Gustavo de Almeida e Marcele Fernandes são cariocas, casados e rubro-negros. Ele tem 40 anos e trabalha de noite. Ela tem 27 anos e trabalha de dia. Os dois se encontram nas poucas folgas que restam, nos posts do blog e, quase sempre, nos sonhos também.
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Marcele Fernandes









17.09.07

Camila Magalhães Lima - Uma história

Fotos do site de Camila

Quem me lembrou a data certa foi a coluna de um jornalista do Globo: 3 de setembro de 1998. Um dia inesquecível, apesar de eu ter me perdido na data. Curiosamente, dois dias antes, também em setembro, eu também havia deixado o Jornal do Brasil, então na Avenida Brasil 500, para trabalhar no diário popular Extra. Era então meu terceiro dia de trabalho. Tinha sido deslocado para um desabamento de obra numa rua transversal à 28 de Setembro em Vila Isabel. Eis que eu estava lá, dividindo o mesmo espaço com um repórter do Globo, quando transeuntes e ciclistas passaram dando o alarme:
- Está tendo um tiroteio pesado lá na 28!
Embarcamos nos carros e, contrariando a lógica do cidadão comum, fomos em direção às balas. A principal rua do maravilhoso bairro de Vila Isabel (degradado pela favelização e pela violência) estava um tumulto só, pessoas correndo de todos os lados, gente chorando, cena de filme de gângster. Os bandidos haviam fugido para ruas adjacentes, como a Torres Homem. Entrei sozinho pela rua do Petisco da Vila (não me vem o nome à memória) e dei de cara com um ajuntamento grande de gente, que incluía crianças de uniforme da escola. Pedi licença como se eu fosse alguma autoridade e não apenas um repórter fazendo seu trabalho. Apesar da minha pouca altura, as pessoas cederam ás minhas “ordens”. Logo vi porquê: ao abrir o primeiro clarão, vislumbrei um rosto de menina de 12 anos, deitada, os olhos semicerrados, com uma pequena perfuração no pescoço, uma pequena mancha de sangue.
A cena me deixou aterrorizado e sem ação, só pude pensar mesmo em ligar para 193 e pedir socorro aos bombeiros, socorro imediato. Um parente de Camila Magalhães Lima, a menina deitada, estava por ali, eu me recusei a falar com ele (seria minha obrigação profissional). Usei a lógica: “Se eu tivesse minha filha ou sobrinha baleada, iria querer falar com algum repórter neste momento?”. O socorro veio chegando, os bombeiros embarcaram, não sem antes eu perguntar o nome para um dos militares, e não para o parente.
Os bandidos fugiram, dias depois prenderam um deles, do restante da quadrilha eu nunca soube. O foco passou a ser Camila. E, junto com Camila, uma série de auto-questionamentos éticos. A família sofria muito, mas muito mesmo. Não falava. Mas o jornal me obrigava a dar uma matéria por dia sobre o caso.
Os plantões na porta da casa de Camila sempre incluíam um bilhetinho que eu pedia para o porteiro ou algum parente entregar à mãe dela. Nele, eu pedia desculpas, dizia que estava rezando junto, e me oferecia para qualquer coisa que pudesse ajudar. E perguntava se havia algo que a família quisesse dizer, já que eu não tinha alternativa.
Nunca houve resposta. E eu nunca fiquei com raiva disso.
Um dia, fomos à Associação Brasileira Beneficente de Reabilitação (ABBR), no Jardim Botânico, fazer uma entrevista com uma das profissionais de lá, sobre balas perdidas. E eis que surge a notícia: Camila estava chegando para fazer tratamento. Eu e um fotógrafo ficamos a postos, sob as ordens da redação. A foto de Camila na ABBR, com colete ortopédico no pescoço e em cima de uma cadeira de rodas era a nossa missão.
Muito de longe, o fotógrafo fez seu trabalho, nos tempos da câmera analógica. Devia ter ficado perfeita, a foto. Falamos novamente com um parente, e troquei ali olhares com a mãe de Camila pela primeira vez. Eu não conseguiria entrevistar alguém com aqueles olhos – naquele dia pensei que a profissão não fosse para mim (e isto depois de “cobrir” mais de cinco centenas de homicídios in loco em dois anos de A Notícia).
O parente pediu que não publicássemos a foto. Poderíamos desobedecer. Mas para isto teríamos de dizer à redação que não tínhamos conseguido. Conversei com o fotógrafo e ele concordou.
No entanto, outra pessoa na ABBR tinha feito a mesma foto, sem que soubéssemos, e esta acabou saindo em outro jornal. Levamos uma grande bronca, mas a certeza de ter feito a coisa certa, pelo menos diante de um pedido da família, me deixou sem medo nenhum de ser mandado embora. Descobri que a convicção evita as lágrimas. Não choraria se fosse mandado embora. Mas talvez chorasse se pensasse em Camila se vendo no jornal.
Os anos se passaram e Camila cresceu, começou a aparecer mais no noticiário, foi recuperando alguns movimentos. Cada vez que eu lia sobre sua evolução, ficava um pouco mais feliz – mas a cena dela deitada na calçada em Vila Isabel vinha à mente, implacável, terrível. Hoje, graças a sua vontade de vencer e ao trabalho dos médicos da ABBR, ela já recuperou movimentos dos braços e das mãos, o que é um alento enorme para quem chegou a estar tetraplégico. Camila chegou a fazer cirurgia com células-tronco, bem-sucedido. Agora, escreve o colunista do Globo, o tratamento tem de ser feito no exterior, para ela poder voltar a andar.
Eu peço a cada um dos leitores que tente ajudar, seja com um real, dois, três, 10, não importa quanto. Os contatos podem ser feitos pelo site de Camila, http://www.camila.lima.nom.br ou pelo email da mãe de Camila, annalucia2103@hotmail.com. As contas para depósito são estas:
Seguem os dados bancários, rogo que anotem e ajudem. Se eu conseguir uma pessoa para doar, já fico feliz (eu também vou doar):

