Gustavo de Almeida e Marcele Fernandes são cariocas, casados e rubro-negros. Ele tem 40 anos e trabalha de noite. Ela tem 27 anos e trabalha de dia. Os dois se encontram nas poucas folgas que restam, nos posts do blog e, quase sempre, nos sonhos também.
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Marcele Fernandes









25.03.07

Rosas

Rosas, foto de Marcele Fernandes

Rosas rosas

Ela nunca tinha visto ninguém embrulhar rosas daquele jeito claustrofóbico. Rosas de verdade, rosas rosas. As amarelas lhe lembravam hospitais - além de ganharem um ar patriótico patético com os caules e as folhas verdes. As vermelhas só lhe remetiam a morte, nada mais. Tinha jurado a si própria que nunca mais compraria rosas daquela cor, apesar de saber que a qualquer momento quebraria o juramento, como quase todos os outros que já tinha feito para ela mesma. Faltava graça às rosas brancas. Sobraram as rosas rosas, que pelo menos combinavam com o próprio nome, além de contrastar com o papel branco que escondia todos os botões, deixando só uma parte dos caules aparecendo. O florista já tinha se encarregado de arrancar todos os espinhos, apesar da operação arrancar boa parte das folhas também. Foi só sair da loja para rasgar o embrulho e deixar, finalmente, as rosas respirarem - como se elas já não estivessem mortas desde que foram colhidas. A aflição a consumia. Tentou se acalmar contando cada botão enquanto andava pela rua: um, dois, três, quatro, cinco, seis. Seis rosas rosas. Uma para cada um - apesar dela ainda não saber o que o um significava.

Rosas amarelas

Tentou inutilmente andar sem fazer ruído. Naquele corredor gelado, cada passo parecia mais estrondoso do que o outro. Uma placa pregada na parede pedia, desnecessariamente, silêncio. Era impossível acreditar que existiam crianças atrás daquelas portas. Respirou fundo. Apertou o buquê de rosas amarelas contra o peito, para tentar criar coragem. Parou novamente em frente à porta de madeira, pintada de branco. Olhou cada desenho de traços infantis, colados um ao lado do outro, como num mural de escola. Não sabia bem se para admirá-los ou para ganhar tempo. Um, no topo, chamava a atenção. O garoto sorridente, feito de giz azul, dava as boas vindas para as visitas com um feliz "eu sou o Diogo, pode entrar!". A data no canto da folha, de meses atrás, só diminuía as esperanças. Entrou. Encontrou o menino imóvel na cama, com o respirador empurrando-lhe a vida. Sua mulher, ao lado do leito, não desviou o olhar dos cabelos negros do filho. Ele devia saber que depois de tantos anos sem dar notícias tinha se tornado invisível. Ia depositar as rosas amarelas na mesa de cabeceira mas temeu que elas também fossem invisíveis e ficassem ali até apodrecer, sem nenhum resquício de vida. Apertou-as novamente contra o peito e saiu do quarto sem tocar em nada. Retornou ao hospital no dia seguinte, com rosas amarelas mal desenhadas em uma folha de caderno, que colou na porta entre as figuras feitas pelo filho. A coragem para entrar no quarto lhe faltou, assim como tinha lhe faltado anos atrás quando fugiu. Foi embora para nunca mais voltar. Seus passos antes tão estrondosos não produziam mais nenhum som. Tinha, finalmente, desaparecido para sempre.

