7.05.07
Cinema Brasileiro: a memória do que se queria esquecer
Outro dia vi um empolgante post do nosso amigo Alexandre Inagaki sobre o velho e bom cinema brasileiro do palavrão, da dublagem ruim e da galhofa. Aqueles com 15 a 20 anos de idade, acostumados ao Cinema Brasileiro de Cidade de Deus, Central do Brasil, Quase dois irmãos e outras obras, quem sabe, de relevo internacional, não imaginam o que é uma boa pornochanchada (que tinha muito pouco de porno, apenas uns peitinhos ou pelos pubianos) com situações esdrúxulas e vozes completamente distantes do ambiente. Sim, era um lixo o nosso cinema, muito pior do que o é hoje qualquer cinema iraniano ou cazaquistanês. Também, pudera: hoje se vive Globalização, qualquer aborígine tem acesso ao melhor do equipamento digital. Naqueles tempos, nossos técnicos tinham que ir ainda editar e copiar o material nos Estúdios Líder, em Botafogo. Hoje, o cara faz o filme em casa, de cueca, com qualquer software editorzinho bunda mole por aí. E sai melhor do que aqueles dos anos 70.
No entanto, creio que a maior importância deste cinema rastaqüera de hoje é o registro de uma época, principalmente uma cultura que não teve lá muito registro: os anos pré-Rock in Rio, pré-redemocratização. A arte, então, era só protesto. Quando se pensa no registro de um tempo, remete-se a Chico Buarque ou Julinho da Adelaide ou as peças de teatro do fim dos anos 60. Todo mundo almoçou no bandejão do Caco, todo mundo viu peça no Tuca, e a repressão pegou pesado, para valer.
Mas, que catzo, quem registrou o "lado nenhum" da história, ou seja, aqueles caras que não eram repressores e nem reprimidos? Quem salvou em imagens o Brasil mais alienado dos 500 anos de história? Quem registrou o comportamento do carioca anos 70/80 na Ipanema pré-Lata e pré-Apito? O cinema brasileiro da Chanchada, que tem como maior paradigma a obra Rio Babilônia, de Neville de Almeida.
Mas mesmo em uma obra menor, como Nos Tempos da Vaselina, de José Miziara (que eu saiba, ator de um filme com a Simone Carvalho, Embalos Alucinantes), é possível perceber que se gastou muito dinheiro público com películas-lixo, sim. Mas agora é hora de preservar este material.
As novas gerações precisam saber que em 1979, como no filme citado, homem usava blusa para dentro da calça mas aberta no peito, como se fosse um decote. Também precisam saber que a moda era usar sunga da Speedo com faixas coloridas no meio. E é urgente que as novas gerações, para não repetirem o erro, entendam que, no fim dos anos 1970, era normal que nas pistas de dança o disc-jockey (pelo menos não era artista e a gente não sabia o nome) ligasse uma sirene de ambulância. Empolgava os dançantes ouvir uma sirene! Eu lembro bem disso!
Claro, outra moda dos anos 1970/80 eram camisas da Fiorucci ou da Pier com motivos tropicais: papoulas, ondas, coqueiros. Mesmo que você freqüentasse o brejão da Praia do Flamengo.
Em Nos tempos da vaselina, o espectador vê tudo isso e muito mais. O personagem vivido por João Carlos Barroso, Onofre, é de Cachoeiro de Macacu e vem passar uns dias na cidade grande com o primo, vivido por um ator louro parecido demais com o Oberdan Junior (obviamente não era, o Oberdan ainda era moleque na época, o filme é de 1979). Onofre se perde pelo Rio em busca do primo, tem a mala com o endereço roubada e de repente vai a um boteco pedir comida. Quem dá uma fatia de pão com manteiga ao Onofre é Carlos Lyra. As Himself! "Vamos lá na Globo que eu duvido que teu primo não veja você", diz Lyra. Nessa hora, a cópia deve ter algum defeito, pois não aparece a "Globo", corta imediatamente para Onofre em casa com o primo.
Este diz a Onofre: "Amanhã vamos à praia e você vai conhecer a nossa...PATOTINHA!".
Diz isto sem problema nenhum, como se Patotinha e Supimpa fossem palavras do vocabulário de um engenheiro nuclear (talvez até sejam).
No dia seguinte, eles vão à praia, e o lourinho começa a apresentar a patotinha para Onofre. "Este é fulano, este é sicrano, ah, aquele ali você conhece!", diz, apontando para um sujeito molhado na areia, de bigode, abraçado a uma mulher. "É da Seleção!!!". Olho de novo e não acredito. Aí ouço: "É o Gil!!!". Sim, o pior de tudo é que era mesmo o Gil, o Búfalo Gil, ex-ponta direita de Fluminense e Botafogo. Naquele ano, ele devia estar defendendo o Alvinegro. E está lá, fazendo uma ponta no filme do José Miziara!!!!
Seguem-se então diversas tomadas ginecológicas da praia, até que Onofre, no Grumari, consegue pegar uma loura da patotinha. Mas perde o calção de banho e volta num barril. Fica sozinho porque de repente um cara em um Passat LS dá uma carona para a guria! Caramba, eu tinha esquecido da existência do Passat LS, um dos carros preferidos do meu pai! Graças ao Miziara, revi o saudoso carango...
Não vi o filme até o fim, já que essas preciosidades só passam muito tarde no Canal Brasil e eu precisava acordar um pouco mais cedo nesta segunda-feira. Mas já fiquei satisfeito com as recordações esdrúxulas, por poder rever coisas que minha memória tinha apagado por serem inúteis demais.
Contra a memória seletiva, viva o velho e bom cinema brasileiro!!!!
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