Gustavo de Almeida e Marcele Fernandes são cariocas, casados e rubro-negros. Ele tem 40 anos e trabalha de noite. Ela tem 27 anos e trabalha de dia. Os dois se encontram nas poucas folgas que restam, nos posts do blog e, quase sempre, nos sonhos também.
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Marcele Fernandes









28.09.07

Scorsese filmará George Harrison

Scorsese

Scorsese vai filmar documentário sobre George Harrison. Para mim, a grande notícia desta sexta-feira morna, onde o que mais pesa é o início oficial em novo emprego na segunda-feira - ou seja, o primeiro de meus próximos 365 dias sem a doce vagabundagem. Sem contar a depressão antecipada de, devido a agendas externas pré-combinadas com minha senhora, ficar automaticamente excluído da peleja entre o Flamengo e o Atlético Mineiro. Menos mal que Scorsese vai mesmo filmar George Harrison. A notícia é esfuziante – principalmente para quem viu o extraordinário No Direction Home, o documentário sobre Bob Dylan que praticamente explicou a lenda e fez todos entenderem o significado do Zimmerman para o imaginário coletivo americano. Dylan, Springsteen, Simon & Garfunkel, esses folk brothers são sangue americano.
Quisera eu que algum Scorsese fizesse um filme sobre Roberto Carlos – tarefa que, depois da censura e da ação judicial contra o livro de Paulo César Araújo, poucos vão querer encarar.

Scorsese começou em 2004 com No Direction Home, lançado no ano seguinte, e agora está prestes a lançar Shine a Light (imperdível documentário sobre os Rolling Stones, cujo nome é uma de suas músicas mais lindas, ouça e leia a letra no vídeo abaixo e veja o trailer do filme no de cima).

Excelente documentarista, creio que nos traria facetas incríveis se resolvesse fazer longa-metragens sobre os roqueiros. A decisão de se fazer um longa de ficção sobre um tema público é geralmente causada pela dificuldade de se fazer o documentário – aconteceu o mesmo com Tropa de Elite, de José Padilha. Me contou o ex-capitão e atual roteirista Rodrigo Pimentel que a meta inicial era mesmo um documentário, mas abriram mão devido à dificuldade óbvia de se obter entrevistas de policiais sem que eles fossem punidos.
Com Harrison, creio que seria mais difícil para Scorsese fazer um bom longa. Qualquer um faria um longa adequado a Harrison, menos Scorsece. Façamos um exercício de imaginação.

Cena 1: Os Beatles estão todos de terno e gravata, em torno de uma mesa num bar escuro com bebida e cigarros. Harrison está no meio, eles conversam falando quase ao mesmo tempo. Os diáloogos são fortes. Entra Eric Clapton. George se levanta, aponta o dedo na direção de Clapton:

- You! You fucked my wife!
Paul saca uma pistola nove milímetros e dá um tiro para o alto. Brian Epstein, careca e de smoking, entra às pressas e segura o braço de Paul, olhando para George e diz:

- God damn it! Vocês, motherfuckers, não conseguem ficar sem dar um tiro?
- Happiness is a warm gun, Brian! – responde Paul.

Lennon se levanta e vai até o estacionamento onde abre o porta-malas para pegar uma calibre 12. No meio do caminho, um dos asseclas de Clapton o aborda:

- Hey, John. Give peace a chance, John.
- Go away, Chapman. We can work it out.

Cena 2: George está ao piano no bar, com a cabeça cambaleante, um cigarro no canto da boca. Deitada no piano está a loura Patty Boyd, sua primeira mulher, de longo preto e mostrando as pernas. Ao lado de Patty, um copo de uísque. Sem gelo.

- Oh, George, please, please me....
- It´s been a hard day’s night, Patty….- diz George, voltando ao piano e desprezando os anseios libidinosos de Patty.
Súbito, George se levanta, todos se levantam. Lennon atira em Clapton, que voa vários metros para trás com o peito estourado pela calibre 12. Leon Russel, parceiro de Eric, saca uma pistola e acerta no peito de John, como vingança. Mark Chapman reclama:

- Poderia ter deixado essa para mim, Russel.
- Give me love, Mark. And give me a break.

Ao fundo, vê-se Paul cantando baixinho enquanto tenta carregar, sem sucesso, seu pisto-uzi: “Bang, bang, shoot, shoot…”
Ringo crava um garfo no rosto de Leon Russel. Nisso, surge Joe Pesci, ensandecido, gritando diversos “fucks” em meio a frases ininteligíveis. Pesci está com um taco de beisebol e acerta a cabeça de Ringo. George se levanta e atira uma faca em Joe Pesci, que cai ao chão com a faca cravada nas costas. Paul e George se levantam e vão em direção a De Niro, que os dá carona para fugir pelo deserto até que os três chegam a um lugar onde Michelle Pfeiffer está vestindo roupas de época ao lado da Wynona Rider e as coisas acontecem de modo lento e arrastado. Eles pedem uma ambulância por não agüentarem tanto tédio e são atendidos pelo Nicholas Cage. Os três. Dentro da ambulância, descobrem que De Niro é, na verdade, Jake La Motta, que cobre George e Paul de porrada. George e Paul, muito feridos, fogem para um barco e seguem em pânico para o meio de uma espécie de rio pantanoso.
Nisso, Ringo, que todos pensavam estar desacordado, sai de dentro do rio e ataca os dois. O barco explode. Ringo está nadando em direção ao sol. Sobem os créditos.

Acho que não ficou muito legal, né? Então vamos tirar a Michelle Pfeiffer. Agora, vocês têm de reconhecer que "o barco explode, fulano nada em direção ao sol e sobem os créditos" é uma das melhores e mais usadas soluções de roteiro de todos os tempos.

por Gustavo de Almeida as 12:04:47

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