16.09.07
Não comi ninguém em 1988
Fiz 20 anos em 1988. Diferenças para 1978? A mais forte era a ausência do pai, claro, mas a sensação de não saber o que fazer da vida parecia prevalecer. Então em 1988 não havia o jornalismo, e sim uma espécie de limbo. Nesse ano eu me livrei do segundo grau, imaginem vocês. Todo retardado. Comecei em 1983 meu segundo grau, mas fiz curso técnico. Fiquei em dependência em Matemática e Física (acho que isso era um sinal de que eu iria perecer na vida e fazer jornalismo) por anos e anos. Negociações, provas sozinho na sala de aula na frente de um professor e a sensação horrenda de ter de ir a uma escola onde já não haviam mais conhecidos que não fossem os próprios professores.
Sensação tal e qual a descrita por Chico Buarque quando disse que saudade era arrumar o quarto do filho que já morreu. Bom, reconheço que exagerei. Mas vamos dizer que é como passar na Lagoa Rodrigo de Freitas, tomar uma água de coco e dizer: “Aqui já foi o Tivoli Parque”.
Em 1988 eu me livrei dessa porra toda. Comecei o ano pegando o diploma de segundo grau – já que tinha desistido de fazer o estágio obrigatório que me daria o diploma de Técnico em Edificações. O mundo ficou melhor quando eu desisti de ser técnico em Edificações – e posteriormente de ser engenheiro – e o mais triste é que ninguém percebeu o quanto o mundo ficou melhor. Penso em quantos Palaces 2 devem ter sido evitados, quantas pontes deixaram de cair, quantos viadutos deixaram de esmagar milhares de pessoas por eu ter renegado tal carreira.
Ah, sei que é um detalhe bobo, irrelevante, mas acho curioso. Tenho o ano de 1988 marcado na agenda da memória como O Ano Em Que Eu Não Comi Ninguém. Quer dizer, até 1985, quando fiz isso pela primeira vez, todo ano tinha sido assim – mas como essa história de mulher começou mesmo em 1985 (até então o que havia eram treinamentos e simulações periódicas), acho que vale o registro: do dia 1º de janeiro de 1988 até o dia 31 de dezembro de 1989 eu não comi ninguém mesmo. Fiz apenas UMA sessão de beijo na boca, mas em Barbacena, Minas Gerais – o que me credencia a dizer que passei o ano invicto jogando em casa.
Mas eu tinha 20 anos e 1,57 (três centímetros a menos do que hoje – estou falando de altura, claro), era tímido e...praticava luta livre esportiva. Note bem, não me refiro à luta olímpica, que usa aqueles collants esquisitões, e sim à luta livre esportiva, que eu rebatizei como “O Jiu-Jitsu do Paraíba”. Eu sempre fui meio paraíba mesmo. Por que o Jiu-Jitsu do Paraíba? Porque a luta era disputada com uma calça estilo moleton, só que de nylon, solta, e uma camiseta onde estava escrito Luta Livre Esportiva. Nada de quimono. A paraibada (eu incluso) sem dinheiro para comprar quimono, ia lutar a LLE, com um professor excelente chamado Jefferson Oliveira Pereira. A academia se chamava JOP, a sigla do nome dele. Um dos alunos, meu amigo na época, ficava dizendo que a sigla era Jefferson O Paraíba. E olha que ele era cearense.
A LLE me deu corpo e musculatura, além de, volta e meia, umas porradas na base de tapa na cara. De vez em quando treinávamos (muito de vez em quando, graças a Deus) Vale-Tudo, mas, claro, em vez de socos, treinávamos com tapa. Tomei muito tapa na cara, dei alguns, mas sempre levava a luta para o chão. Às vezes ganhava, às vezes era trucidado. Mas com 20 anos é mole ser trucidado. Nem sonhava em ter barriga e hérnia de disco. E tinha cabelo pacas. Incrível, devo ser feio mesmo, para ter passado 1988 sem comer ninguém, mesmo tendo barriga tanquinho e cabelo à vera.
Me lembro de eleições em 1988 – já votei nessa. Votei no Marcello Alencar para prefeito do Rio. Eu era bem de esquerda, e achava que o Marcello Alencar era de esquerda. Afinal, “era do PDT”, “era do Brizola”, “tinha sido advogado dos presos pela ditadura”. Anos depois, Marcello Alencar colocou na secretaria de Segurança o general Nilton Cerqueira, aquele que matou Lamarca – e o pior é que os crimes caíram muito. O pior, não. O melhor.
Mas até então eu não estava muito politizado – só achava que a diferença entre esquerda e direita era fácil: “A esquerda tem pessoas lutadoras, honestas, que combatem o autoritarismo, lutam pelos pobres e querem mudar o mundo. A direita é de pessoas ricas, desonestas, conservadoras, que querem que todos sejam pobres e trabalhem para elas e acham o mundo maneiríssimo”. Hoje, possivelmente alguém do governo me perguntaria, ao ouvir essa definição: “E nós? Somos de esquerda ou de direita?”.

Em 1988 fiz 20 anos, consegui o diploma de segundo grau e fiquei muito puto com o gol do Cocada. Roguei uma praga: “Dali em diante o Flamengo jamais perderá uma final para o Vasco, com exceção da Taça Guanabara, que não é título”. A praga funcionou!
Espero que a praga seja mantida mesmo depois que eu completar 40 anos. Mas sobre os 40 vou falar depois, bem depois. Agora tenho que me lembrar dos meus 30 anos – de 1998 vai ser difícil lembrar alguma coisa.
Mas pelo menos tenho quase certeza de que comi alguém. Ou algo.
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