Gustavo de Almeida e Marcele Fernandes são cariocas, casados e rubro-negros. Ele tem 40 anos e trabalha de noite. Ela tem 27 anos e trabalha de dia. Os dois se encontram nas poucas folgas que restam, nos posts do blog e, quase sempre, nos sonhos também.
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Marcele Fernandes









28.07.07

O estranho país do vôlei

Foto de Nicholas Name

O país do vôlei é curioso. Sei que não é o Brasil. Quer dizer, não o Brasil que eu conheço. Para começar, a Seleção Brasileira de vôlei em nada coaduna com o nosso complexo de vira-latas. Um absurdo – eles são realmente os melhores do mundo, eles realmente treinam uma barbaridade para alcançar seus objetivos (fui a um dos treinos), eles realmente estão focados e são muito organizados. Conheço pouca coisa no Brasil que é assim. Talvez só a Seleção de Vôlei. Bom, mas é dela que estamos falando. A memória me trai.

No país do vôlei, o Maracanãzinho do Pan, só tem gente branca, classe média para alta, o pobre se limita à polícia, e aos guias cí(v)(n)icos do governo federal. O Pan é branco e de classe média, malgrado alguns dos heróis do atletismo, do futebol feminino, do taekwondo e de centenas de outros esportes (e da música) serem negros. É triste reconhecer, mas o Rio vive dias de Suíça por causa do alto preço dos ingressos comprados pela Internet (forma excludente por natureza) e do alto investimento, a R$ 125 de diária por cabeça, na Força Nacional. Quero ver o primeiro Flamengo x Vasco no Maracanã – facções em bando, todos juntos, pulando e gritando coisas como “Vou dar porrada eu vou”. Mas aí entra o pobre, o excluído.

Cesar Maia excluiu os pobres do Pan porque não havia tempo de integrá-los. Claro, para integrar o pobre ele precisa ganhar melhor, ter educação, ter saúde, e isso nossos governantes não providenciam. Nenhum dos três – municipal, estadual e federal, e há décadas.
Mas voltemos ao país do vôlei, neste Brasil x Venezuela que não representou nada além de um Brasil x Venezuela. Mesmo diante das patuscadas do Chávez, o que importava mesmo era a vingança do Pan de Santo Domingo, quando perdemos para os venezuelanos. Eu, um torcedor de futebol típico, já estranhei esse negócio de bandeiras do Fluminense em profusão, algumas poucas do Botafogo e uns Mantos rubro-negros em uns poucos gatos pingados. A torcida do Fluminense é maioria nos jogos da seleção masculina de vôlei. Não dá para me acostumar a algo assim.


Acima, o chatíssimo animador de torcida

Depois, começa a torcida, que funciona à base de um animador, dotado de um moderno microfone sem fio. A torcida também é animada por um DJ tocando hits como Água Mineral (a letra é incrível, “Água mineral, água mineral, água mineral”), We Will Rock You (para lembrar o clima de ginásio da NBA) e Elas estão descontroladas (no feminino). Nada mais estranho que um animador de torcidas. Estou acostumado a torcidas que reagem ao malandro que, depois de um bom ataque, vai cobrar o escanteio causado por um chute dele mesmo. Aí ele levanta os braços, naquele gesto de “VAMO LÁ, PORRA”.

Depois, vaias de Uuuuuuhhh quando a Venezuela vai sacar. Na boa, como é que pode jogarmos contra a Venezuela tendo SÓ CLASSE MÉDIA E ALTA na torcida e ninguém puxar o coro de ‘HEY, HUGO CHÁVEZ, VAI TOMAR NO C(*)! PAMPAMPAMPAMPAMPAMPAM PAMPAM”? Como podemos encarar a Venezuela sem gritos de “Vai tomar no c(*) Bolíívar/Vai tomar no c(*) Bolíívar/Ir a alguma Copa/Você não conseguiu/Agora vai pra PQP”.

A maior parte dos xingamentos era “bobão”, “feio” e “chato”, avulsos, vindos da arquibancada. De coro, mesmo, só tinha o irritante “ace”, na hora em que o Brasil iria sacar, como percebeu o meu amigo desembargador Alex Souteiro (http://alexsout.blogspot.com). E o inacreditável “Aaaaaah/Sou brasileiro/Com muito orgulho/Com muito amor”. Que espécie de versão é essa para o clássico “Vaaaaaai/Tomar no c(*) Euriiiico/Eu sou da Raça/Eu sou o seu terrôô-ôôr”? Pediram autorização à Raça Rubro-Negra para adaptar seu cântico transformando-o em um uivo ufanista assim?

A torcida do país do vôlei

Na tribuna de imprensa, um outro país estranho: Hélio de La Pena, da Casseta, tira fotos com fãs em pé na passagem, anda de lá para cá. Me ligam do trabalho, tenho que achar uma outra pessoa, que trabalha com imagem. Fico em pé para procurar, e ando pela tribuna. A cada dois metros, uma voluntária ou guia ou assessora de imprensa vem torrar o meu saco com sua pseudoeducação, me oferecendo cadeiras olhando para minha credencial. Explico com paciência de Jô que minha intenção não é ver o jogo em pé, e sim procurar uma pessoa que trabalha comigo, pois se trata de uma emergência. Mas a mente desses seres não abre um by-pass, uma terceira via: “Procure sentado”, me disse uma pessimamente educada assessora. São raros os assessores que somam eficiência com educação neste Pan, e tive a sorte de me deparar com alguns deles – por exemplo, o rapaz da Confederação Brasileira de Vôlei, Leonardo, é um destes profissionais que entendem o que o jornalista precisa fazer. Já as maluquinhas da tribuna pensam que nós somos terroristas.