Rosas vermelhas

O desconhecido da funerária se aproximou do caixão. Despetalou as rosas vermelhas e as depositou uma a uma, rapidamente, em cima do corpo frio. Não o viu - ou o ignorou - no canto da capela. Ainda era de madrugada e ele não sabia se o frio lhe machucava tanto quanto a dor ou se era a dor que lhe dava frio. Resolveu também começar a despetalar as rosas. Se alguém tinha de fazê-lo, que pelo menos fizesse com algum sentimento, com algum carinho, com algum amor. Mas não chorou. Depois que a tinham enterrado, percebeu que estava abraçado a rosas vermelhas. As pessoas que acompanharam o cortejo estranharam o fato dele não depositá-las no túmulo, mas estranharam ainda mais ele não ter derrubado uma lágrima. Em casa, colocou as rosas cuidadosamente num vaso cheio d'água em cima da mesa de cabeceira, ao lado do espaço vazio da cama que, agora, era só dele. Com o passar dos dias elas perderam o viço, murcharam, apodreceram até o fedor preencher toda a casa e impregnar a vizinhança. Ele não teve coragem de jogá-las fora. A poeira já se acumulava pelos cantos da casa e alguém foi contratado para limpá-la. Quando ele chegou do trabalho foi direto para o quarto e se deparou com a jarra vazia. Sentiu um misto de solidão e saudade lhe consumir. As rosas vermelhas, as preferidas dela. Escorregou pela parede e, sentando no chão, chorou tudo o que não tinha chorado antes. Não é todo dia que se perde um amor como aquele.

Rosas brancas

"Quer?". A moça bonita lhe estendia a mão, segurando firme pelo caule uma rosa branca. Ele estranhou. Entregadores não costumam receber rosas de brinde, mas exceções confirmam regras. Resolveu aceitar a flor e recusar a gorjeta. "Ela merece as outras 35 que ganhou", pensou enquanto ia pra casa de outra desconhecida entregar mais um buquê. A moça bonita continuava no mesmo lugar, olhando o sangue preencher aos poucos a palma da mão que há pouco segurava a flor. "Malditos espinhos", pestanejou baixinho, enquanto algumas das rosas brancas em seu colo iam sendo tingidas de vermelho. Se esforçou para engolir as lágrimas, sem sucesso. O gosto salgado em sua boca não era por causa daquela dor física estendida em sua frente, mas por causa dele. "Quanto vermelho o branco pode trazer?", ouviu a voz masculina, grave, tão familiar em um tempo remoto lhe perguntar. Ele não estava mais ali, mas continuava a lhe enviar as rosas brancas. Ela sabia que nenhum entregador lhe levaria em casa a paz que buscava há tanto tempo, muito menos em cálidos buquês. Ela sabia que não encontraria essa paz sem sofrimento. Ele, apesar de tudo, também. "Quanto vermelho o branco pode trazer?", ela ouviu pela última vez a voz grave repetir, quando jogou as 35 rosas brancas no lixo, sem remorso algum.

Contos publicados no antigo blog e no site Paralelos.

por Marcele Fernandes as 12:31:51

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Comentários:


Seus comentários

bom dia

sou estudante de gastronomia e defendo minha tese sobre rosas, gostaria de saber se vc tem ou comhece alguma tabela nutricional sobre ela, se possivel me mande???

agradeso desde ja marco aza

Olá, Marco. Infelizmente, não conheço nenhuma tabela. Boa sorte com a tese e a pesquisa.
22.05.07 @ 08:44
Nome: N.Sara
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Que boniteza, Marcele!
Fiquei pensando nas rosas. As brancas são tão delicadas e as vermelhas vermelhas de verdade são sanguíneas, que nem as laranjas sanguíneas (era tão mais bonito com o trema, sangüíneas) do sul da Itália. Ricardo roubava rosas prá mim aí da esquina de casa. Ricardo encheu minha janela de flores lá no bosque, de rosas rococó, violetas, fresias. As primeiras flores que me deu foram fresias. E me fez cheirar a albahaca que el plantou na sua mão. Ai que saudade do cheiro das fresias daquele dia!
06.07.09 @ 15:57
Nome: Kali Palmrose
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Right?! The ONLY positive thing which would possibly emerge from salary freezes coaxing Weasel free from hiding. As expected, I know are convinced he’s running for the law - in all likelihood somewhere in southern Paraguay.So the chances are slim.
26.11.11 @ 23:25
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Strangely enough, I stubled onto impartial via a investigate Hyperbole and a Half.
26.11.11 @ 23:41
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The bad barber leaves neither hair nor skin.
13.02.12 @ 15:40

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