Gustavo de Almeida e Marcele Fernandes são cariocas, casados e rubro-negros. Ele tem 40 anos e trabalha de noite. Ela tem 27 anos e trabalha de dia. Os dois se encontram nas poucas folgas que restam, nos posts do blog e, quase sempre, nos sonhos também.
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Marcele Fernandes









15.09.07

Pulando do barco

Pedi demissão. Chutei o balde. Rasguei a fantasia. Fui para a vida. Se eu quiser, passo a tarde inteira fazendo auto-psicanálise e repetindo expressões de auto-ajuda, no estilo "Virando a própria mesa", do Ricardo Semler. A vida adulta, no entanto, é assim com quase todo mundo, com exceção de quem trabalha como fotógrafo da Playboy ou da Hustler, ou então com quem acertou as seis dezenas da mega-sena. Ninguém gosta 100% do que faz para viver - esse negócio de viver custa caro e geralmente é chato cinco dias por semana. No meu caso, como sou jornalista, tem semana que é chata por sete dias. E mais cinco. Até a próxima folga. Mas, 100%, duvido. E digo mais: tem dias em que estou gostando uns 0,05%. Nos últimos seis meses, estes eram os dias felizes.
A verdade é que o ato de pedir demissão é de coragem, mas ao mesmo tempo você treme que nem vara verde. É como passar de um barco para o outro, no escuro, sem ter certeza de que o outro barco está realmente lá. Toda hora eu penso que vou virar mendigo. Sério. Imagino garotos, adolescentes, passando por mim e dando uma cotovelada no outro de leve e dizendo, baixinho:
- Cara, tá vendo ali. Dizem que aquele "mindingo" fala inglês e um dia já foi jornalista. Dizem até que publicou livro!
- Vambora antes que ele venha pedir dinheiro para cachaça.
Como meu fígado, after all these years, já não mais suporta destilados impunemente, creio que eu pediria aos moleques uns centavos para um Malbec ou mesmo um Syrah. De preferência, ambos de Mendoza.
Mas voltando ao assunto. Pedi demissão do JB, onde eu trabalhava, para que não acontecesse o que sempre aconteceu: vem alguém de fora que não sabe porra nenhuma, eu fico ralando como um condenado, segurando a peteca, no fim os chefes do jornal acham que quem tá arrebentando é a pessoa que eles trouxeram. Este processo é insuportável - quando acontece pela terceira vez. Mas é claro que este não é o principal motivo. Falta de condições, falta de gente, falta de respeito, falta de um certo pagamento, tudo isto somado, e mais chefias que acham realmente aquilo tudo o conceito máximo de recursos humanos, bom, tudo isto faz com que você desista. A gente pula do barco meio no escuro.
Claro que nem tão escuro assim, mas, e se algo dá errado? E se a revista Rolling Stone pára de me pedir frilances? E se o emprego que eu almejava de repente baba, a vaga é extinta?
Um amigo meu, chamado Edmundo, certa vez deu uma solução mágica quando o cara que dividia aluguel com ele teve que sair do apartamento para casar. O aluguel era uns mil reais e o Edmundo ganhava exatamente isso. Com o amigo saindo, o cara não teria como viver (na verdade, não sei como ele vivia com 500 reais). Resposta dele para o amigo que saía do apartamento:
- Cara, não se preocupa comigo. Tenho uma grana na poupança, dá para segurar o aluguel uns dois meses. Se depois disso não vier ninguém, é fácil, me suicido.
Bom, para felicidade da Marcele e de uns poucos leitores que ainda freqüentam este e o outro blog, devo avisar que o suicídio não está entre as alternativas que vislumbro para a minha atual crise financeira - embora meus credores de vez em quando possam cogitar algo parecido.

por Gustavo de Almeida as 17:45:56

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Cá entre nós, pedi demissão da Record em fevereiro. Freelo desde então. Não é moleza, mas sempre acho que fiz a coisa certa quando posso curtir um cineminha no meio da tarde ou passar uma manhã toda andando de patins no parque. Depois do almoço, estico a rede na sala e faço fotossíntese por uma meia hora antes de voltar ao trabalho. Às vezes, fico meio atrapalhada administrando tantos chefes, temas e prazos diferentes, mas estou me aprimorando nisso a cada dia.

Quer uma sugestão? Se puder, tire um mês inteirinho para coçar. Vá passar uns dias com a mãe. Faça aquela viagem que você sempre quis. Vá à praia e não leve nem livro pra ler. Blog quando der na telha. Almoce na rua e observe as pessoas, tão atarefadas em suas vidas, enquanto você vive em outra dimensão. Dizem que isso chama felicidade.
15.09.07 @ 22:40

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