7.10.07
O Spa: cinco dias para um casal mudar de vida - Fim da saga
5º Dia – One apple a day/Keeps the doctor away
Sábado é geralmente o dia das frutas. É tudo o que se come no Spa Maria Bonita. Sendo que no almoço ainda tem sopa de fruta – deliciosa, que derramei na salada de frutas para dar uma temperada. De que era a sopa? Ouvi dizer que havia caqui e mais alguma coisa. Algum OCNI. O dia começa com algum suco – a esta altura do campeonato, engulo os sucos com tanta avidez que já não sei de que são feitos. Fazemos uma caminhada “até a pedreira”. Fiquei sem saber se o Leandro falava de um local ou de um estado de espírito. Mas era a pedreira sim, onde havia caminhões extraindo minérios.
- Legal esse caminho, Leandro. Na ida, só descida. Na volta, só subida – reclama Carol.

Não tem jeito. Ali estamos em uma guarnição, como eu disse, comandada pelo major Leandro e pela capitão Marise. Esta ainda participa da última aula de hidroginástica da semana. Que termina com uma corrida dentro da piscina, corrida mesmo, a pé, nada de natação. A esta altura estou com o braço direito meio fora do lugar devido aos alongamentos que há séculos não eram feitos.

O café da manhã havia levado todos os spazianos às lágrimas, depois da caminhada: meio mamão cercado por meios morangos e meias maçãs. Um banquete digno de A Comilança. Sra. M. deixa cair um pedaço de maçã no chão, ao fazer um movimento mais brusco dentro do prato. Esboça lágrimas.
- Lava! Lava! Lava que tá novo! – grita Teresinha.
Fingi que não vi a Sra. M. lavando o pedaço de maçã. Na fome, vale tudo.
No almoço, mais frutas, com a sopa, e no lanche, a grande surpresa: um banana split! Carol manda trocar os sorvetes de caqui e mamão que vêm ao lado do de banana.
- Os meus sabores: banana, banana e banana.
Devoro o banana split com uma avidez comparada à do Obelix com seus javalis na Armórica. E dentro da piscina, onde conversava sobre churrascarias com Pedro, o chef e um dos grandes personagens do spa, candidato a ser parte do cast de figuraças que compõem o corpo de funcionários. Em dado momento, quando conseguimos falar sobre saladas, pergunto a Pedro:
- E aqueles molhos de saladas que vendem nos supermercados? Prestam?
Ele pára, pensativo. Faz um bico, coça a cabeça protegida por touca dentro da piscina e vaticina:
- Olha, sem dúvida, são maravilhosos. Deliciosos. Mas não valem a pena. Têm glutamato, são industrializados, atrapalham a digestão.
Pedro é bem gordo, e assumidíssimo. Fala sobre suas experiências em restaurantes japoneses.
- Gosto muito. Peço sempre com os amigos aquele barco de sushi. Mas, por exemplo, se eu for com mais três amigos, fica esquisito, pois o barco tem 60 sushis e eu como muito mais que 15 sushis quando vou a um restaurante japonês.
No spa, Pedro repetiu várias vezes os pratos de broto. Com a expressão de prazer de quem devorava uma picanha. Disposto a abraçar uma alimentação saudável, Pedro consegue convencer os spazianos exatamente por admitir que as comidas-porcarias são deliciosas.
- O importante é você mudar a alimentação – preconiza o gordo (por enquanto) chef. Na minha opinião, um âncora em potencial para um bom programa de culinária saudável. Um talento não aproveitado (ainda).

À noite, formatura. Sim, ganhamos um diploma. Com o texto “O Spa Maria Bonita confere a você, xxxx, o título de spaziano e lhe dá parabéns por ter sobrevivido à semana do spa de xx a xx sem morder ninguém nem subir pelas paredes”. Quem assina o diploma é Cândida Fernandes, espécie de recreadora/relações-públicas e terapeuta do spa. Cândida promove a cerimônia, instiga todos a se abraçarem, manda que todos escrevam num papelzinho os dois maus hábitos que cada um tinha antes de vir ao spa. E manda que cada um jogue seu papelzinho em uma fogueira. No som, ao fim da cerimônia, “É preciso saber viver”. Renata Maria e Carol se abraçam e choram. Os problemas que trouxeram cada um ao spa afloram, a afetividade domina o ambiente. Renata Maria, de Belo Horizonte, e Joana, do Rio, que não se conheciam, fizeram uma sólida amizade por terem dividido um dos quartos. As duas choram. Todos trocam emails e prometem novo encontro – pelo menos a maioria carioca. Onde seria o encontro?
- Ah, no Lamas! – diz Rita.
- Lá tem salada? – pergunta a Sra. M.
Estamos curados, definitivamente.

APÊNDICE DA SÉRIE:
O Higienismo
O sistema alimentar que mudou as minhas medidas em cinco dias nasceu no século 19 nos EUA como a natural hygiene criada pelo médico Herbert M. Shelton, morto em 1985. Shelton desenvolveu a metodologia analisando processos físicos e químicos que regem o corpo humano. Ao longo do século 20, foram se desenvolvendo princípios que hoje se resumem a cinco: 1º - Comer 70% dos alimentos crus, 2º - Não comer nunca em excesso, 3º- Evitar alimentos que geram toxinas, 4º- Combinar alimentos corretamente, 5º - Respeitar as etapas e horários da digestão.
Por estes princípios se entendem algumas das determinações do spa, como por exemplo não misturar frutas com nada que não seja fruta ou não dar água ou qualquer outro líquido junto com as refeições. O empresário e professor de Educação Física Tadeu Viscardi, sócio do spa com a atriz Tânia Alves, é adepto há anos da filosofia higienista. Tadeu vê com temor tudo o que a indústria alimentícia e a propaganda empurram para a população como sendo benefício.
- Até mesmo os governos, quando falam que vão “distribuir milhões de litros de leite”. Muito mais saudável distribuir frutas, banana, mamão....
As filas em hospitais, para Tadeu, são resultado dessa absoluta falta de informação e de acesso a alimento saudável pela massa (epa).
- Você vê um operário comendo, por exemplo, a média de pão e manteiga. Café, um pão francês desses cheios de química e margarina. É caloria vazia, sem nutriente algum. Daí a alguns anos, esse operário vai lá lotar a fila do INSS.
Para Tadeu, ex-campeão de remo, os médicos estão desabituados a trabalhar com a alimentação como forma de cura.
- Há anos não vou a um consultório médico e nem tomo remédios. Mas os médicos são treinados de forma a reagirem sempre do mesmo jeito. Vamos em breve fazer uma semana de recuperação e desintoxicação do fígado aqui no spa que não vemos em nenhum consultório de médico convencional, por exemplo.
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Do mesmo jeito que a gente "bebe socialmente', é preciso aprender a só 'comer socialmente"
Sacou?
Abraço e obrigado pela visita!
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