Gustavo de Almeida e Marcele Fernandes são cariocas, casados e rubro-negros. Ele tem 40 anos e trabalha de noite. Ela tem 27 anos e trabalha de dia. Os dois se encontram nas poucas folgas que restam, nos posts do blog e, quase sempre, nos sonhos também.
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Marcele Fernandes









10.10.07

O cinema brasileiro que perdemos - Nostalgia do palavrão

Como vocês já imaginam, gosto sim da chamada Retomada do cinema brasileiro - para mim, sujeito com mais de 39 anos, Retomada significa a padronização do cinema brasileiro de acordo com o "ethos" hollywoodiano, o fim do nosso complexo de vira-latas e a criação de um pensamento ousado, mediante o qual o Oscar é questão de tempo. E estou falando do Oscar de melhor filme, nem de melhor filme estrangeiro.
Só que sou saudosista do velho cinema putanheiro brasileiro, aquele que se baseia no palavrão e na brejeirice - muitas vezes, na calhordice mesmo.
Pensando nisso, resgatei antigo texto meu sobre os tempos em que o cinema brasileiro refletia o brasileirão mesmo, e não essas coisas cabeça tipo Cidade de Deus, O ano em que meus pais saíram de férias, Tropa de Elite e Central do Brasil.


Dez cenas do Cinema Brasileiro que valem a locação do filme
Aceito mais sugestões para essa modesta lista.
1-

Lima Duarte, close olhando para a câmera em "Os sete gatinhos" (o filme aparece mais vezes nesta lista...): "Eu quero saber....quem foi que andou desenhando...CARALHINHOS VOADORES na parede do banheiro!"

2- "Rio Babilônia" - Norma Bengell e Sérgio Mamberti puxam um trenzinho de magnatas no qual aparece Jardel Filho de cuecas samba-canção. Todos, misturados a umas putas, cantam "Empurra/Empurra/Empurra a carrocinha/Empurra minha gente/Que a pipoca tá quentinha"

3- Wilson Grey (creio que é ele, não lembro direito) em "O Segredo da Múmia", está em um motel com uma mulher. De repente, a parede do quarto desaba, e surge a aterrorizante múmia. Reação do Wilson Grey: "Uma múmia? Mas que porra de motel é esse??!?!"

4- Antônio Fagundes explica para um amigo, em "Besame Mucho": "Pois é meu caro. Você tem que entender só uma coisa: coração é coração, buceta é buceta"

5- Roberto Bomfim dá um ataque de nervos em "Fulaninha". Primeiro, fica olhando fixo para a mulher dele, que frita um bife numa cozinha tosca para um amigo que passou mal de porre. Quando a mulher pergunta "que que é, heim?", Roberto responde:"Que que é é o CARALHO" e senta a mão na cara dela. Diante do aparte dos amigos, ele se vira para um e chama de "Intelectual de merda", reclamando "Eu é que sou o escroto aqui, é? Eu que faço filme de sacanagem! E você que gosta de menininha que não tem nem pentelho ainda?". E conclui para cima de outro, "vai fazer tua mulher gozar, ô gigolô de merda!"

6- Regina Casé, em "Os sete gatinhos", chega à piscina de um rico deputado representado por Maurício do Valle. O pai dela a mandou lá para se prostituir. O deputado começa a tirar a roupa dela, só que ela se irrita e sai correndo, enquanto o Mauricio do Valle mastiga a calcinha dela na boca. E ela aos berros: "ESTOU CAGANDO PARA AS TUAS IMUNIDADES! NÃO VAI ME COMEEEER! NÃO VAI ME COMEEER"

7- Em "Quem matou Lúcio Flávio?", Jece Valadão faz papel de Mariel Mariscott. Lúcio Flávio eu não lembro quem é. Mas Lúcio começa a encher o saco dentro da cadeia: "Maarieeeeeeeellll! Marieeeeeellll" um tempão. Aí Mariel levanta, berrando, "LÚCIO! VAI PRA PUTA QUE PARIU, LÚCIO".

8- A clássica: diálogo entre José Wilker e Carlos Kroeber, ambos falando sobre prevaricar, Wilker tem pruridos éticos. O filme, "Bonitinha mas ordinária". Zé Wilker se defende dizendo, "eu não vou me corromper, não sou que nem o Peixoto (personagem vivido por Milton Moraes)". A resposta de Kroeber é uma aula de sociologia: "No Brasil todo mundo é Peixoto". A cena se encerra com Wilker proferindo o clássico: "Eu sou contínuo, mas você é um filho da puta!".

