12.10.07
Tropa de Elite: ar-condicionado e hot-dog para ver os pobres se matando
Confesso que ando meio de saco cheio de falar do Tropa de Elite. Não de falar do filme em si, porque é um filmaço, responsável inclusive por metade das frases atuais de mensagem do Microsoft Messenger (MSN) no Brasil. É um tal de “Essa pica agora é do Aspira”, “Zero Meia, me dá a 12 aí” e “Bota na conta do Papa”, que se torna impossível não pensar no filme pelo menos quatro vezes por dia. Mas, enfim, no domingo passado, depois do desagradabilíssimo Fla-Flu, fui ver com minha senhora o Tropa no cinema – do filme na telona, já falei neste post. Mas não falei da experiência antropológica interessante que é ir a um Cinemark da vida, com ar-condicionado e pipoca cara, assistir a favelados tomando porrada de policiais pessimamente pagos e que arriscam suas vidas todos os dias. Com a diferença que dificilmente vemos policiais mal-pagos recebendo apoio de ONGs em suas vidas pessoais.
É a platéia dos bem-resolvidos vendo de longe, com cadeirinha e ar-condicionado, a batalha dos excluídos – o único ponto em que policial e favelado se encontram hoje em dia é no fato de serem pobres (me refiro aos policiais honestos).
E vamos lá: uma fila gigantesca, muito perfume se misturando no ar, uma juventude dourada indo lá admirar os homens de preto. O grito “Caveira” passou a ser um grito quase tão sagrado quanto “Mengo” (nada é tão sagrado quanto o grito “Mengo”). Formam-se na verdade três filas, eu, minha senhora e dois amigos estamos na segunda delas. Conseguimos excelentes lugares. Pipoca de oito reais à mão, água mineral com gás (não bebo mais refrigerantes sob nenhuma hipótese, só se for no Saara e como única alternativa), bolotinhas de Chicabon de R$ 4,50, e lá vamos nós para o Coliseu. Entram os créditos iniciais, parece que vão soltar os leões.
Começa a seqüência de patrocinadores. Petrobrás, BNDES, Claro Celular, Banco do Brasil, etc, etc, etc. No quarto patrocinador, ouve-se um “pô”. No quinto, uma risada. No sexto, algumas risadas. No sétimo patrocinador a aparecer, o cinema todo diz “caraça” ou “quêisso”. No oitavo, risada por tudo quando é canto. Assim é o cinema brasileiro – precisa disso, não tem jeito. Um filme de 10 milhões de dólares precisa de apoio para bancar a produção, e esse apoio não quer mais aparecer lá no fim, quando todo mundo está levantando (menos eu, que aprendi a esperar para ver se alguém faz alguma babaquice depois dos créditos finais).
Ouço um grito de U-hu quando o aspira Neto atira e entra a voz do capitão Nascimento dizendo que o policial no Rio se corrompe, ou se omite, ou vai para a guerra. Um grupo de cinco menininhas de classe média alta dá risadinhas. Uma delas deixou o celular, com uma campainha musical (não sei que música era, algo tipo High School Musical), ligado. “Oi, mãe. Ah, deve acabar umas 11 e meia”. “Shhhh”, fazem todos. O funk pesadão domina a sala. Espectadores continuam entrando com seus kits de pipoca e refrigerante. Meu cachorro-quente de quatro reais está frio.
Na tela, um traficante está dentro de um saco plástico. Não ele todo, só a cabeça. Tiram a cabeça dele, e o capitão Nascimento pergunta: “Cadê o fogueteiro, cara?”. O trafica diz “não sei não senhor”, e o capitão manda:
- Então vai voltar para o saco!
Só que, terrivelmente, tem claque: vários garotões saudáveis e perfumados, de roupas de grife, dizem ao mesmo tempo, “vai voltar pro saco, ehehehehe”. Tropa de Elite virou mesmo o coliseu da platéia. Claro, os traficantes não são lá muito cristãos. Mas o público delira com a fúria de leão (o animal, não o técnico freguês do Flamengo) do Bope. Jabor estava certo: o Bope virou nossa vingança. A da classe média acovardada, oprimida pelo crime, auto-culpada por ter alguma coisa ganha honestamente no meio de um bando de miseráveis – armados até os dentes.
