7.11.07
O Carioquismo legítimo - uma resposta

Confesso que fiquei preocupado. Nos dois últimos – e, pelo jeito, polêmicos – posts aqui do Eclipse, houve alguns comentários ofensivos direcionados não aos blogueiros exatamente (estes, sinceramente, não me preocupam), e sim aos moradores da cidade do Rio de Janeiro. “Escória”, “cariocas idolatram Eurico Miranda”, “carioca típico que não gosta de nordestino” foram algumas das referências que li. Quero crer que seja uma minoria e o Rio de Janeiro continue sendo, se não mais a capital administrativa, a capital da simpatia no país. Sem pretensões, por favor. E lembro que, quando preferi escrever “morador da cidade do Rio de Janeiro” antes de escrever “carioca”, é porque assim prefiro definir “carioca”. Não apenas o nascido no Rio de Janeiro. Muito longe disto.



São cariocas que nos dão muito orgulho o cearense Fagner, o baiano João Ubaldo Ribeiro, o mineiro (que já partiu) Fernando Sabino, o alagoano Zagallo, o paulista Chico Buarque, o espiritosantense Roberto Carlos (o cantor, não o lateral marrento), o maranhense Ferreira Gullar, o pernambucano (que já partiu) Nelson Rodrigues, a paraense Leila Pinheiro (ícone da Bossa Nova), os potiguares Virna (vôlei) e Oscar (basquete), as gaúchas Elis Regina (que já partiu) e Adriana Calcanhoto, o catarinense Maurício Neves de Jesus (quem é Flamengo conhece), a paraibana Elba Ramalho, a paranaense Sônia Braga, o goiano Léo Jaime, o brasiliense (que já partiu) Renato Russo. E, tenho certeza absoluta, piauienses, mato-grossenses, tocantinenses, amazonenses, que não tiveram um famoso citado aqui, anonimamente fazem desta cidade muito melhor do que ela poderia ser se fosse algo cercado por muros e reservado aos cariocas ditos “da gema”, nascidos por aqui.
Não sei que imagem os cariocas andam passando para o resto do país. E tenho curiosidade. Em primeiro lugar, sempre me vem à mente a acusação de indolência, a mesma que nós cariocas fazemos de vez em quando aos baianos. Injustamente, já que é lenda esse negócio de que baiano é preguiçoso, uma lenda charmosa. Baiano é paciente – eu sei porque meu pai era de lá, trabalhava horrores, muitas horas por dia, e não esquentava a cabeça em vão (a não ser em derrotas rubro-negras, no que, admito, serei solidário a ele sempre). Essa paciência que o turista enfrenta na Bahia quando pede uma comida ou uma limonada suíça é confundida com preguiça.
Já nós, cariocas, para muitos paulistas, somos os "baianos". Para o paulistanista radical, aquele que acha São Paulo o celeiro e a linha de montagem do resto do Brasil, o carioca é um peso a ser carregado, um povo que vai à praia o ano inteiro. Ora, sinceramente: nós VAMOS à praia o ano inteiro sim, mas isso não afeta nossa força de trabalho. Já ouviram falar em turno da noite? Entrar no trabalho (como eu entro) às 13h30? Tenho certeza de que qualquer povo do mundo que pudesse atravessar a calçada e ir à praia antes de pegar no batente assim o faria. “Só um ‘bronze’ de 15 minutos”, diria o goiano empedernido.
O Carioquismo legítimo tem um quê de desencontro. É genuinamente carioca o “vamos marcar um chope”, sem que este chope jamais seja consumido. Meses depois, quando os dois cariocas que raramente se encontram tornam a se ver, a frase é dita novamente. Ou então reformada: “Vamos marcar aquele chope”. Ambos já admitiram aí que aquela primeira proposta de um chope deu com os burros n’água.
Mas o que importa é propor que o chope seja marcado.
Daqui a centenas de anos, “vamos marcar um chope” será, em nossa língua, uma saudação tipo “até breve, meu amigo, e boa sorte enquanto isso”. Talvez o chope deixe de existir (não no Rio), pressionado por organizações como a Al-Anon, talvez a palavra “chope” já esteja esquecida, com um mundo invadido pelas malditas cervejinhas em lata, e a expressão se imortalize pelo que ela realmente significa: “Ei, você é um cara legal e eu não me importaria de te encontrar novamente”.
Ser carioca é, no fim de semana, esquecer o horário de almoço. Na verdade, isso não existe em um fim de semana genuinamente carioca. O carioca verdadeiro acorda meio-dia no sábado, e isso é tão patente que as linhas telefônicas no Rio ficam totalmente livres pela manhã: é raro um carioca telefonar para a casa do outro antes do meio-dia de um sábado.
É bem verdade que o carioca anda mal-educado e intolerante, mas uns com os outros: no trânsito, no restaurante, na festa, estamos sempre maltratando um semelhante. No Rio, há quem maltrate garçom, há quem beba como amador e arrume briga em festa, há quem brigue e até troque tiro no trânsito. Sem contar os hábitos: jogar lixo pela janela do carro, sujar o ônibus, colar anúncio em orelhão e, recentemente inaugurado, espancar prostitutas, como têm feito os jovens da Barra.
Mas sabem de uma? O carioca legítimo repudia tudo isso. Duvido que o baiano João Ubaldo Ribeiro (um dos mais legítimos cariocas) já não tenha reprovado tais práticas em crônicas.
O Rio que nos dá saudades, sim, admitimos
O Carioquismo legítimo repudia a má-educação e a falta de cortesia. Quem faz essas coisas mancha a cada dia nossa imagem. É mais ou menos como o policial corrupto em relação ao policial honesto: o primeiro mancha a instituição e atrapalha o segundo. É a mesma coisa: o carioca que se corrompe prejudica o trabalho interminável do carioca honesto, que é tomar conta de todo o Brasil com sua capacidade de comunicação e suas argumentações argutas sobre o tamanho dos biquínis no litoral brasileiro ou o preço da água de coco em comparação com o queijo de coalho assado. O bom carioca tem sempre uma sucursal por aí – no bom sentido, no de amizade, não no sentido de ter uma amante. Mas é normal que alguém numa conversa fale “Rapaz, vou ter de ir a Congonhal, interior de Minas, essa semana”, e o carioca responda, “A mãe da minha faxineira mora lá, manda um abraço, passa lá para uma cachacinha”. E pode passar “mermo”. Porque seria má-educação ou falta de cortesia recomendar sem poder assim como não aceitar a recomendação.
O Carioquismo legítimo é lotar tudo mas gostar mais de lugar vazio. É de vez em quando escolher uma parte da cidade para ser a moda do momento: Baixo Leblon, Baixo Gávea, Lapa, Baixo Domingos Ferreira. Aí passa a moda, mas os cariocas continuam indo, continua lotando do mesmo jeito, sempre sob a mesma argumentação. “Já está caído, mas ali tem um caldinho de feijão...” ou coisa do gênero. Onde, portanto, iam cinco mil por noite, passa a ir seis mil – mas é segredo, diz o carioca. Que, na verdade, sempre acha um lugarzinho com uma mesinha mais tranqüila, onde pode degustar um chope com steinhagen na paz.
O Carioquismo legítimo é gostar de andar. Sim, a gente só não tem barrigas gigantescas (apesar de serem proeminentes) porque basicamente andamos. Andamos na Lagoa Rodrigo de Freitas, andamos no Leblon, andamos em Copacabana, andamos pelo Centro. Um de nossos escritores até escreveu um conto chamado “A arte de andar pelas ruas do Rio de Janeiro”. E tome andar. De carro, só o carioca da Barra, que é uma mistura do modo de vida em Miami com Jardins, em São Paulo. Mas que não deixa de ser carioca, apesar de, na Barra, terem inventado o botequim fora da esquina. E com comanda eletrônica.
O Carioquismo legítimo, acreditem, preza pela simpatia, com todos os defeitos que o povo daqui vem adquirindo. Há, sim, como já disse, uma crescente intolerância, uma nascente irritabilidade (o trânsito e a violência nos irritam muito), uma mania de furar fila que realmente andam manchando nossa reputação.

