19.04.07
Estrelas

Hoje eu olhei o mar pela janela da minha casa e só vi uma parte. O azul, as ondas - ainda era de dia. E agora eu estou aqui, esperando o táxi, olhando o céu nessa outra janela - já está tão tarde, não é? - e estou vendo só uma parte novamente. Tão poucas estrelas. Era pouco mar também hoje de manhã. Perturbador. Perturbador porque eu sei que tem mais, muito mais fora do alcance dos meus olhos. Lembro dos livros, lembro da física me dizendo que tudo depende do referencial. Referencial. Estranho, eu sei, mas talvez se eu me aproximar mais um pouco pode funcionar, às vezes funciona. Eu ainda posso me aproximar do mar. Chegar perto, experimentar a água, mergulhar. Mas e depois? O que tem depois, no fundo? E mais depois ainda, no horizonte? Eu sei. Quer dizer, sei em parte: outros mares, outros continentes, outras pessoas - a Terra é redonda, os livros me dizem, mas eu nunca comprovei, nunca experimentei. Quanto ao céu, o céu não há escapatória: eu vejo estrelas mas sabe, já li em algum lugar, na verdade não estão lá. Desapareceram, sumiram, morreram. Estão mortas. Mas eu as vejo. Finalmente, meudeus, finalmente eu posso afirmar que fantasmas existem. Nunca tinha pensando nisso. Você tinha? Podem ser fantasmas de estrelas, mas e daí? Fantasmas existem e eu os vejo quase toda noite enquanto olho para o céu, então. Quantas outras coisas não devem ser assim? Ah, não. Não me venha falar em atraso, em velocidade da luz, não quero mais saber de física. São fantasmas, só fantasmas. Isso me tranqüiliza um pouco, é estranho, mas tranqüiliza. Mas olha só essas estrelas. O que tem depois? O que vem depois? Planetas, sistemas, galáxias, buracos negros. O que são os buracos negros? Desesperadores os buracos negros, você não acha? Os livros não me dizem nada, não me dizem quase nada, não posso experimentar, não posso mergulhar - só em sonhos, que podem muito bem não ser sonhos, mas pesadelos. Eu tenho medo de pesadelos. Engraçado como eu penso nisso tudo e me pergunto, meio que no piloto automático: e a minha vida? O que vem agora? Talvez se eu tentar ler a minha mão, talvez se eu consultar um oráculo, as estrelas, os fantasmas. Os mortos não sabem do futuro? Ah. Mas são só deduções, tudo nessa vida deduzimos, não é mesmo? Algumas vezes induzidos, mas pra mim, são só deduções. Eu sempre achei a homeopatia tão simpática. Tudo devia ser em doses homeopáticas. Não, não. Eu sei, eu sei que reclamo sem razão. Na verdade eu não queria tudo em doses homeopáticas, não. Nem as tristezas, nem as coisas ruins: do que adianta, sofrer aos poucos? Engraçado, eu falo como se tivesse direito de escolha, mas eu sei que não tenho, eu sei. Ah, mas na verdade eu prefiro as coisas em doses cavalares mesmo. Como essa felicidade, sabe? Tão raro, felicidade assim, em quantidade absurda, transbordante, como eu sinto como estou tão perto de você, num dia bom como esse. É, o táxi chegou. Eu não tinha visto. Já tá amanhecendo! Mas sabe, uma última coisa, lembra daquilo que eu falei? Das estrelas-fantasmas me tranqüilizarem? Pensando melhor, era mentira. Não tranqüilizam, não.
(Publicado em 12 de outubro de 2002, no Agridoce: porque é impressionante como certas coisas de anos atrás se encaixam perfeitamente hoje)
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Seus comentários
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Parabéns.
Tudo está lá fora. E eu ainda preciso me encontrar. Obrigada pelo comentário, Luciano.
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Como sou uma pessoa legal e compreensiva não vou reclamar das apropriações impróprias de pensamentos próprios alheios risos ... mas é bom saber que mais alguém ainda fica acordado a noite, fitando o escuro e pensando "mas como é que tudo isso funciona?" . De uma certa forma me sinto menos solitário agora.
Abraços!
Marlon
Marlon, obrigada por não reclamar das apropriações. E você tem toda razão. Os referenciais são realmente voláteis. E sim, acho que isso é estar confuso. Pelo menos, sei muito bem que eu estou pra lá de confusa!
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E ainda tem coragem de dizer que eu sou esnobe, tá vendo? Aposto que você já deve ter visto o mar alguma vez... Mas eu nunca vi a serra da Cantareira!
E se serve de consolo, não tenho mais vista para o mar. Escrevi o texto há alguns anos, quando vivia com a minha família em Copacabana. Da janela da sala dava pra ver uma nesga de oceano. E era a coisa mais linda, confesso. Hoje em dia eu me contento em sair do prédio (o apê é de fundos) e dar de cara com a Baía de Guanabara. Url: http://www.google.com
q tem!é uma pena q muita gente desperdiça o amor
e brinca com os sentimentos dos outros fico triste de ser enganada outra veZ E SABER QUE EXISTE muita gente ruim nesse mundo
quando estou só sento e vejo estrelas penso em Deus .
só ele consegue me confortar com seu amor e me explicar o impossível tudo pode ser impossível para nós mais para Deus nada é impossível!
beijos pessoal!essa foi para o meu coração!eu amo todos os q me odeiam tbm amo
só ñ consigo amar aquele q rejeita o amor de Deus!
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