9- Em "O Caso Cláudia", o repórter Carlos Eduardo Dolabela está tranqüilamente em uma cena de crime, quando entra o policial representado por Roberto Bomfim de repente. Resposta do Dolabela: "Vai dar susto na puta que o pariu!"

10- Em "Urubus e papagaios", Cláudio Corrêa e Castro é um padre que quer baixar logo o caixão de um defunto que morreu de pau duro. A cena é hilária: Cláudio Corrêa e Castro de padre, batendo forte com uma bengala enquanto grita "DESCE, CACETA DOS INFERNOS!"

UPDATE (colaboração dos comments)
Nome: Luís Edmundo Araujo
"Carlos Kroeber, em Vera, é o diretor do reformatório pra moças. Diante das sapatas do lugar, tomando esporro dele enfileiradas na parede, ele manda todas arriarem as calças e diz que quer ver o pau de todo mundo. E manda essa, com a câmera em close na cara dele."
"Pra ser macho, tem que ter culhões, entenderam?
Culhões!"

UPDATE/COLABORAÇÃO
10.10.07 @ 16:22
Nome: Maloca
Url:
"O casamento", de Arnaldo Jabor. Um senhor está no velório do filho, lamentando em voz alta ter-lhe batido na cara um dia antes de ele morrer. "Eu dei na cara do meu filho. Meu filho me matava com um soco se quisesse. Eu sou um merda! Um MERDA! Setembrino, fala pra todo mundo aí que eu sou um MERDA!". Outro senhor responde: "Eu não sou Setembrino. Meu nome é Agostino, porra". "Setembrino, Agostino, é tudo a mesma Merda!" Um terceiro homem entra em cena. "Fala baixo, tem senhoras no recinto". "Que senhoras o que! São todas umas VACAS! EU SOU UM MERDA!"
10.10.07 @ 21:20

por Gustavo de Almeida as 13:12:07

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Comentários:


Seus comentários

Nome: Paulo Cesar
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Não sei se concordo, afinal, o cinema brasileiro atual ainda tem muito palavrão engracado, veja o central do brasil, a mulher gritando FDP na janela, o tropa que tem palavrao pra caramba, o cidade de deus que tem o famoso grito dadinho eh o carauiio meu nome eh ze pequeno, porra
10.10.07 @ 15:20
Nome: Luís Edmundo
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Carlos Kroeber, em Vera, é o diretor do reformatório pra moças. Diante das sapatas do lugar, tomando esporro dele enfileiradas na parede, ele manda todas arriarem as calças e diz que quer ver o pau de todo mundo. E manda essa, com a câmera em close na cara dele.

"Pra ser macho, tem que ter culhões, entenderam?

Culhões!"
10.10.07 @ 16:22
Nome: Luiz Valério
Url: http://www.blogdoluiz.com
O cinema brasileiro desta época era "simpatiquinho, bonitinho (?), mas ordinário, não obstante os grandes astros e estrelas que protagonizavam os papéis.
Gosto mais da fase atual do nosso cinema. Estamos mais profissionais no fazer cinematográfico. Acredito.
10.10.07 @ 19:53
Nome: Maloca
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"O casamento", de Arnaldo Jabor. Um senhor está no velório do filho, lamentando em voz alta ter-lhe batido na cara um dia antes de ele morrer. "Eu dei na cara do meu filho. Meu filho me matava com um soco se quisesse. Eu sou um merda! Um MERDA! Setembrino, fala pra todo mundo aí que eu sou um MERDA!". Outro senhor responde: "Eu não sou Setembrino. Meu nome é Agostino, porra". "Setembrino, Agostino, é tudo a mesma Merda!" Um terceiro homem entra em cena. "Fala baixo, tem senhoras no recinto". "Que senhoras o que! São todas umas VACAS! EU SOU UM MERDA!"
10.10.07 @ 21:20
Nome: Gustavo de Almeida
Url: http://www.interney.net/blogs/eclipse
Excelentes sugestões.
Luiz, sem dúvida estamos mais profissionais. Mas que estes tempos até hoje - ainda muitas vezes involuntariamente - nos fazem rir, ah, isso fazem.
Paulo, os palavrões de hoje são em outro contexto, são mais realistas. Os daquele tempo eram engraçados por serem "forçação de barra" em muitas vezes!
abraços e valeu pelos comments
11.10.07 @ 09:06
Nome: Fernando Oliveira
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Acho
11.10.07 @ 15:32
Nome: Fernando Oliveira
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Acho que faltou a cena do rio babilonia em que o cara come de verade a denise dummont na piscina
11.10.07 @ 15:33
Nome: Maga
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Acontece que muita gente nao sabe...é que na época da censura e da ditadura militar, os filmes brasileiros nao podiam ter um contexto político, porque dava cadeia. Mas sexo e palavrão era liberado, era a unica forma de expressão mais ou menos tolerada pela censura. Por isso era tao escrachado, era uma forma de anarquia. Mas só para complementar....o ator que fez o Lucio Flavio era Reginaldo Farias...aliás um senhor ator. Foi o primeiro filme brasileiro que vi no cinema, eu tinha 11 anos mas fui num cinema do subúrbio do Rio que deixava os menores entrarem. Lembro que antes da sessao aparecia na tela aquele documento em tela cheia e assinado por um censor, dizendo proibido para menores de 18 anos. Falei....abraços a todos!
11.10.07 @ 15:34
Nome: Gustavo de Almeida
Url: http://www.interney.net/blogs/eclipse
OLá, Maga
tb lembro bem desse documento anres dos filmes...
Ah, em tempo; o filme ao qual fiz referência não é o "Lúcio Flávio, Passageiro da Agonia", em que realmente o Reginaldo Faria faz o papel título. O filme de que falo é "Quem matou Lúcio Flávio", uma versão B e mais trash!

