31.10.07
Dos arquivos da alma: quando eu acendi para a Marcele

Eu reconheço: abuso do direito de fugir do tema do Eclipse, que é basicamente a convivência entre duas pessoas - eu e a Marcele. Escrevo sobre política norte-americana, sobre cemitérios de bichos de estimação, sobre engarrafamentos, e saio do tema principal.
Ao mesmo tempo, reconheço que esta lojinha chamada Eclipse só arruma "fregueses" mesmo quando tem aquelas palavrinhas mágicas que eu NÃO vou escrever: o nome daquele filme legal sobre uns caras de preto que dão tiros, chefiados por aquele cara que só chama os outros de números, dirigido pelo mesno diretor que filmou um documentário sobre aquele ônibus no Rio de Janeiro.
Fora isso, o Eclipse parece loja pequena de CD em shopping que tem Lojas Americanas, Saraiva, Siciliano e FNAC. Pouca gente entra mesmo, mas, fazer o quê? Poderia fazer textos escrevendo sobre pessoas famosas (de preferência mulheres gostosas), poderia escrever sobre aquele programa, sabem, em que as pessoas ficam dentro de uma casa com câmeras (não vou escrever o nome de jeito nenhum).
Mas hoje vou postar apenas um texto velho. Porque basicamente ele localiza na blogosfera o exato momento da supernova, da explosão, do surgimento do embrião mesmo, onde tudo começou. E isso, em blog, é o mais doido de tudo, o mais alucinante, que é o tal diário que a gente tem da vida nos dar a chance de ver fotografias velhas de nossa alma, saber o que sentíamos e pensávamos, o que nos mudou com o passar dos anos.
Analisei um ano inteiro (de 2001 a 2002) de arquivos do Blogger, do extinto http://gustones.blogspot.com (que teve vários nomes e acabou como Blogus), e descobri o exato ponto em que tudo começou. Não a comunicação entre mim e a Marcele, que já havia se desenvolvido durante a Copa do Mundo de 2002. Mas descobri o ponto em que eu comecei a ficar interessado e lancei publicamente uma pequena cantadinha, uma chamada para compartilhar segredinhos. Gostei e acho que pelo menos ela vai gostar também. Lá se vão cinco anos. A parte em negrito é o que realmente importa:
04 Julho, 2002
Livros ainda que à tardinha
Recomendação da semana, para quem quer ter vertigens existenciais das mais brabas: o livro Antes do fim, memórias do escritor argentino Ernesto Sábato. Lançamento recente (1999) deste genial autor de "O Túnel", este livro tem a capacidade de confrontar os anos, de demonstrar com uma sinceridade atroz a perplexidade humana diante do passar do tempo. Sábato fala rapidamente, em determinado trecho, da importância da "vida noturna" (não, não a do Edílson e a do Vampeta, mas aquela que temos dormindo mesmo) do ser humano, do quanto podemos contabilizar como parte de nossa biografia aquilo que vivemos enquanto estamos dormindo. Para justificar sua tese, o ex-físico que virou escritor se sai com uma frase belíssima:
-De um sonho pode-se dizer tudo, menos que é mentira
Uma verdade simples e aterradora. Tenho confrontado essas verdades de Sábato todos os dias no metrô, agora que terminei de ler "O longo adeus", espetacular livro policial do igualmente espetacular Raymond Chandler. Mas, voltando ao assunto, quem não conhece Sábato, comece com "O Túnel", relançado recentemente pela Companhia das Letras.
O meu eu não empresto porque está reservado para uma moça que parece entender mais de tudo isso muito mais do que eu. E ela sabe que estou falando dela.
posted by Gustavo de Almeida @ Quinta-feira, Julho 04, 2002 0 comments
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