12.09.07
When i´m 40 anos - 1978 foi um ano estranho
Eu, Gustavo de Almeida, fiz 10 anos no dia 2 de janeiro de 1978. Como vocês já devem saber, nunca fui Nicholas Name, este era só um nick name que eu registrei para poder usar a fim de que houvesse problemas contratuais com o Jornal do Brasil, empresa para a qual eu trabalhei até o dia 5 de setembro de 2007. Desde que pedi demissão – por ter me cansado da extrema falta de respeito da empresa e de alguns de seus funcionários – estou livre para assinar meu nome. Voltando àquele aniversário, sim, fiz 10 anos. A primeira coisa que você nota quando faz 10 anos é que suas mãos finalmente podem esticar na hora de você dizer a idade – o problema é que, com 10 anos, se você responder a perguntas sobre sua idade mostrando os dedos vão pensar que você é retardado.
Se você for como o Lula, pode fazer isso precocemente, claro.
1978 foi um ano estranho. Na escola, encravada em uma fortaleza apesar de ser municipal, nova diretora, com mais rigor. E uma supervisora atuando mais na disciplina. Disciplina, rigor...Este post vai atrair pessoal ligado a SM, pelo jeito. As duas, a diretora e a supervisora, puniam com o olhar. Minutos e mais minutos de olhar em silêncio. Você desviava como de um raio. Talvez por causa delas que 1978 passou a ser um ano estranho, foi o primeiro em que me vi diante da vida real. Minto. Em 1977, meu time perdeu nos pênaltis para o Vasco. Um ídolo meu de antanho perdia um pênalti, o junior Tita. Bom, mas isto não é nada perto do olhar de uma diretora de colégio quando você está sob suspeita.
Eu chegava da escola e pensava em uma menina qualquer mas ia jogar botões. Meu irmão de vez em quando jogava contra mim. O time dele, bem inacessível, guardado em uma parte do armário bem no alto – e ai de mim se ele percebesse que eu tinha explorado o armário dele. Lia suas revistas Mad secretamente, me lembro do esforço enorme para reguardar a revista já lida em meio às outras, entre os números certos, pela ordem de lançamento.
Mas voltando aos botões, afinal, nunca digressionei tanto antes em um texto do Eclipse (devo estar sentindo falta do Nicholas Name): meu irmão jogava com o campeão daquele ano, o Guarani. Sério. Tinha sido campeão brasileiro no meio do ano, o Guarani, e com a gente triste ainda com a perda do ano anterior nos pênaltis, abraçamos o Guarani.
Campeonato Brasileiro e Campeonato Estadual eram, para mim, rigorosamente a mesma merda. No Brasileiro só era diferente porque “o Flamengo pegava outros times do Brasil”. Simples, né? Hoje em dia, para a gente que é Flamengo, a diferença entre Estadual e Brasileiro é como a diferença de um quilo de morangos e um quilo de merda. Voltando aos botões.
Meu irmão narrava o jogo: bola com Renato, toca a Miranda, cruza para Careca, perde a bola. É falta! Zenon vai bater....é gooooooolaço de Zenon! Sim, isso mesmo, ele sabia a escalação. Eu fui aprendendo: Neneca, Mauro, Gomes, Édson e Miranda; Zé Carlos, Renato e Zenon; Capitão, Careca e Bozó. Nunca mais esqueci, como nunca esqueci de Zoff, Gentile, Scirea, Colovatti e Cabrini; Antognioni, Oriali e Tardelli; Conti, Paolo Rossi e Graziani. Mas esta é outra história.
O ano seguiu, eu apanhava muito daquele Guarani cujo Zenon era um botão muito achatado e laranja. Laranja-escuro.
Até que em um dia destes de agosto o Papa morreu. Eu nunca tinha ouvido falar de um Papa morrer. Quêisso. Nunca mesmo. Assumiu como Papa um sujeito que todo mundo achou que era santo. Albino Luciani. Ou João Paulo 1º. O nick name dele era homenagem aos dois nick names anteriores, João 23 e Paulo 6º. Talvez tenha sido o primeiro papa a ter dois nomes – o segundo foi seu sucessor, Karol Wojtila, que assumiria em outubro daquele mesmo ano.
Eu fiquei encantado com o papa – ou, na verdade, com o que se falava dele. Anos depois eu percebi que a gente se encanta mais com o que falam de algo do que com algo. Um disco passa a ser bom se o encantamento alheio nos contagia. Sei lá, cresci (?) meio Zelig.
Só sei que, quando Albino Luciani morreu, tive certeza de que era assassinato. Absoluta. Era uma espécie de ídolo. Comecei a descobrir – naquele ano eu fizera catecismo e primeira comunhão, veja só – indícios de que Albino Luciani era o Messias. “Viveu apenas 33 dias como Papa”, eu dizia, citando a coincidência. E orava, orava, orava....Orei tanto que talvez esteja vivo até hoje graças àquelas orações.
Eu não sabia que podiam morrer dois papas no mesmo ano. Mas morreram.
Um ano estranho, 1978. Fiz idade “cheia”, decorei o time do Guarani, vi dois papas morrerem. No fim do ano, eu desliguei o rádio durante um empate entre Flamengo e Vasco. Zero a zero e os bacalhaus seriam campeões. Eu e meu pai, que já não está por aqui neste mundo. Cinco minutos se passaram no fim daquele ano, e eu e meu pai religamos o rádio na hora do gol. Ali, vi que morreram dois papas mas Deus não estava tão sozinho. Havia o Deus da Raça. Eu chorava tanto que me esqueci de orar.
Em 1978, eu gritei “campeão” pela primeira vez. Aos 10 anos. Um ano estranho, 1978. Meu último de “primário”. No ano seguinte, “ginásio” (achei por anos que passaria a estudar dentro de um ginásio mesmo, com cavaletes e cestas de basquete). Mas campeão estadual. Para mim, a mesma coisa que Brasileiro.
Penso agora em 2008. Vou fazer 40 anos. 2008 vai ser um ano estranho. Sim, meu nome é Gustavo de Almeida. Nicholas Name já era. Mas garanto uma coisa: o Nicholas era bem mais centrado do que eu.
(When i´m 40 anos continua em outro Post)
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