Gustavo de Almeida e Marcele Fernandes são cariocas, casados e rubro-negros. Ele tem 40 anos e trabalha de noite. Ela tem 27 anos e trabalha de dia. Os dois se encontram nas poucas folgas que restam, nos posts do blog e, quase sempre, nos sonhos também.
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Marcele Fernandes









25.09.07

Flanando na Bienal - uma egotrip egoísta pacas

Bienal é lugar típico de intelectual ficar puto com a gentalha andando à toa sem comprar porra nenhuma. Pode falar se não é. Você, que gosta de livros, lê desde criança, se interessa por autores com três nomes (tipo Pedro Juan Gutierrez) e odeia Sidney Sheldon, vai à Bienal – seja no Rio ou em São Paulo – e quase tem urticária quando vê o povão comprando Maitena, fazendo fila para Içami Tiba e saindo na porrada por um autógrafo do Jô Soares. Bom, eu não sou intelectual (tento enganar, é verdade), mas devo ter problemas no fígado, porque confesso: fico puto com a gentalha andando para lá e para cá na Bienal.

Eu disse gentalha? Deus me livre. Exagero. Mas deve ser porque usei para começar o texto o método do capitão Paulo Storani para treinar os atores de “Tropa de Elite”: criei um ambiente em torno de mim que equivalia à situação real, ou seja, me vi andando nos corredores da Bienal, buscando espaço físico na tenda de mangás e heróis da Panini e quase respirando por um canudinho vertical no pantanoso estande da Objetiva. Vida dura, essa. Companhia das Letras? Pisei lá quase 22h, quando era possível andar sem ter o pé massacrado por dezenas de outros pés.

Paro no estande da Record. Tem uma estante com Garcia Márquez, escritor que sempre gostei mas que, de uns tempos para cá, andou me desanimando. Quase compro o “Viver para contar”, mas calculo que é chato. Uma morena pára com a amiga bem do lado e mexe nos livros. E repete:
- Olha, esse aqui dizem que é muito bom. Ih, esse também, dizem que é muito bom. Você leu esse? Dizem que é muito bom. Ah, não, mas o “Memórias de minhas putas tristes” é bom, dizem. Me deram. Um namorado meu me deu esse, “Memórias de minhas putas tristes”, nós tínhamos terminado.

Peraí, o cara termina com a garota e em seguida dá de presente “Memórias de minhas putas tristes”? E a garota acha bonitinho? O mundo está perdido mesmo.

Sou um atípico visitante de Bienal. Não fico sabendo de nada relevante acontecendo lá, pelo menos quando vou como visitante e não como jornalista. Sem credencial, o sujeito tem que ralar para ir em qualquer evento, as filas são enormes. É mais ou menos como se fossem distribuídos, dentro do Maracanã, no dia da final do Estadual entre Flamengo x Vasco, ingressos para a final da Copa de 2014 no Brasil. Faria sentido:? Faria. Mas seria um desastre absoluto em termos de filas e pisoteamentos.

Sendo assim, tudo o que faço na Bienal é andar (para cacete) e comprar livros, sempre com desconto ou reembolso (segredo meu). Jô Soares? Toni Belloto? Isabel Allende? Só vi em foto até hoje. Minto. Vi o Jô na Bienal de 2005, ano em que casei. Achei apenas gordo. Gordo mesmo – não “gordinho charmoso” como dá a entender naquele programa chato pacas das 23h30.

Volto a andar, andar, andar na Bienal. À minha frente, um pelotão de famílias com o pai de bermuda folgada e ar descompromissado, com a mãe carregando um bebê e a tia empurrando um carrinho que quase pega na minha canela. Negonas daquelas que pilotam panela de pressão em quitinete de porta aberta balançam para lá e para cá o carnão de debaixo dos braços. Crianças, mais crianças, naquela idade terrível dos sete anos, correm como se nada mais existisse – como se corressem no Saara, e não num ambiente onde um milhão de pessoas tenta se locomover.

Adolescentes gatinhas passam para lá para cá com livros de gatinhas, tipo Diário de Bridget Jones ou coisa assim. Gatinhas que saem de Ipanema - onde há pelo menos três megalivrarias onde elas não entram nunca – para comprarem livros no RioCentro, lá na esquina do inferno.

Descubro que é essa a onda da Bienal, é como ir pescar de barco: se você voltar lá dos cafundós do mar sem peixe, não vai ficar com uma sensação estranha de ter ido tão longe? Pois é, e isso não acontece mesmo com quem detesta peixe e nem sabe explicar por que entrou no barco?
A Bienal é a mesma coisa: se eu fui ao RioCentro, o lugar mais longe que existe, tenho que comprar alguma coisa, nem que seja um livro de tirinhas do Calvin. Comprei um livro de tirinhas do Calvin.
A Bienal é um barato. Enche o saco, mas eu gosto. Quem não gosta?

por Gustavo de Almeida as 01:28:04

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Comentários:


Seus comentários

hahahahaha!!
eu já me sinto assim puta quando vou à livraria cultura aqui de sp e vejo o povo se espremendo na fila do café!!
:-)
mas que é divertido ouvir os comentários sobre livros lá isso é. Quase um esporte.
Beijo,
Lu!
25.09.07 @ 11:21
Eu não gosto. Bienal é pra quem não freqüenta livrarias, como a moça que saiu de Ipanema para ir comprar livros no RioCentro, em vez de entrar na Letras e Expressões. Seu post está uma descrição perfeita da Bienal, só que, do meu ponto de vista, comete um erro: a Bienal é feita para eles, e não para nós. (Nós, quem, cara-pálida? Nós, os meio-intelectuais-meio-de-esquerda que compram livros o ano inteiro e não uma vez a cada biênio.)
25.09.07 @ 12:28
Nome: Valfrido Canavieira
Url:
Bom post. Bem-feito, quem manda ir lá para a Zona Oeste?
25.09.07 @ 16:56
Você esqueceu do comentário que você mesmo fez e que mais explica a Bienal, pelo menos pra gente: a cada edição que passa, mais a gente faz sexo com a Bienal, em vez de amor. Entramos lá, procuramos o que queremos, compramos e caímos fora. Se não fosse de dois em dois anos -- tempo o bastante para eu esquecer as agruras da viagem, do povo, dos preços -- acho que eu não voltava nunca mais.

Beijos,
Marcele
25.09.07 @ 19:53
Nome: ryck
Url:
Com exceção do comentário sobre as negonas, achei a sua descrição interessante. Na realidade o objetivo é cativar quem não entra em livraria. Alias, Conforme comentado por Monix, na Letras e Expressões ainda rolam uns shows muito legais!

Um Abraço;

Ryck
27.09.07 @ 18:19
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