29.10.07
Gates of heaven ou O Dia em que Werner Herzog comeu seu sapato

À beira dos 40 anos, só agora, vim saber quem é Errol Morris e o que este cidadão fez em 1980 com a produção de documentários. Se há outros não-iniciados como eu lendo este texto, posso definir que Morris é o criador do Movimento Dogma dos documentários. Em 1980, ele lançou Gates of heaven (“Portões do céu”, nunca lançado no Brasil), um longa de 90 minutos sobre....cemitérios de animais de estimação. Morris foi um mestre desde o início – em primeiro lugar, soube escolher o tema de seu olhar: a relação bicho de estimação-dono sempre despertou curiosidade desde Lassie. E há uma forma estranha de amor, de afetividade, que muitas vezes o ficcionista não pode e nem deve captar: esta deve ficar para a vida real.
Remember Aracy de Almeida: “Gosto mais dos meus cachorros do que de gente”.
Morris filmou dois cemitérios na Califórnia (um deles o Bubbling Well Pet Cemiterial Park), entrevistando seus clientes e os donos e funcionários. Sempre câmera parada, sem conduzir a entrevista, nada de perguntas e respostas. The real thing.
Por causa de Gates of heaven e seu inusitado tema, o cineasta alemão Werner Herzog, incrédulo, sem levar a menor fé na capacidade dos americanos irem além da mitologia das imagens e da valorização do supérfluo, prometeu comer o próprio sapato se o filme fosse lançado. Herzog fez um libelo do antiamericanismo ao fazer tal promessa, e acabou pagando língua. No vídeo em que Herzog paga a aposta e COME MESMO um sapato, que posto abaixo, ele ainda faz críticas, perguntando, “como ele conseguiu dinheiro para esse filme?”. Divertidíssimo. Herzog mostrou que subestimou mesmo os americanos, inclusive a crítica.
Consta que Roger Ebert, o famoso crítico de cinema que ganhou um Pulitzer, colocou Gates of heaven em sua lista de “Os 10 melhores filmes de todos os tempos”, e só a partir dessa loucura de Ebert que a maior parte dos americanos passou a dar atenção a Gates of Heaven. Morris, segundo Ebert, caminha o tempo todo em cima de uma delicada linha que passa entre a comédia do absurdo e o drama catártico, e, na minha opinião, talvez seja nesta linha que esteja a completa identificação entre filme e espectador. Todo mundo tem um pouco de medo da vida, já cantou um dia o Frejat. E este medo da vida é a complementação entre comédia e drama que vivemos dia após dia. Muitas das nossas discussões com a pessoa amada ou dias ruins de chuva se tornam, após anos, motivos de riso. Tem a famosa frase “Um dia vamos rir de tudo isso”. Gates of heaven, que eu infelizmente nunca vi mas procurarei no Youtube, talvez seja exatamente isso: a maldição da procura pelo maldito amor, e não o amor maldito. É o medo de ir adiante e tornar seu amor por um bicho “fofo” uma coisa ridícula, é o medo desse amor não ser amor.
É o medo de ter esse amor só por não se ter outro. E por aí vai.

É curioso como, sem ter visto a obra de Morris, apenas lendo a resenha de Ebert no altamente recomendável “A magia do cinema” (livro que a Ediouro lançou junto com “Grandes filmes”, uma dupla fundamental de livros excelentes), eu me sinto, ao falar de Gates of heaven, diante de uma obra-prima (leia aqui a versão em inglês da dita resenha de Ebert). Talvez o cinema, com gente como Morris e Wim Wenders, volta e meia descubra que a simplicidade também pode ser aterradora, e inesquecível – Wenders mostrou isso em Buena Vista Social Clube, na entrevista de Compay Segundo e na história de Rubem González:
Sim, a simplicidade, na medida certa, pode ser descomunal, tal e qual o “yes”, última palavra pronunciada em Bagdad Café. Ou a porta se fechando em Sideways. A simplicidade está para o cinema como o bom passe está para o futebol: pode tornar o gol ainda mais bonito.
Aliás, toda essa resenha deixa bem claro porque eu desisti do aquário que tinha aqui em casa. Eu e Marcele acabávamos ficando amigos dos peixes. Deu trabalho demais fazer 38 enterros em alto-mar (arremessos de peixe morto na Baía de Guanabara).
*****
Tudo isso é para pedir o seguinte: que os cinéfilos brasileiros que vierem aqui, conseguirem chegar ao fim do texto e gostarem da idéia, comecem uma campanha online (tou dentro) para que Gates of heaven seja lançado no Brasile em DVD. Vamos nessa?
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