11.07.07
Emergência
Eram vinte e oito pessoas. Vinte e oito pessoas em uma emergência e uma médica só para cuidar de todos. Ela era nova. Tinha no máximo trinta anos. Alguns pacientes reclamavam. Não de existir uma médica só, mas dela demorar demais para atendê-los. “Olha lá, ela fica jogando conversa fora enquanto eu estou morrendo de dor!”, disse um senhor rabugento com a perna machucada, enquanto a doutora conversava com uma paciente enquanto costurava sua cabeça. “Ela não está jogando conversa fora”, alguém disse. “Ela só está tentando acalmar o paciente enquanto trabalha”. O homem rabugento continuou: “Se fizesse o trabalho de boca fechada, já teria me atendido”. E foi assim, numa madrugada num hospital municipal na zona sul carioca, que eu achei que meu trabalho não é tão ruim assim.
A vergonha me pertence, não só por ter reclamado do meu trabalho nos últimos dois anos. A vergonha me pertence porque eu não consigo deixar de pensar que eu também tenho uma parcela de culpa no estado daquele hospital. Eu ainda não descobri o que posso fazer para mudar aquele cenário digno de filme de terror, mas eu preciso fazer alguma coisa. As minhas esperanças estão cada vez menores e, por isso mesmo, acho que votar não está na lista de soluções possíveis. Eu não acredito mais no meu voto, porque não acredito em ninguém que tenta se eleger.
Uma boa parcela do meu salário vai para o governo. Exatamente, 27,5% do meu salário vai para o governo (no mínimo). Não é justo. Eu sei que a vida não é justa, mas assim já é demais. Não é justo termos hospitais tão ruins, não é justo termos escolas tão ruins. Não era para ser desse jeito, simplesmente não era para ser desse jeito.
Eu precisei visitar o hospital porque uma parente próxima está internada. Eu poderia escrever aqui toda história, mas no momento não consigo. Só sei que tem esse gosto amargo na minha boca, um gosto que não sai facilmente. Um gosto de quem sabe que as coisas não deveriam ser desse jeito. Um gosto de quem tem nojo de ouvir que um paciente que precisa de uma cirurgia de urgência tem de esperar vinte dias, como isso fosse a coisa mais normal do mundo. Nojo de diretores e vice-diretores de hospitais, políticos travestidos de médicos, políticos travestidos de humanos, que deixam o parente de alguém que está internado aguardando por duas horas na porta de um gabinete para provar quem é o chefe, quem é que manda, quem é o dono da bola. O dono da bola num hospital que, literalmente, fede. Vocês já tiveram de deixar alguém por quem vocês tem amor, carinho ou o mínimo de respeito num lugar que fede, porque não tinham outra opção? Eu já. E posso garantir que não é nada agradável.
É um absurdo, um tremendo absurdo. Segundo um médico, essa semana vai ter um “mutirão de cirurgias” e, por isso, talvez a minha parente consiga ser operada mais “rápido” do que o normal. O motivo do mutirão não é o bem estar dos pacientes, mas “desafogar o hospital para o pan”, como o tal doutor explicou. A minha parente tem realmente “sorte” se sofrer a cirurgia nos próximos dias. Outro dia alguém me contou a história de um senhor que está aguardando – internado! – para uma cirurgia há cinco anos. Eu não consigo nem imaginar o que é isso.
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