Camila Magalhães Lima Mutzenbecher
Banco: Caixa Econômica Federal
Agência: 0545-013
Conta Corrente: 90000-7

Banco: Bradesco
Agência: 2796-0
Conta Poupança: 3783-4

Banco do Brasil
Agência: 2933-5
Conta Poupança: 15337-0 variação 01

Sim, eu sei que há milhares de Camilas. Sei que não podemos ajudar todas. Mas alguns de nós podem ajudar uma Camila, e outros alguns, ajudarem outra. Isto também é luta contra a violência, luta pelo Rio, luta pelo Brasil.
Você é jornalista? Tem blog? Tem email? Ajude a espalhar esta corrente do bem.

*****

Dez dias depois...

Foto do site de Camila

O telefone celular tocou no fim da tarde desta segunda-feira e eu fiquei emocionado. Era Anna Maria, mãe de Camila Magalhães Lima, sobre quem escrevi há alguns posts atrás no Santa Bárbara e Rebouças. Anna ligou para mim - era a primeira vez que nos falávamos - mais para agradecer o texto anterior, e comentamos todo este tempo que passou (quase 10 anos), o esforço e o dilema vividos por um repórter de 29 anos que tentava sobreviver mas ao mesmo tempo não sabia como. Recordamos toda aquela fase que acompanhei de longe, e finalmente apontamos para o futuro: Camila tem uma enorme chance de voltar a andar, depois de ter evoluído muito nos movimentos.
Uma enorme chance.
Se fosse uma pequena chance, já seria motivo de sobra para eu me engajar nessa campanha. Por blog, por email, pessoalmente (tenho conta no Itaú mas dá para fazer um DOC), enfim, do jeito que for possível.
Anna me conta que um jornalista de O DIA fez reportagem. Bola dentro. Show. Mas acho que o momento é de TODOS fazerem reportagens. TODOS colarem este post ou pelo menos somente os dados bancários abaixo em seus blogs. Enviarem por email, mas sempre esclarecendo que não é uma corrente comum, e sim um apelo real, nada de rins extirpados em banheiras de Montevidéu.
Anna, pelo telefone, me passa uma voz cheia de esperança e sorriso - apesar dos quase 10 anos de batalha pela filha. E me diz uma frase contundente, quando eu mesmo pergunto sobre a ajuda pública. "Ah, Gustavo, a gente já não conta mais com as autoridades". A frase sai sem ressentimento. "A gente conta com as pessoas".
Fico pensando no país em que não se pode mais contar com as autoridades. E continuo pensando.
Quem puder, quem quer que leia esse blog, mande R$ 20, que seja. Ou R$ 10. Ou R$ 100.
E não é dinheiro para o Renan Calheiros. Não é dinheiro para corromper, não é dinheiro para acumular, não é dinheiro para indenizar quem não precisa, não é dinheiro de processo, não é dinheiro para campanha eleitoral.
É dinheiro para uma família honesta que tenta fazer uma filha (mais) feliz.

por Gustavo de Almeida as 23:44:07

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Comentários:


Seus comentários

Nome: Raphael
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Simplesmente emocionante a história.

