17.09.07
Camila Magalhães Lima - Uma história

Quem me lembrou a data certa foi a coluna de um jornalista do Globo: 3 de setembro de 1998. Um dia inesquecível, apesar de eu ter me perdido na data. Curiosamente, dois dias antes, também em setembro, eu também havia deixado o Jornal do Brasil, então na Avenida Brasil 500, para trabalhar no diário popular Extra. Era então meu terceiro dia de trabalho. Tinha sido deslocado para um desabamento de obra numa rua transversal à 28 de Setembro em Vila Isabel. Eis que eu estava lá, dividindo o mesmo espaço com um repórter do Globo, quando transeuntes e ciclistas passaram dando o alarme:
- Está tendo um tiroteio pesado lá na 28!
Embarcamos nos carros e, contrariando a lógica do cidadão comum, fomos em direção às balas. A principal rua do maravilhoso bairro de Vila Isabel (degradado pela favelização e pela violência) estava um tumulto só, pessoas correndo de todos os lados, gente chorando, cena de filme de gângster. Os bandidos haviam fugido para ruas adjacentes, como a Torres Homem. Entrei sozinho pela rua do Petisco da Vila (não me vem o nome à memória) e dei de cara com um ajuntamento grande de gente, que incluía crianças de uniforme da escola. Pedi licença como se eu fosse alguma autoridade e não apenas um repórter fazendo seu trabalho. Apesar da minha pouca altura, as pessoas cederam ás minhas “ordens”. Logo vi porquê: ao abrir o primeiro clarão, vislumbrei um rosto de menina de 12 anos, deitada, os olhos semicerrados, com uma pequena perfuração no pescoço, uma pequena mancha de sangue.
A cena me deixou aterrorizado e sem ação, só pude pensar mesmo em ligar para 193 e pedir socorro aos bombeiros, socorro imediato. Um parente de Camila Magalhães Lima, a menina deitada, estava por ali, eu me recusei a falar com ele (seria minha obrigação profissional). Usei a lógica: “Se eu tivesse minha filha ou sobrinha baleada, iria querer falar com algum repórter neste momento?”. O socorro veio chegando, os bombeiros embarcaram, não sem antes eu perguntar o nome para um dos militares, e não para o parente.
Os bandidos fugiram, dias depois prenderam um deles, do restante da quadrilha eu nunca soube. O foco passou a ser Camila. E, junto com Camila, uma série de auto-questionamentos éticos. A família sofria muito, mas muito mesmo. Não falava. Mas o jornal me obrigava a dar uma matéria por dia sobre o caso.
Os plantões na porta da casa de Camila sempre incluíam um bilhetinho que eu pedia para o porteiro ou algum parente entregar à mãe dela. Nele, eu pedia desculpas, dizia que estava rezando junto, e me oferecia para qualquer coisa que pudesse ajudar. E perguntava se havia algo que a família quisesse dizer, já que eu não tinha alternativa.
Nunca houve resposta. E eu nunca fiquei com raiva disso.
Um dia, fomos à Associação Brasileira Beneficente de Reabilitação (ABBR), no Jardim Botânico, fazer uma entrevista com uma das profissionais de lá, sobre balas perdidas. E eis que surge a notícia: Camila estava chegando para fazer tratamento. Eu e um fotógrafo ficamos a postos, sob as ordens da redação. A foto de Camila na ABBR, com colete ortopédico no pescoço e em cima de uma cadeira de rodas era a nossa missão.
Muito de longe, o fotógrafo fez seu trabalho, nos tempos da câmera analógica. Devia ter ficado perfeita, a foto. Falamos novamente com um parente, e troquei ali olhares com a mãe de Camila pela primeira vez. Eu não conseguiria entrevistar alguém com aqueles olhos – naquele dia pensei que a profissão não fosse para mim (e isto depois de “cobrir” mais de cinco centenas de homicídios in loco em dois anos de A Notícia).
O parente pediu que não publicássemos a foto. Poderíamos desobedecer. Mas para isto teríamos de dizer à redação que não tínhamos conseguido. Conversei com o fotógrafo e ele concordou.
No entanto, outra pessoa na ABBR tinha feito a mesma foto, sem que soubéssemos, e esta acabou saindo em outro jornal. Levamos uma grande bronca, mas a certeza de ter feito a coisa certa, pelo menos diante de um pedido da família, me deixou sem medo nenhum de ser mandado embora. Descobri que a convicção evita as lágrimas. Não choraria se fosse mandado embora. Mas talvez chorasse se pensasse em Camila se vendo no jornal.
Os anos se passaram e Camila cresceu, começou a aparecer mais no noticiário, foi recuperando alguns movimentos. Cada vez que eu lia sobre sua evolução, ficava um pouco mais feliz – mas a cena dela deitada na calçada em Vila Isabel vinha à mente, implacável, terrível. Hoje, graças a sua vontade de vencer e ao trabalho dos médicos da ABBR, ela já recuperou movimentos dos braços e das mãos, o que é um alento enorme para quem chegou a estar tetraplégico. Camila chegou a fazer cirurgia com células-tronco, bem-sucedido. Agora, escreve o colunista do Globo, o tratamento tem de ser feito no exterior, para ela poder voltar a andar.
