25.04.07
Mãos
Eu olhava para as minhas mãos e contava cada dedo, ansiosa para poder esticar ambas por completo e dizer que tinha dez anos. Lembrava da minha mãe contando como aprendi a sinalizar, com o indicador levantado, que tinha só um ano de vida. Crianças, desde muito cedo, aprendem que o melhor jeito de expressar suas idades é com as mãos; pelo menos até os dez anos, quando eles não são mais o bastante para contar o tempo que já passou.
Aos nove, nunca fiquei tão ansiosa para os dez. Como é bom ter nove anos, como é bom viver com pouca saudade, viver sem nostalgia de dias melhores porque os vividos já o são. Hoje, dentro de um táxi na Lagoa, lembrando de coisas da infância, estiquei novamente os dedos de minhas duas mãos e fiquei olhando para as linhas que cobrem as palmas, linhas que talvez minha bisavó cigana soubesse interpretar perfeitamente. Mas eu só vejo a letra "M" - que antigamente me dava orgulho por ser a inicial de meu nome. Onde fica a linha do amor, do dinheiro, da vida? Como todos os meus segredos, segredos que nem mesmo eu ainda descobri, cabem todos na palma da minha mão e eu não sei lê-los? Como eu mesma estou aqui, dentro desse "M" riscado em minha própria pele, e não consigo identificar?
As minhas veias, do outro lado, já aparecem mais do que há dez anos. A cor esverdeada não me engana, e eu sei, eu sei muito bem que o corre lá dentro é de um vermelho vivo que me mantém em pé. Talvez, daqui a outros dez, vinte, trinta anos eu olhe para um lado de minhas mãos e veja o meu passado: manchas, rugas, veias tão à flor da pele que parecem que explodirão a qualquer momento e que, ainda assim, desvendam toda a minha história. E olhe para o outro lado e veja nas palmas de minhas mãos mais do que o simples "M" e seu labirinto de linhas tortas que se cruzam. Talvez eu veja seu fim, talvez eu encontre o minotauro e consiga derrotá-lo. Talvez eu encontre uma esfinge e aí, só aí poderei inverter o jogo e perguntá-la, antes que ela me pergunte qualquer coisa, por que hoje, dentro daquele táxi na Lagoa, eu achei que ao olhar para as minhas mãos com os dez dedos esticados - gesto que eu fazia com tanto orgulho aos dez anos - eu tenha pensado pela primeira vez que estava diante não de mãos cheias, mas de mãos abertas, vazias, que deixam o tempo escorrer delas mais rápido que nunca - e eu sei, eu sei que a tendência daqui para frente é acelerar.
(Texto publicado em 10/09/2004)
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Pretos, como a asa da graúna. Brancos, como a neve.
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