Gustavo de Almeida e Marcele Fernandes são cariocas, casados e rubro-negros. Ele tem 40 anos e trabalha de noite. Ela tem 27 anos e trabalha de dia. Os dois se encontram nas poucas folgas que restam, nos posts do blog e, quase sempre, nos sonhos também.
Siga-nos no Twitter Gustavo de Almeida
Marcele Fernandes









23.06.07

Indivíduos competentes narrando futebol

Quem tem mais de 30 anos lista entre seus ídolos de infância, sem a menor sombra de dúvida, locutores esportivos. Se no Rio temos Waldir Amaral e Jorge Cúri a iluminar o panteão dos deuses da bola, em São Paulo há o falecido Fiori Gigliotti, um gênio, e o querido Osmar Santos a povoar milhões de memórias de tardes esverdeadas, com cheiro de adrenalina se confundindo com o da rampa dos estádios.
A narração de Jorge Cúri era a minha favorita quando criança, por apenas um motivo: na hora do gol, o grito de gol de Cúri durava mais de um minuto. Mas não era bem um grito, soava tal e qual um anúncio cerimonial, do tipo que se vêem em posses de presidentes ou governadores, "Com a palavra, sua excelência o xxxxx", assim impostado, forte, mas nunca distorcido. Impávido, mas nunca exagerado. Jorge Cúri anunciava que a bola tinha entrado, e que este era o fato mais importante acontecendo naquele momento - ainda que a quilômetros do estádio estivesse nascendo um futuro presidente da República ou mesmo um falso profeta.
Talvez nem mesmo o anúncio da chegada do apocalipse e das tropas estelares pudesse interromper o Gooooooooooooooooooooooooooooooool de Jorge Cúri. E quando era gol de Zico, ele sabia a importância da missão - "Zico, Camiiiiiiiisa número 10! Quando eram decorridos...." e vinha o número do tempo passado, colossal.
Quando criança eu não curtia o Waldir Amaral, hoje o vejo como um verdadeiro gigante. A facilidade para emplacar apelidos aos Monstros Sagrados do Futebol Mundial era incrível: Adílio, o Neguinho Bom de Bola (nada de politicamente correto, Adílio é negro, é cracaço de bola, era magriço e certamente se orgulhava dessa narração), Júnior, o Capacete (apelido dado antes por Cúri), Zico, o Galinho de Quintino (apelido dado por Celso Garcia - corrijam-me se estiver enganado), Júlio César, o Entortador e assim por diante. Suas expressões tornavam o jogo de futebol algo simplesmente magistral. A sobriedade forçada dos locutores de hoje não daria nem para a saída. Se hoje os locutores, principalmente os de TV, se contentam em falar "Olha o cruzamento na área, quem é que sobe?", para Waldir Amaral isso era pouco. Era preciso dizer "Calibra o centro, executa...".
O gol de Waldir Amaral era seguido de "10, é a camisa dele, indivíduo competente o Zico, tem peixe na rede do Vasco, choveu na horta do Mengão tricampeão", e logo em seguida entrava a musiquinha: "Que bonito éééé/A bandeira tremulando/a torcida se agitando/vendo a rede balançar". Futebol não era esporte para qualquer Claiton não. O cara tinha de ser no mínimo um Manguito.
Waldir Amaral
Por que abordar este assunto? Porque este vai ser um fim de semana especial: não tem jogo do Flamengo, o meu humor não vai precisar ser estragado por mais uma atuação ridícula de um time sem técnico, e muito menos vou ter que ouvir os gols CONTRA o Flamengo narrados pelo escrotossauro Luis Roberto, locutor da Globo e tricolor, criatura repugnante que quase tem enfartes narrando gols que meu time sofre. Mesmo sendo marcados por clubes sem torcida alguma no Rio, como Ipatinga e Figueirense.
A ausência da combinação Flamengo/Luis Roberto era tudo que eu e Marcele precisávamos para um domingo de paz e harmonia, com meu humor sem alterações.
Mudaram os locutores, mudaram os times. Tanta mudança no meu domingo de 20 anos para cá já chegou a me fazer gostar de segunda-feira.

por Gustavo de Almeida as 14:01:30

Posts similares:
Ainda bem que sou de anteontem
Sete anos esta noite - De como o Flamengo, bem, vocês sabem
Hoje é dia de futebol


Comentários:


Sem Comentários para esse post ainda...

Seus comentários

Seus comentários::


Tags XHTML permitidas: <p, ul, ol, li, dl, dt, dd, address, blockquote, ins, del, span, bdo, br, em, strong, dfn, code, samp, kdb, var, cite, abbr, acronym, q, sub, sup, tt, i, b, big, small>
(Quebras de linha se tornam <br />)
(Set cookies for name, email and url)