Eu peço a cada um dos leitores que tente ajudar, seja com um real, dois, três, 10, não importa quanto. Os contatos podem ser feitos pelo site de Camila, http://www.camila.lima.nom.br ou pelo email da mãe de Camila, annalucia2103@hotmail.com. As contas para depósito são estas:
Seguem os dados bancários, rogo que anotem e ajudem. Se eu conseguir uma pessoa para doar, já fico feliz (eu também vou doar):
Camila Magalhães Lima Mutzenbecher
Banco: Caixa Econômica Federal
Agência: 0545-013
Conta Corrente: 90000-7
Banco: Bradesco
Agência: 2796-0
Conta Poupança: 3783-4
Banco do Brasil
Agência: 2933-5
Conta Poupança: 15337-0 variação 01
Sim, eu sei que há milhares de Camilas. Sei que não podemos ajudar todas. Mas alguns de nós podem ajudar uma Camila, e outros alguns, ajudarem outra. Isto também é luta contra a violência, luta pelo Rio, luta pelo Brasil.
Você é jornalista? Tem blog? Tem email? Ajude a espalhar esta corrente do bem.
*****
Dez dias depois...

O telefone celular tocou no fim da tarde desta segunda-feira e eu fiquei emocionado. Era Anna Maria, mãe de Camila Magalhães Lima, sobre quem escrevi há alguns posts atrás no Santa Bárbara e Rebouças. Anna ligou para mim - era a primeira vez que nos falávamos - mais para agradecer o texto anterior, e comentamos todo este tempo que passou (quase 10 anos), o esforço e o dilema vividos por um repórter de 29 anos que tentava sobreviver mas ao mesmo tempo não sabia como. Recordamos toda aquela fase que acompanhei de longe, e finalmente apontamos para o futuro: Camila tem uma enorme chance de voltar a andar, depois de ter evoluído muito nos movimentos.
Uma enorme chance.
Se fosse uma pequena chance, já seria motivo de sobra para eu me engajar nessa campanha. Por blog, por email, pessoalmente (tenho conta no Itaú mas dá para fazer um DOC), enfim, do jeito que for possível.
Anna me conta que um jornalista de O DIA fez reportagem. Bola dentro. Show. Mas acho que o momento é de TODOS fazerem reportagens. TODOS colarem este post ou pelo menos somente os dados bancários abaixo em seus blogs. Enviarem por email, mas sempre esclarecendo que não é uma corrente comum, e sim um apelo real, nada de rins extirpados em banheiras de Montevidéu.
Anna, pelo telefone, me passa uma voz cheia de esperança e sorriso - apesar dos quase 10 anos de batalha pela filha. E me diz uma frase contundente, quando eu mesmo pergunto sobre a ajuda pública. "Ah, Gustavo, a gente já não conta mais com as autoridades". A frase sai sem ressentimento. "A gente conta com as pessoas".
Fico pensando no país em que não se pode mais contar com as autoridades. E continuo pensando.
Quem puder, quem quer que leia esse blog, mande R$ 20, que seja. Ou R$ 10. Ou R$ 100.
E não é dinheiro para o Renan Calheiros. Não é dinheiro para corromper, não é dinheiro para acumular, não é dinheiro para indenizar quem não precisa, não é dinheiro de processo, não é dinheiro para campanha eleitoral.
É dinheiro para uma família honesta que tenta fazer uma filha (mais) feliz.
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Necessitamos de mais amor ao próximo e de nos ajudar. já que o governo "?" não existe mais.
Raphael, é exatamente isso. Temos que superar as deficiências do Estado, acreditar nos nossos "distritos', na nossa união, na capacidade de articulação da internet. É aposta no futuro. E vamos apostar na Camila!
Url: http://www.eupodiatamatando.com
Eu vou tentar ajudar.
Obrigado por qualquer ajuda, seja financeira ou seja divulgação! - Gustavo de Almeida
Url: http://www.interney.net/blogs/eclipse
bjs
Naina: não só pode como deve!
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Não é fácil aceitar perdas em nossas vidas.Mas você não ficou se lamentando, pelo contrário foi atrás de soluções.
Parabéns de verdade!
Url: http://chiquititas
ASS: MONICA E UMA PRIMA CHAMADA DANIELE♥♥
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Peço a Deus por você todas as vezes que me lembro da sua emocionante história,e choro de felicidades toda vez que te vejo ultrapassando mais uma etapa da sua vida.Lhe deixo um grande beijo e que Deus abênçoe você e toda sua família e lhe dê muito mais esperaça para seguir em frente.Bjssssssssssss
Rio de Janeiro,01/09/2008.
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