Gustavo de Almeida e Marcele Fernandes são cariocas, casados e rubro-negros. Ele tem 40 anos e trabalha de noite. Ela tem 27 anos e trabalha de dia. Os dois se encontram nas poucas folgas que restam, nos posts do blog e, quase sempre, nos sonhos também.
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Marcele Fernandes









19.09.07

1998 - Trinta anos esta madrugada

O ano da graça de 1998. Assim a maior parte dos malucos com quem convivi naquele ano se refere àquela fase. Tenho certeza de que muita coisa que eu achava que tinha acontecido em 1998 aconteceu em dezembro de 1997 ou em janeiro de 1999. Sei que fiz trinta anos àquela noite, e vivi o ano mais doido de todos - entremeado de festas, shows, bebedeiras até de manhã, paixões platônicas, paixões instantâneas e até "caso". Tive um "caso" em 1998, mas sobre isso nem penso em falar na internet porque o Google acha tudo. Vai que o namorado da menina que foi meu caso lê essa porra e vem me dar um tiro?
Sei que fiz 30 anos e fiquei esperando pela tal vertigem de que falava o Paulo Francis - ele dizia que aos 30 você tem a tal "noção da mortalidade". Sei lá, eu continuei com a mesma vertigem, que hoje em dia domino com mais facilidade. A morte não pode ser pior, por exemplo, do que o metrô lotado às cinco da tarde ou o doublecheese do Bob´s ali do Rio Comprido, perto de onde eu trabalhava. E no fim das contas, na morte você não precisa fazer dieta.
1998, o ano em que fiz trinta anos, começou com a Festa do Humberto. Foi em fevereiro, mas serve de marcador para o ano. Possivelmente a melhor festa da história, um evento inesquecível, comandado pelo som rock and roll do DJ Márcio Carrilho. Num casarão grande em Laranjeiras, com piscina, mais de 300 pessoas beberam, comeram (nos dois sentidos) e dançaram horas até o limiar da insanidade.
Me lembro de que quando Carrilho colocou L.A. Woman, dos Doors, havia pessoas dançando deitadas. O Humberto, dono da festa? Vi uma vez, bem no início. Depois, nunca mais.
Saímos da Festa do Humberto com o dia clareando. Todos alucinados de cerveja e uísque (nada de drogas ilícitas, vale dizer). Fomos tomar a saideira às cinco e meia da manhã, no Bar Bukowski, então despontando para o sucesso. Me lembro de pular o balcão (os caras estavam fechando o caixa, o local estava completamente vazio) e ir direto para a torneira de uísque Jack Daniels. E me servi como se fosse Matte Leão.
Esqueci de acrescentar: estávamos todos em um Gurgel. Umas seis pessoas.
E havia o Bukowski, onde eu ia praticamente todas as noites. Eu ganhava pessimamente, mas pendurava as contas com talento exemplar. E tome Jack Daniel´s. Aos 30 anos, você merece beber Jack Daniel´s com gelo.
1998 foi um ano bom, por exemplo, para a Playboy - Scheila Carvalho posou pela primeira vez, Carla Pérez posou duas vezes, começava ali a Era do Tchan na Playboy. Ainda teve a Daniele Winits posando, em fotos sensacionais. Me lembro bem disto. Aliás, é das poucas coisas de que me lembro em 1998.
E, repetindo 1988, o Vasco da Gama torrou meu saco, vencendo a Libertadores. Como o ano foi sensacional, não poderia terminar sem que Raúl González Blanco acabasse com o sonho vascaíno do título mundial, proporcionando a nós, rubro-negros, muita diversão.
Teve Copa do Mundo, acompanhada com entusiamos da redação do JB lá na Avenida Brasil. Inesquecível o côro após a vitória nos pênaltis na semifinal contra a Holanda: "Aha, Uhu, Ô Cocu eu vou comer...". Nunca uma rima foi tão óbvia.
O fim da Copa foi como se fosse o fim de 1998, com a decepção - mas um porre simultâneo à decepção. Afinal, não era o Flamengo que tinha perdido. E um vascaíno do nosso bando ressaltava o tempo todo, diante dos dois gols de Zidane:
- Não fiquem assim. No fim do ano, o Vasco vai vingar o Brasil.
Obviamente que a porrada comeu na hora do gol do Petit (o gol mais desnecessário da história do futebol, contrariando Paulo Mendes Campos e seu lema "O Gol é necessário").
Uma vez, em 1998, saímos do Bukowski às quatro horas da manhã, quando a noite já agoniza. Decidimos ir para a Lapa. Éramos sete. Só havia o Gurgel.
Duas meninas foram no banco da frente do Gurgel. Bom, se você quiser saber o que é o banco da frente de um Gurgel, vale contar uma história. O meu amigo que era dono do Gurgel uma vez percebeu que o carro estava com um cheiro esquisito. E um dia, ao sair para o trabalho, deu de cara com um mendigo dormindo...no banco de trás. Nem o mendigo quis dormir no banco da frente.
Voltando àquela manhã, em que saímos do Bukowski dando de cara com a feira livre de rua começando, uma das meninas desfraldou a bandeira da Irlanda enquanto passávamos pelo Aterro do Flamengo.
Não entendi por que alguém andava com uma bandeira da Irlanda, mas, what ever, quem quer entender 1998?

Bukowski, Patrono do Bar

E teve o casamento da Claudinha. Nossa amiga, Cláudia Amorim, uma grande jornalista e das pessoas mais simpáticas que conheço, casou no Alto da Boa Vista em 1998, às 10h da madrugada. Dormi três horas de sono, acordei, pus um terno, fazia um sol inacreditável. Fui com o Dono do Gurgel.
E, claro, o Gurgel parou no meio do Alto da Boa Vista, causando um certo engarrafamento. Quem ficou preso no engarrafamento? A noiva. Mas ela conseguiu passar por nós e chegar pouco tempo atrasada. Nos viu de terno, tentando ajeitar o carro em vão.
Subimos de terno e sapato quilômetros de Alto da Boa Vista. Sem dormir, e de ressaca. No casamento, vimos o fim, lágrimas, etc, bebemos um chope e fomos embora. Missão: tirar o Gurgel de lá antes que escurecesse. Fomos parar na casa de um mecânico lá do Alto da Boa Vista. Tocamos, ele não estava. A mulher dele manda a gente entrar (dois caras de terno que ela nunca tinha visto antes) e esperar em uma espécie de quintal. Horas sentados sem falar nada, esperando.
O mecânico chega, olha para a gente como se fôssemos agentes federais, a mulher explica tudo, ele diz "ah! Mas agora vai ser difícil, podemos ver isso SEGUNDA-FEIRA?". Diante da nossa cara de quem está prestes a pedir o revólver emprestado para cometer suicídio, o cara topou ir lá rapidinho. Não sem antes dar um esporro na mulher lá dentro da casa, achando que a gente não ia ouvir:
- Porra, como você deixa esses babacas entrarem?
Menos mal que o cara consertou o carro em dois minutos. E cobrou 80 reais. Ao lado do carro, quando eu embarcava, uma pequena cobra coral sendo devorada por uma galinha e seus pintinhos. A galinha nos salvou a vida. Até hoje tento encontrar o significado dessa mensagem.
Sei que em 1998 fiz 30 anos. E voltei à adolescência. Até tive uma espinha. Bem diferente da espinha que me daria uma hérnia uns sete anos depois. Mas isso é outra história.

por Gustavo de Almeida as 12:12:22

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