Gustavo de Almeida e Marcele Fernandes são cariocas, casados e rubro-negros. Ele tem 40 anos e trabalha de noite. Ela tem 27 anos e trabalha de dia. Os dois se encontram nas poucas folgas que restam, nos posts do blog e, quase sempre, nos sonhos também.
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Marcele Fernandes









3.06.07

War

Eu sempre quis fazer uma série de mini-contos sobre o War. Publiquei dois textos no meu antigo blog e deixei para lá:

War

O Vermelho

O seu objetivo era "Destruir o exército vermelho". Tentou trocar, mas os colegas não deixaram. Joga logo!, ouviu a voz nervosa de um deles. Apertou com força os dados. Logo o vermelho?, pensou mais uma vez, olhando para o rubro exército do namoradinho, sentado bem ao lado e sorrindo como um deus. Soltou os dados, que reverberaram como tambores de guerra sobre o tabuleiro. Compulsiva, sabia que depois de começar, não ia se conter. Venceu o jogo. Anos depois, solitária dentro de um escritório, ainda se arrependia de não ter abandonado tudo e ido para casa brincar de boneca. Foi aquela vitória que roubou sua vida. "Toda vitória tem seu preço", sua mãe lhe disse certa vez. Ela fingia muito bem estar acostumada a pagar a dívida, cada vez maior. O telefone tocou novamente e a voz metálica da secretária anunciou: "doutora, os executivos estão esperando a senhora há uma hora". A última coisa que pensou antes de entrarem os sisudos homens de terno, parecidos com cordeiros prontos para o abate, foi que tudo o que desejava era não ter nascido com talento para estratégia.


O Preto

Sempre gostou do preto. Enquanto as crianças brigavam histericamente pelo azul, vermelho e amarelo, sempre respondia em voz monótona: "preto; eu quero o preto". Ficava calada boa parte do jogo. Parecia muito séria para sua idade, mas era timidez. Uma timidez patológica. O preto não estava só em seu exército no tabuleiro: também estava em seus cabelos de graúna, seus olhos de jabuticaba, em sua roupa de viúva. "Uma viúva de catorze anos, onde já se viu?" ouviu certa vez um menino falar. O preto era o seu escudo; era atrás dele que se escondia inteira: corpo, opiniões, sentimentos. No jogo, seu negro exército nunca vencia. Sempre fugia para Vladivostok -- de onde era facilmente eliminado. Ela não ficava triste. Nem feliz. A escuridão de seus olhos não demonstrava sentimento algum. Recolhia as peças derrotadas uma a uma e ia para casa, onde se trancava no quarto e apagava a luz. O breu lhe agradava. Já adulta, os pais mortos, sem amigos, mantinha o mesmo hábito: depois do trabalho, se trancava em casa. Uma casa sem luz e de paredes negras, onde era a senhora de uma noite eterna, onde o preto reinava em todo lugar.

É uma tentativa de ressuscitar a série de mini-contos. Os outros textos já estão na gaveta, apesar de inacabados; qualquer dia coloco por aqui (afinal de contas, se não mostrar essas coisas no blog, vou mostrar aonde, né não?).

por Marcele Fernandes as 02:20:35
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Categorias: Contos



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Seus comentários

Nome: daniel duende
Url: http://cadernodocluracao.blogspot.com
Bacanas os mini-contos. Tenho uma "coisa" com mini-contos e "fragmentos" (nada mais que um mini-conto meio sem começo nem fim). Sempre que fica dolorosa demais a minha escrevinhação e reescrevinhação de fábulas, fujo para o terreno comfortável e descompromissado das mini-coisas.

Não é só porque é fácil. Os mini-contos são mais bondosos com seus escritores, não penalizam a alma nem o traseiro e são extremamente fáceis de ser lidos. Nestes tempos em que tudo tem que ser tão fácil e ligeiro, é fórmula fácil.

Fácil e deliciosa, como um miojo bem preparado. :)

Abraços do Verde.

Ei, Daniel. Eu também sou fã dos mini-contos. Por esses motivos que você citou e mais alguns outros. Só não concordo com a parte do miojo. Eu odeio miojo... ecout! :)
03.06.07 @ 03:06
Pode ser que eu não tenha entendido o segundo, mas gostei muito mais do primeiro!
Parabéns pelos contos =]
Francisco

Olá, Francisco! Eu também gosto mais do primeiro. Obrigada.
03.06.07 @ 13:10
Hmm o primeiro é mais como uma comida instantânea deliciosa que deixa com gosto de quero mais. Eu tenho algumas muitas idéias que poderiam fazer desse conto até uma historinha maior, semelhante a um prato de entrada em um restaurante.
O segundo é assim como um sandwich preparado muito rapidamente que, apesar de ser gostoso, fica com uma sensação de algo faltando como se quem o tivesse preparado tivesse se esquecido na pressa de um tempero que arremataria o gosto. Gostoso de comer mas não exatamente convidativo a repetir se for preparado da mesma forma nas próximas vezes...
Grande abraço!
Marlon

Olá, Marlon! Obrigada pela análise gastrônomica-literária. :) Eu também gosto mais do primeiro, que foi o primeiro a ser escrito mesmo. Vamos ver se os outros sairão mais pra sanduíche ou pra comida instantânea. Abraços!
04.06.07 @ 10:12
Nome: Ruy de Paula
Url:
Adorei!
Muitíssimos interessantes!
=)

Eu estava procurando alguma crítica sobre a nova versão do jogo War (Império Romano), e acabei encontrando seus contos. Foi um ótimo resultado!
10.11.07 @ 09:44

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