abraço e obrigado pelo comentário
12.10.07 @ 11:03
Nome: Cascalho
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Com os devidos cuidados esse post ganha vida e vira um novo "virundun".
Potencial tem de sobra.
Pois cinema tupinica não vive só de palavrão. Vive de sacanagem também. Melhor ainda quando o diálogo é histórico.
Cena:
Uma linda cortesã, provoca um menino. Estamos em um bordel de luxo, no Rio capital política de 1929. Seminua, provando uma minúscula fantasia de pele de urso, está a piranha aspirante a estrela, rival da mãe do moleque, a rainha local. Sem perder tempo, a boa esfrega os dedos pequeninos do fedelho nos mamilos, que endurecem durante o take. E derrama a pérola: "Sente como eu sou macia. Hum, adoro guri quem nem você."

A atriz: Maria da Graça Meneghel, a rainha há muito dos baixinhos.
O filme: "Amor Estranho Amor", de W.H. Koury, produção nacional lançada em 1982.

Sinceramente, as homenagens no ladrilho prestadas nos anos 80 por pais hoje trintões são, ao meu ver, a única explicação para o fenômeno de comunicação da apresentadora. Eles bem poderiam barrar as bagaças que a loira faz pra molecada, proibindo de entrar em casa. Mas liberam, numa de olhar pra capinha do DVD e pensar no íntimo o "hum, sei bem quem é a senhôra"...
15.10.07 @ 00:50
Nome: Ivan Silva Gonçalves
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Acredito que o Brasil tem o Melhor cinema do mundo, não concordo usar palavrões em nossos filmes, mais palavrões em filmes em que a situação o torna obrigatório sim. Filmes como Cidade De Deus, Carandiru, Tropa de Elite, são excelentes e o palavrão só torna o filme mais verdadeiros, imaginem esses filmes sem palavrõs. Mais sou contra o palavrão em filmes que a história não necessite de palavrão, como OS NORMAIS. Sou estudante de jornalismo, pretendo fazer cinema algum dia, e idolátro o meu cinema. Já ganhamos os principais prêmios do mundo, só falta o oscar.
12.07.08 @ 19:10
Nome: Flávio Araujo
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No magnífico filme "O Ibrahim do subúrbio" (1976), dirigido por Cecil Thiré, José Lewgoy, interpretando um alfaiate não-famoso do Rio que colecionava recortes de jornal com a coluna social de Ibrahim Sued ("- Do alto desta estante, vinte anos de crônica social nos contemplam"), no auge de sua desgraça, internado em hospital público (escândalo policial na cerimônia religiosa do matrimônia da filha do alfaiate, casamento que Ibrahim, aliás, não noticiou, apesar da solicitação do pai da noiva), diz, olhando para o charuto que Ibrahim havia mandado pra ele, parabenizando-o pelo casamento não-noticiado: "- Legítimos Havana!" e o filme acaba, dessa forma absolutamente patética. O mais engraçado é que, lá pelo meio do filme, o obscuro alfaiate levanta um copo d'água filtrada e afirma, como se se tratasse de champanhe francesa: "Guandu, 1977!". É difícil não chorar no fim desse filme. Eu chorei. hahahaha!
31.07.08 @ 11:14
Nome: Flávio Araujo
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Na "dica" acima, onde está "(...) matrimônia da filha (...) o correto é, naturalmente, "(...) matrimônio da filha (...)", sendo que a expressão sobre a água da torneira / "champanhe", aliás, é:
"- Guandu, 77". (*risos*)
31.07.08 @ 11:17

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