Em seguida, Nascimento solta o “Bota na conta do Papa”, e a platéia acompanha as ordens do policial que executa o bandido: “Vira, vagabundo, vira”. A cena me constrange. E olha que sou franco admirador do Bope, não os culpo por mortes de traficantes durante combate, mas ver execução me constrange. Mas, enfim, a platéia não se constrange mais. Ao que parece, todos ficaram de saco cheio dos crimes bárbaros perpretados no Rio nos últimos anos – repertório que inclui arrastar menino de cinco anos pelo asfalto e serrar mulher ao meio, entre outras barbaridades. O Rio é uma Roma antiga mal-disfarçada. Só falta um cavalo no Senado. Falta?
A sessão termina, e os celulares vão sendo religados. “Cara, muito bom o filme, tem que vir ver”, “Oi, mãe, tou saindo”, “Aí, vamos na Nuth” são algumas frases que eu pesco no ambiente. Acabou a sessão – amanhã é segunda-feira e ninguém vai mais pensar na guerra que desce o asfalto a cada dia. Possivelmente, daquela platéia, há quem tenha ido fumar maconha ou cheirar pó.
Este é um texto anti-Tropa de Elite, sim. Mas no sentido de que as platéias que param de ver o filme ao sair do cinema, estas não tomaram consciência da guerra. Quem realmente entender Tropa de Elite terá que tomar conta do próprio território, ajudar o poder instituído que tivermos, defender a lei, brigar pelos direitos. Alguém na platéia quer saber disso? Não?
Vida que segue. Amanhã é segunda-feira, o Baiano está morto, o capitão Nascimento vai continuar ganhando mal, se ferrando com a família e arriscando a vida, o tráfico vai continuar vendendo muito e se armando idem, a guerra vai continuar. Quem sabe não sai em DVD? Todos poderão assistir à guerra com um fondue de chocolate.
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E depois reclamam quando o pivete vem e grita: "Perdeu, perdeu, passa o relógio Tio!"
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Rodrigo, concordo em parte. Há obras que transmitem a idéia do bem e do mal. Vide Frank Capra. Mas a beleza do filme é essa mesmo.
Agradeço muito os comentários
Gustavo
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Bom vou divulgar este teu texto...
Pra quem quiser ver o filme e participar de um debate com os principais responsáveis por esta obra só ir no:
Fórum de ciências e cultura da UFRJ, no Salão Pedro Calmon do Campus da Praia vermelha (Av. Pasteur 250, 2° andar)Urca.
Depois do filme vão estar debatendo:
Jósé Padilha;
Luiz Eduardo Soares;
Rodrigo Pimentel
André Batista
Entrada Franca a partir das 18h30.
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Mas, caso vc volte aqui, por favor, coloque a data certa, vc só colocou o horário! Vale a pena divulgar.
abraço
Gustavo
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O filme "Tropa de Elite", dirigido por José Padilha e inspirado no livro "Elite da Tropa", escrito por Luis Eduardo Soares (foto), em parceria com Rodrigo Pimentel e André Batista, será exibido nesta terça, 16 de outubro, às 18h30, no Fórum de Ciência e Cultura - FCC/UFRJ. Após a exibição, haverá debate com o diretor do longa e com os autores do livro. O evento é aberto ao público e acontece no Salão Pedro Calmon do FCC. A entrada é franca.
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Gostei muito do seu blog (não conhecia), parabéns!
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obrigado pelo seu comentário alto-astral - e, como eu disse no seu blog, não se preocupe porque era um hotdog básico (sou minimalista, cachorro-quente pra mim é pão, salsicha e mostarda)
Ou: "Baixo, guitarra e bateria"
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Beijo!
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