29.09.07
O blues insiste, graças a Big Gilson

Conheço Big Gilson há uns 15 anos. Ele não me conhece, ou melhor, até deve me reconhecer, como um dos caras que volta e meia aparecem em seus shows. A mim ele deve reconhecer até um pouco mais, porque estou sempre ao lado de um maluco entusiasmado, que toma porres homéricos e dá urros de alegria quando o “Gilsão” vai a alturas estratosféricas com sua guitarra blueseira. Há anos isto acontece. Já vimos o Big Gilson em tudo quanto é canto e jeito – com sua antiga banda, o Big Allanbik, e sozinho mesmo. No extinto Ballroom, no Espírito das Artes, no Saloon 79 (todos no Humaitá), e também no Mistura Fina, na Lagoa, e no Teatro da Galeria, aquele mesmo, no Flamengo. Por incrível que pareça (e me desculpem as referências “cariocas” demais), já teve show naquele lugar, show de blues e rock and roll, com todo mundo alucinado despencando das cadeiras com as bandas estraçalhando. Eu conheço o cara como se fosse um amigo meu. Mas, claro, falei com ele duas vezes no máximo, sem tietagem.
O vídeo acima não é meu nem foi feito no Saloon 79
Esta semana, fui a mais um show do Big Gilson, desta vez um excelente acústico, no projeto Terças do Blues, no Saloon 79.
O local parece mesmo um daqueles trailers que você vê em filme americano de Quentin Tarantino: um corredor comprido, com mesas em fila, e que termina numa área maior onde estão o palco e uma escada para os banheiros. Você sobe para ir ao banheiro e aparece quase no palco. Ao lado da fila de mesas, um balcão de american bar com bancos e algumas pessoas servindo bebidas. Um lugar bem decadente, de comida nem tão boa, mas no somatório geral., um lugar legal. Para ir sem frescuras, passar uma noite bacana sem contato com playboys ou pitboys. Há de vez em quando os motoqueiros dos Hell’s Angels (ou Balaios, nunca sei), mas ficam sempre na paz.
Big Gilson tocou violão. Outro cara tocava violão-base e um jovem no meio soltava a voz – uma voz extraordinária, parecia um negro cantando. Pena que bebi vodka e esqueci o nome dele.
O vídeo acima não é meu nem foi feito no Saloon 79
Havia seis mesas com espectadores. A minha tinha cinco espectadores, na nossa frente dois casais formados por homens mais velhos que as mulheres e atrás de nós quatro mesas: duas com um cara sozinho e outras duas com um casal em cada uma. No total, pelas minhas contas, sem contar uns três caras em pé, havia então 14 pessoas. Big Gilson deu um show para 14 pessoas. Nenhuma novidade – já tocou para menos que isso. O ritmo que ele toca é “cafona”, “ultrapassado”, “estrangeiro”, “chato”, “antigo”, “velho” e “fora de moda”. Sua música não atrai gatinhas ou gatinhos, seu show não é para “azaração” e sua música não tem nenhum axé a não ser o dos vodus do Mississipi. Big Gilson toca blues – e está muito feliz com isso.
Os dois casais na nossa frente eram formados por velhos safados e beberrões. Pareciam Bukowski e Kerouac se divertindo com duas menininhas jovens e empolgadas. Os dois berravam, dançavam, cantavam, pediam mais. E bebiam como gambás, numa explosão de felicidade sem paralelos. Me dava inveja – apesar de eu estar também muito feliz, ao lado da Marcele e bebendo uma Absolut.
Eram 14 pessoas, mas ele tocou como se fôssemos uma audiência do tamanho do Maracanã. Essa felicidade de todos - muitas vezes, poucos - transforma o local em uma espécie de templo profanado, uma igreja pecadora com bebida alcóolica e corações partidos - mas funcionando a pleno vapor. Batendo e apanhando.
O vídeo acima não é meu nem foi feito no Saloon 79
Seu violão volta e meia soava como guitarra – principalmente em clássicos como The thrill is gone. Para esta, ele ainda mandou: “Diretamente da novela das oito para o Saloon 79”. E fez uma das mais lindas, melódicas e extraordinárias interpretações do clássico eternizado por B.B.King. Depois atacou com outras músicas, como Old Love, de Eric Clapton, e uma versão blueseira e arrastada para Honky Tonk Woman, dos Stones. Durante o show, o tecladista ia montando seu equipamento. O palco tinha uns três metros de largura, mal dava para três pessoas – havia quatro.
O vídeo acima não é meu nem foi feito no Saloon 79
E o Gilsão arrebentou. Para variar. E sorrindo. O couvert de R$ 7 fez eu me sentir desonesto. Nego paga 150 reais para ver muita coisa que não chega aos pés do cara como guitarrista. Sete vezes 14, dá 98 reais. 98 reais para ser dividido por quatro músicos.
R$ 24,5 para cada um. Artistas brasileiros que tocam uma música estrangeira. Mas como ele mesmo diz, “universal”. O blues é universal – qualquer um reconhece o blues e o que o cantor está lamentando quando canta. Está desabafando.
Na volta para casa, fiquei pensando na missão de sujeitos como o Gilsão. Ele já podia ter entregue a rapadura há muito tempo, mas se mantém naquela onda. Vive daquilo. Intelectualmente é honestíssimo. Toca aquilo que acredita ser o melhor. Não importa se há muita ou pouca gente na platéia - ele toca para um só como se tocasse para mil. O que importa é a arte daquele encontro, daquele momento em que esquecemos nossas mortalidades por conta do blues e da birita.
E o que Big Gilson toca é verdadeiro. Não é uma trilha sonora para um mundo cor-de-rosa, pelo contrário, é um alerta para que todos saibam que – novamente falando dessa iguaria – a rapadura é doce mas é dura. A música de Big Gilson não é moderninha, não tem bits e bites, não é do mundo virtual (apesar do bom site dele), mas sobreviverá a todas as etapas da era cibernética. A música do Big Gilson não é do mundo da moda, da Vogue, das mulheres peladas da Playboy, do glamour, de Paris Hilton ou de Donald Trump. Gilsão toca para quem está cansado mas precisa prosseguir a qualquer custo.
Em outras palavras, Big Gilson é para quem sabe que o purgatório na verdade é aqui. Mas também para quem entende que, naquela terça-feira, 14 pessoas estavam no paraíso.
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