Engraçado como ninguém falou nada com o Hélio de La Pena. Afinal, o Pan é do Rio ou é da Globo?

Lá embaixo, a partida continua, o Brasil já tomou conta do jogo. A torcida não tripudia do adversário, nem puxa um “A-há/U-hu/Ô Hugo Chávez/Vou comer teu c(*)”. Absurdo. O país do vôlei é tão frufruzento que uma delicatessen viraria blockbuster. Deve ser por isso que eu não me adapto ao vôlei: não entro em lugares que se chamem delicatessen.

O Brasil massacra a Venezuela por 3 a 0, e no fim todos os jogadores fazem filas para se cumprimentarem, cena impensável, por exemplo, em uma partida de Taça Libertadores da América. O normal seria a presença de carabineros em quadra, separando uma porradaria iniciada depois que um venezuelano tivesse cuspido na cara do Giba. Mas não, os venezuelanos são corteses e ainda dão entrevista coletiva junto com o Giba e o Bernardinho. O técnico deles, Navajas, é brasileiro. Está explicado: eles são do país do vôlei também.

Fossem brasileiros, ambos os técnicos e times, e acabaria empatado. Sei lá como. Mas acabaria em porrada.

por Gustavo de Almeida as 17:28:06

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Seus comentários

Nome: Alex do triplex
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É o que se pode esperar de um ambiente dominado por torcedores do fluminense. Viados não gostam de briguinhas, de gritos de guerra, de ofensas aos adversários.
Por isso que não vou aos jogos de vôlei, não obstante tenhamos a presença sempre gostosa de ninfetas loucas.
28.07.07 @ 17:47
Nome: Marcele Fernandes
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Cá entre nós, é melhor xingar de bobão, feio e etc. do que ficar falando trocentos palavrões em público, né não? Humpft. E torcida de vôlei sempre foi assim (com animador, músicas, gritinhos histéricos da mulherada). Palavra de quem já frequentou muito jogo, mesmo sendo pobre.

Beijos,
29.07.07 @ 01:40
Nome: André Marmota
Url: http://interney.net/blogs/marmota
Sensacional! :) Mas tem mais coisas estranhas. Vivemos no pretenso país do futebol, e o melhor atleta desse Pan na modalidade preferida dos marmanjos chama-se MARTA.
29.07.07 @ 16:10
Nome: Gabi
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Cada esporte tem as suas características, torcidas, animadores (ou não), classes diferenciadas entre outros. Com certeza, a maior parte dos torcedores do vôlei são de classe média, mas pelo o que eu vi no site do pan, os ingressos variam entre 30 e 120 reais (inteira). Acredito que esses valores não excluam a classe baixa, principalmente os estudantes que pagam meia.
Realmente, eu tenho que concordar com a falta de educação e a patética participação da torcida brasileira. Por sinal, as vaias foram o principal motivo por eu não ter ido ao jogo. Além disso, esse barulho irritante é exatamente igual ao "vai tomar no c*" da torcida do futebol, já que isso só serve para minimizar e intimidar o adversário. E cá entre nós, essas frases não fazem a menor falta, seja lá qual torcida diga.
Acho que falta um pouco (ou muito) mais de discernimento a população para não expressar o descontentamento político em atletas (que não têm nada a ver com isso).
Tenho que concordar em número e grau com a falta de sincronia entre a educação e a eficiência dos voluntários. No dia da abertura, eu e minha mãe demos a volta no maracanã inteiro (isso foi um fato) por causa das opostas indicações para achar o lugar. E além disso, ainda tivemos uma grande discussão com uma família que estava sentada nos nossos lugares.
Voltando ao vôlei...apesar das "macaquices" e das semelhanças forçadas com a NBA...eu gosto muito!

Aff, acho que falei muito! rs

Um beijão pra vc NN!
29.07.07 @ 23:57
Nome: Marcele Fernandes
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Gabi, acho que você não gostou da citação final ao Eurico, ahhahaha!
p.s.: esse comentário é do NN!
30.07.07 @ 12:51
Nome: Glaucia
Url: http://galinblog.blogspot.com
Muito boa sua matéria!!! Ri muito, vc é um típico torcedor Brasileiro. Mas quero dar a minha opinião só em relação aos preços do Pan. Olha não foram tão inacessíveis assim... fui a um evento, mas quase todas as pessoas q eu conheço foram a muitos, e a grande maioria pagou R$ 10,00 pelo ingresso. Provavelmente tinha lugares mais caros, eventos mais caros, mas obviamente tinham os mais acessíveis tb. Desculpa aí, meter o bedelho no seu assunto! Bjão.
31.07.07 @ 09:31
Nome: Roberta de Felippe
Url: http://blog.robertadefelippe.com
Eu acho que sou mesmo uma brasileira não-praticante.
01.08.07 @ 08:55

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