Necessitamos de mais amor ao próximo e de nos ajudar. já que o governo "?" não existe mais.

Raphael, é exatamente isso. Temos que superar as deficiências do Estado, acreditar nos nossos "distritos', na nossa união, na capacidade de articulação da internet. É aposta no futuro. E vamos apostar na Camila!
18.09.07 @ 12:01
Nome: Silveira Neto
Url: http://www.eupodiatamatando.com
Parabéns pela integridade e sensibilidade
Eu vou tentar ajudar.


Obrigado por qualquer ajuda, seja financeira ou seja divulgação! - Gustavo de Almeida
18.09.07 @ 12:23
Gustavo, posso repassar por e-mail seu texto, com o link do Blog??
bjs





Naina: não só pode como deve!:)
19.09.07 @ 05:12
Nome: Gercina Primo
Url:
Sei o que você sentiu e sente, sou jornalista aposentada e também tia de um jovem de 25 anos, que há quase dez meses também foi vítima de um assalto, aqui no Recife-PE. Ele, até agora, encontra-se na UTI de um hospital da nossa cidade, tetraplégico e dependente de respirador artificial. A única chance que tem de sair de lá é ser submetido a cirurgia de implante de um marcapasso diafragmático, que custa a bagatela de 100 mil dólares. A isso somando despesas de passagens, hospedagem e honorários de dois médicos norte-americanos que viriam de Nova Jersey, pois no Brasil não há especialista nesse tipo de procedimento. Sei o que é precisar manter a esperança, fazer bazares, rifas, vender cds, e o pior de tudo, esperar pela (in) Justiça brasileira, que permite ao Estado toda sorte de recursos para negar a pessoas como Camila e meu sobrinho o direito constitucional à saúde. Marcos José Silva de Oliveira, o meu sobrinho, órfão de pai e mãe, estudante, cidadão cumpridor de suas obrigações até dezembro de 2006, precisa submeter-se à cirurgia que lhe devolverá a esperança de conviver com seu filhinho de 6 meses e sua família, constituída de duas irmãs, uma das quais portadora de síndrome de down. Com certeza, estarei na trincheira para lutar com Camila e sua mãe. Farei minha colaboração e divulgarei a luta de ambas, pois sei o que é viver "de pires na mão", quando há tantos homens públicos neste país locupletando-se do dinheiro do cidadão comum, que não tem sequer o direito de (sobre)viver, vítimas da violência e da falta de vergonha que assola o nosso país.
21.09.07 @ 23:33
Nome: Camila Magalhães de Lima
Url:
Admiro muito pessoas como você, com garra, determinação e muita força de vontade.
Não é fácil aceitar perdas em nossas vidas.Mas você não ficou se lamentando, pelo contrário foi atrás de soluções.
Parabéns de verdade!
27.09.07 @ 16:27
Nome: monica
Url: http://chiquititas
Camila meu nome è monica gosto muito de ver vocé em cena com Felipe gosto de ver as cenas de amor dos dois eu acho lindo tem gente que ñ gosta fala que já tá botando os menores em mau caminho, só que eu ñ acho, eu e minha prima gostamos muito da luz , vc tem orkut? se tiver mim add por favor o meu link é moniquita_16@yahoo.com xauuuuuuuuuuuuuuuu bjosssssssssssssssss
ASS: MONICA E UMA PRIMA CHAMADA DANIELE♥♥
04.03.08 @ 18:25
Nome: joyce lannes maia
Url:
Oi Camila,como vai?Quem te fala aqui é uma grande admiradora da sua pessoa. Fiquei muito feliz e me emocionei de+ quando lhe vi na televisão no dia 29 de agosto de 2008,dando aqueles passos que ninguém nessa vida imaginariam que você pudesse dar depois daquele terrível acontecimento no dia 03 de setembro de 1998 no bairro de Vila Isabel,onde eu me econtrava na casa da tia do meu ex-marido que na época ainda era casado comigo.Nós tínhamos acabado de descubrir que teríamos um filhinho,estávamos muito felizes com a notícia e resolvemos a comemorar fazendo um almoço que iríamos dar naquele dia na casa da tia do meu ex-marido.Minutos antes do acontecimento,desci eu de casa para ir em uma mercearia ou em um pequeno mercado não sei o que era aquilo direito,para comprar um alface porque eu estava com uma grande vontade de comer uma salada.Então saindo do estabelecimento,alguns metros á frente escultei uns tiros e então sai correndo com muito mêdo de acontecer o pior,depois de ter tido naqueles dias uma notícia maravilhosa daquelas,entrei em um bar para me esconder,quando sai olhei para trás e vi aquela mutidão em torno de alguém,quando cheguei perto vi aquela linda garota caída no chão e em torno da cabeça dela muito sangue,fiquei apavorada e corri para casa, depois só se escutava aquele assunto na televisão,aquela emocionante história que emocionol o brasil e o mundo.Hoje eu penso que graças a Deus não aconteceu nada comigo,mas infelismente aconteceu com outra pessoa,me sinto feliz e triste ao mesmo tempo,feliz porque hoje sou casada pela terceira vez,tenho quatro filhos lindos um marido maravilhoso, e triste porque o destino te pregou uma peça difícil de se decorar o texto.Mas quem te viu a 10 anos atrás e te vê hoje tem que concordar comigo que você é uma pessoa muito iluminada por Deus e que essa luz que te ilumina,iluminará mais e mais seu caminho para que você possa caminhar em busca do seu maior objetivo que é voltar caminhar.Confie em Deus porque ele é a nossa maior fortaleza e lembre-se que sua mãe faz parte desse porto seguro que te sustenta com vida e que lhe dá toda essa força de votade de recuperar toda uma história de alegria que ficou um pouco para trás.
Peço a Deus por você todas as vezes que me lembro da sua emocionante história,e choro de felicidades toda vez que te vejo ultrapassando mais uma etapa da sua vida.Lhe deixo um grande beijo e que Deus abênçoe você e toda sua família e lhe dê muito mais esperaça para seguir em frente.Bjssssssssssss

