16.10.07
O tempo maleável e o horário de verão

O horário de verão, a bem da verdade, para quem trabalha em horário de doido como eu, só tem um momento bom: quando acaba. Creio ser consenso que, para quem é jornalista e trabalha até 22h, de nada serve uma medida governamental cuja maior atração é permitir que as pessoas andem de bicicleta ao sol às sete da noite. Para mim, ficou assim: eu acordo uma hora mais cedo, já que o despertador da Marcele precisa acordá-la uma hora mais cedo. Marcele, como bem justifica o nome e a apresentação do blog, trabalha num horário diferente do meu e isso faz com que meu sono seja submetido ao crivo do chefe dela. Quando o chefe decide que “tem uma reunião oito e meia da manhã”, eu já coloco a mão na testa e digo aquele “puta que pariu” sincero, à maneira de quem está no banco de trás de um Fusca durante uma freada a 90 km por hora.
Aí eu acordo e provo a teoria da relatividade das manhãs: vou para o computador atualizar o Eclipse e o Santa Bárbara e Rebouças, e quando olho o relógio do computador, já são 11h. Me dá um certo desespero, que se transforma em correria desenfreada quando lembro que não ajustei o relógio ainda e na verdade são quase 12 horas. Ou meio-dia, para quem prefere e para quem acha que aquilo é mesmo metade do dia – no meu caso, é 10%.
A minha teoria sobre as manhãs é que o tempo passa absurdamente mais rápido desde o momento em que você acorda até a hora exata em que você tem de estar pisando no ônibus (ou no seu meio de transporte preferido e/ou utilizado). Bota “mais rápido” nisso. Numa razão inversamente proporcional – talvez 1/100 – à lentidão do tempo quando você está esperando o ônibus para voltar para casa ou na sala de espera pequena de um dentista, diante de uma senhora rotariana de 65 anos que tem gota. Ah, e sem revistas, a não ser Seleções do Reader´s Digest e um exemplar do Anuário do Conselho Regional de Odontologia.
Quando preciso acordar cedo, é sempre este suplício. Mal tenho tempo de colocar na cafeteira – o tempo todo, toca aquele trecho de A day in the life, “woke up, fell out of bed, dragged a comb across my head...”. Digamos que eu levante da cama às 7h para chegar em algum lugar às 20h30, garanto que a água do chuveiro só fica quente às 7h10, eu abro a porta do box às 7h15 e recebo o primeiro jato d’água às 7h20. Sério. Não, não faço nada devagar. É o tempo mesmo.
Aí, tomo uma ducha rápida e nem passo shampoo (e cá para nós, homem que é homem não escreve em blog que “usou shampoo”) no cabelo (?). Saio do box e são 7h45. Coloco stevia no café às 7h55, mexo com uma colherinha às 8h e fica doce às 8h15. Aí pego um táxi e chego 10 minutos atrasado em um compromisso que fica a seis quarteirões da minha casa.
Em compensação, no tempo que dura da hora em que você chega do almoço no trabalho até a hora de sair seria possível ler dois livros do Luis Mir – e se você sabe como são os livros do Luis Mir, deve entender o que eu quis dizer.
Assim é o tempo. E vem o governo e torna este tempo mais difícil de administrar ainda – juro que se não fosse por uma boa causa – o racionamento de energia – eu começava uma campanha contra, pedindo que todo fim de semana a gente atrasasse o relógio uma hora, e na sexta-feira. Uma hora grátis no seu fim de semana? Se o governo cobrasse um real de cada cidadão que quisesse comprar esta hora, garanto que pagaríamos a dívida externa e ainda sobraria pro Flamengo comprar o Ronaldinho Gaúcho.
Claro, para o banco do Obina.
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