Gustavo de Almeida e Marcele Fernandes são cariocas, casados e rubro-negros. Ele tem 40 anos e trabalha de noite. Ela tem 27 anos e trabalha de dia. Os dois se encontram nas poucas folgas que restam, nos posts do blog e, quase sempre, nos sonhos também.
Siga-nos no Twitter Gustavo de Almeida
Marcele Fernandes









25.10.07

Nature's Revenge em Rio: o videogame do caos

A leitora Tarisa Faccion cantou a pedra: chuva no Rio faz a gente entrar em um videogame. Em primeiro lugar, qual seria o nome deste videogame? Tunnels Out? CesarMaia’s Adventures? The Legend of Anarchy? Shoot the Major? Difícil escolher. Se ontem eu pensava que o videogame da chuva no Rio teria de ser algo na linha Sonic, hoje, ao saber que a Prefeitura do Rio já sabia que a coisa iria desandar mas ficou quieta, só avisando à Ponte Rio-Niterói, penso que o videogame passaria a ser concebido como “Jogo de Tiro em Primeira Pessoa”. Com o Cesar Maia de zumbi correndo por corredores escuros com casaquinhos LaCoste (aquele com o jacaré) e pedindo sorvete nos açougues (para quem não é do Rio: há uns 10 anos, num dia muito quente, César fazia corpo-a-corpo na rua, já como prefeito, até que entrou em um açougue e perguntou se tinha sorvete – o episódio é considerado historicamente como o Primeiro Factóide).

Nesta quarta-feira de caos eu joguei à vontade Nature’s Revenge in Rio (acho que é o nome adequado).
O meu objetivo final era alcançar o prédio na Rua do Riachuelo, o prédio dourado (no sentido de que é o local onde trabalho e de onde tiro o dinheiro para viver). Para isto, contava com algumas armas: um guarda-chuva, tênis antiderrapante, um RioCard (vale transporte) e a carteira com algum dinheiro. A primeira arma, o guarda-chuva, só é conquistada depois de uma tarefa: encontrar o guarda-chuva aqui em casa, nesta casa de Eclipse em que marido e mulher fazem bagunça em horários diferentes. Dei sorte que Marcele, meu anjo da guarda, já tinha colocado o guarda-chuva em cima da mesa para mim. Foi só receber dela a ligação telefônica de aviso, já que havia tanto traste em cima da mesa que o guarda-chuva passaria despercebido.
Assim, ganhei uma arma.
Saí de casa e entrei na primeira fase. Você tem que descer de tênis antiderrapante, mas mesmo ele não funciona muito bem na Escada da Portaria do Prédio Onde Moram Marcele e Gustavo. Essa parte da fase 1 apresenta dificuldades para vários personagens paralelos do videogame, como as mães dos protagonistas. A Mãe do Gustavo é personagem ainda mais fundamental, pois traz todos os dias o jornal e de vez em quando uns abacates, fruta que procuro consumir todos os dias para melhorar o colesterol HDL (ou seja, e evitar o game over precoce).
Desci então a Escada da Portaria do Prédio Onde Moram Marcele e Gustavo, escorregando muito, quase me estabacando (um dos melhores verbos que conheço).
Fui até o Ponto de Ônibus, onde minha tarefa seria aguardar a passagem do Ônibus que Me Levaria a Outro Ponto de Ônibus Para Eu Pegar Outro Ônibus. É claro que passou um tempo no qual eu leria Guerra e Paz, do Tolstoi, incluindo um possível prefácio do Otto Lara Resende. Mas finalmente, pontos! Veio o Ônibus que Me Levaria a Outro Ponto de Ônibus Para Eu Pegar Outro Ônibus e eu embarquei, apertando a tecla Control X para desaparecer do Ponto de Ônibus.
A viagem seguiu normal por uns minutos, até que o Ônibus que Me Levaria a Outro Ponto de Ônibus Para Eu Pegar Outro Ônibus mudou o trajeto para escapar de um engarrafamento na Praia de Botafogo. Em vez do trajeto normal, pegou o Aterro do Flamengo. Já vi as horas escorrendo. Perdi pontos.