Rio de Janeiro,01/09/2008.
01.09.08 @ 01:29
Nome: joyce lannes maia
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Camila nós te amamos!!!!!!!!
01.09.08 @ 01:34
Nome: marta
Url:
Oi Camila, como você é bonita e muito simpática. Vi você hoje no programa da Leda Nagle (que eu adoro). É lamentável que num país que tanto se rouba, onde a desonestidade campeia, infelizmente, em todas as esferas, pessoas de bem tenham que contar com a boa vontade dos cidadãos para se tratar de problemas causados pela falta de segurança que nos atinge a todos. Problema que passa pela falta de sensibilidade de nossos governantes, pela falta de honestidade das pessoas que deveriam trabalhar pelo e para o povo. Mas, o brasileiro é um povo solidário e com certeza você vai conseguir. Conte comigo, sou apenas uma gotinha no oceano mas que vai ajudar a formar o lago de esperança que espero se forme. Beijos e que Deus te abençõe.
26.09.08 @ 18:23
Nome: marianeangelica neves da rocha
Url:
Camila lima eu sei que voce tem uma amiga chamada flavia eu quero saber se voce tem algum contato ou alguma noticia dela ou se voce tem telefone ou e-mail ou site se voce estiver contato com ela mande recado pelo meu email que esta acima.porque eu sou amiga da flavia e morei perto da casa dela no amazonas e depois eu vim embora e nao tive mais contato com ela. e antes de eu ir enbora ela tinha falado que tinha uma amiga chamada Camila lima que e voce que eu acabei de adicionar no seu email. por favor se ssouber me sdiciona porque estou com saldades. tchau ate aproxima.
16.02.09 @ 20:17
Nome: jefferson cardoso
Url:
bom dia. sei que vc ñ me conhece mas pra mim vc é motivo de orgulho e admiração. eu sofri um tiro que me deixou paraplegico sua luta e um espelho pra mim e uma esperança no fim do tunio e peço a deus por vc para que vc melhore cada dia mas, e
mas pois e vendo sua melhora que eu luto pra melhora sou seu fã incodicional vc é minha heroína e se vc puder me responda ficarei feliz em ter vc no orkut,msn pra
falar com vc. que Deus esteja sempre com tigo.
10.12.09 @ 11:19
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18.11.11 @ 07:20
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