Mas, me perdoem os pessimistas, nosso sotaque continua encantando as mulheres de outros Estados, nossa música continua ganhando o mundo, e nossos times continuam sendo os primeiros a garantir vagas na Taça Libertadores. Ah, e o Flamengo continua Pentacampeão, obrigado (como mostra a foto acima, do Júnior em 1992 - ano do penta - com a taça das bolinhas). O resto é espuma. Ou colarinho, se assim preferir.
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Zé Carioca
Sempre lindo andar na cidade de São Paulo!
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Otimo, não poderia descrever melhor o que é ser carioca.
Parabéns.
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Valeu!!
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E, Fernando, até que eu não fui tão mal no "Flamengo é penta", tem uma foto do Junior para provar...
abraços
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In this case, not at all relate with a Holy bible, nor the fresh not the Old Testament. Although I am Catholic, but in this case, I hung it on the side.
I mean that in the ethics and morality, there are elements of the human absolute. Independent from a different roidzaju "Operating Instructions conscience"
leads me to this perplexity of people after all non-believers. But najwyrzazniej possessing a conscience.
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O povo carioca é conhecido como uns dos mais mal educados do país e isso é verdade. Vocês se justificam, dizendo que não são mal educados, são sinceros. Mas sinceridade não tem nada a ver com ser grosso.
Eu sou paulista e vivo no Rio de Janeiro a alguns anos. Já morei e várias partes do RJ e sim, o carioca é mal educado e muito. Responde com grosseria, não dá lugar, quer se dar bem em cima de todo mundo, etc.
Mto bonito esse texto seu, pena q n reflete a realidade.
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