Não era possível saltar do ônibus no Aterro, pois é via expressa. De repente, o Ônibus que Me Levaria a Outro Ponto de Ônibus Para Eu Pegar Outro Ônibus pára. E fica. 10 minutos. 15 minutos. Eu temi pelo meu dia. Decidido, o motorista do Ônibus que Me Levaria a Outro Ponto de Ônibus Para Eu Pegar Outro Ônibus faz uma bandalha que faria o Nigel Mansell levantar e aplaudir de pé gritando Wonderful. E volta para seu trajeto oficial, a Praia do Flamengo. Incrível. Bom, senti que tinha ganho pontos. Seguimos pela Praia do Flamengo, eu computando os pontos, prestes a ganhar bônus. Até que... tilt! Outro engarrafamento, só que na Praia do Flamengo, faz o busão estacionar de vez. Olhei em volta: havia carros em que as pessoas viam TV. Desligados. Um motorista botou a cara para fora da janela e perguntou ao outro, “Ei, tem aí o DVD de Berlim Alexanderplatz? Queria dar uma olhadinha rápida”. Havia motoristas com caixinhas de War convocando outros cinco. “War de seis demora mas é bom”, diziam.
Desisti. Saltei do Ônibus que Me Levaria a Outro Ponto de Ônibus Para Eu Pegar Outro Ônibus e fui andando, usando o guarda-chuva e o tênis antiderrapante como arma, e com o casaco de lã como bônus – casaco dado pela Marcele. Saltei sobre cinco poças, meti o pé em uma. Menos pontos por causa da meia molhada com a qual eu teria de passar o dia todo.
Andei pela Rua Barão do Flamengo, peguei o Largo do Machado e desci pela Rua das Laranjeiras. Fui ganhando pontos por causa da aproximação com a Rua do Riachuelo, embora ainda tivesse de atravessar o Túnel Santa Bárbara.
No meio do caminho, me desviei de 24 guarda-chuvas abertos, 42 camelõs (obrigado, César), cinco alagamentos e quatro chuveiros naturais de marquise. I am the Pinball Wizard. I’m Batman, como diz o Kramer.
Na Rua das Laranjeiras não havia engarrafamento. Aproveitei que eu tinha ganho pontos e peguei um táxi. “Toca para a Rua do Riachuelo, mas como está tudo parado, pode pegar o túnel João Ricardo e me deixar na esquina”, disse eu ao motorista. Adivinha o que havia no túnel João Ricardo? 10000 pontos de bônus para quem disse “Um engarrafamento”. Tudo parado. Tudo parado.
O motorista de táxi deu a volta, pegou um tobogã em Santa Teresa e eu fiquei em frente ao Batalhão de Choque, na Frei Caneca. Ali, mais poças e chuveiros, carros estacionando, caminhões e até uma camelô que me xingou por causa da água espirrada pelo guarda-chuva. No pain, no gain. Alcancei o objetivo, com uma hora e 40 minutos de atraso.
Acho que todo cidadão deveria processar a prefeitura pelo dia perdido de trabalho. Todo cidadão. Porque foi de uma irresponsabilidade atroz a prefeitura manter escondida a informação. Enfim, como eu já disse, é uma pena que Nature’s Revenge in Rio não seja um jogo de Tiro em Primeira Pessoa. Algo como “Counter Strike na Lama”.
Agora, com licença que eu vou apertar a tecla power: hoje tem mais Nature’s Revenge in Rio. Até a volta.

por Gustavo de Almeida as 13:19:15

Posts similares:
A doadora de sombrinhas
Ônibus no Rio: expresso para o inferno
Malla na lua


Comentários:


Seus comentários

Nome: José Evaristo Souto
Url:
O jogo poderia ter uma segunda versão chamada "Processe a Prefeitura"
25.10.07 @ 14:56
Nome: Gustavo de Almeida
Url: http://www.interney.net/blogs/eclipse
José Evaristo Souto: essa segunda versão é mais do que válida, né? Eu também acho que deveria existir.
Gus, morri de ri lendo o texto!
Beijos,
Marcele
25.10.07 @ 23:20
Nome: Gustavo de Almeida
Url: http://www.interney.net/blogs/eclipse
José Evaristo,
tiraste as palavras do meu teclado: eu estava pensando em escrever sobre isso.
abs
Gustavo
26.10.07 @ 00:11

Seus comentários::


Tags XHTML permitidas: <p, ul, ol, li, dl, dt, dd, address, blockquote, ins, del, span, bdo, br, em, strong, dfn, code, samp, kdb, var, cite, abbr, acronym, q, sub, sup, tt, i, b, big, small>
(Quebras de linha se tornam <br />)
(Set cookies for name, email and url)