferente. O Código Penal brasileiro visa, quase que exclusivamente a proteção do patrimônio do legislador.
Se você folhear algumas páginas da parte especial do código verá que as penas para os crimes contra o patrimônio são bem mais protetivas do que contra o de um crime contra a vida.
Por que será?
A resposta é que quem aprovou o Código precisava de proteção para os seus bens de qualquer ameaça advinda das classes inferiores.
Thomas Hobbes afirma em seu livro, "Leviatã", que o ser humano é vil por natureza.
"Os fins justificam os meios". Quem nunca ouviu essa famosa frase de Maquiavel?
Apesar das atrocidades que vemos todos os dias nos grandes jornais, cometidas por criminosos, que confirmam tais afirmativas, devemos também parar e analisar: de onde vem tais pessoas? Como eles aprenderam a se organizar?
A resposta vem do seguinte: A grande maioria vem das classes mais inferiores da população e se nós os chamamos de organizados é por que um dia, grupos armados e contrapostos ao governo ditatorial foram organizados pelos próprios políticos brasileiros.
Apesar, então, de o ser humano ter essa característica de maldade no seu sangue e de querer fazer de tudo para manter-se vivo, acaba justificando o que ocorre, visto que são essas pessoas que sentem na pele a miséria do nosso país, sem qualquer chance de algum dia melhorar de vida.
Parece até que estamos vivendo na Grécia antiga, onde a sociedade era dividida em estamentos e que, os membros jamais poderiam subir de classe!!
O que é mais fácil? Você sair todos os dias às ruas em busca de um emprego, e levar um não de qualquer empresa ou balcão de serviços, por que você veio de uma favela, e se supõe que você é um criminoso, ou você procurar um meio mais “fácil”, que ainda assim não é suficiente?
E para onde vai o dinheiro arrecadado pelo tráfico, pois se olharmos por um instante, para uma favela vamos ver que, não existe ali nenhuma melhora, ou nenhuma “mansão” de algum traficante.
Posto tudo isso, a minha critica é a seguinte: estamos julgando as pessoas erradas, pois os verdadeiros criminosos do nosso país estão no poder, porque se há criminalidade, é porque há pessoas que não tem uma vida digna garantida e procuram meios “mais fáceis” para viver, já que o dinheiro que pagamos aos cofres públicos, não é utilizados para melhorar o país e sim para encher os bolsos.
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