21.03.07
Os estereótipos irritantes
Eu era adolescente quando acordei de madrugada com choros e soluços de minha mãe e de minha irmã. Lembro de ter pensando de imediato que algo de muito grave devia ter acontecido. Cenas horripilantes passavam pela minha cabeça: desde ladrões invadindo o apartamento até telefonemas avisando sobre uma tragédia com algum familiar.
Não era nada disso. Uma barata tinha “passeado” em minha irmã enquanto ela dormia. A Gabi deu um tapão no bicho, coisa que nunca faria em sã consciência. Acordou, viu o corpo da dita cuja no chão e teve um treco. Minha mãe acordou, viu minha irmã aos prantos por causa da barata e entrou na choradeira também. Eu não conseguia entender o motivo de tanto desespero para revolta da Gabi, que desabafou durante o banho de álcool que estava tomando: “você não entende porque não tem medo desse bicho desgraçado!”.
Realmente não tenho medo desse bicho desgraçado. Durante anos, numa casa só de mulheres, fui a matadora oficial de baratas. E de insetos estranhos também. Quando trabalhei como técnica de saneamento, lá pelos idos de 1999, qualquer resto de medo ou coisa parecida que eu tivesse evaporou. As minhas histórias de trabalho para minha família eram de horror: “hoje fui em Caxias acompanhar a limpeza de um poço de visitas – bueiro – e encontrei umas vinte baratas”. Para Gabi e minha mãe, parecia que eu tinha voltado de uma guerra sem um arranhão.
Lembro de ter 15 anos e pensar: “Ai, quando eu casar, me livro disso. Posso até fingir que tenho medo de barata, pra não ficar mais tendo de correr atrás de inseto pela casa”. Não vou nem entrar no mérito de no auge da adolescência já pensar em casar, nem na minha visão de transparência de relacionamento naqueles anos, que pelo visto não era das melhores. Mas, enfim: se eu tinha alguma esperança de não ter mais de matar baratas quando casasse, elas sumiram na minha primeira viagem com o NN.
Nós já estávamos deitados quando o inseto entrou no chalé. Ele se levantou imediatamente e eu pensei: “Ai, que bom, não vou ter que matar mais uma barata”. Ele foi se encaminhando para porta, me puxando pela mão e meu alívio foi diminuindo. Ele nos trancou do lado de fora do quarto dizendo que ia até a recepção pedir para mudar de chalé e eu já estava convencida: nunca mais me livraria da função de matadora de baratas.
Enquanto ele ia perturbar o atendente de plantão em plena madrugada, eu entrava no quarto de chinelo em punho. Quando ele voltou com um rapaz uniformizado com um olhar meio assustado, meio com sono, a barata já estava devidamente morta na varanda. O problema é que até hoje, cinco anos depois – doze baratas mortas por mim, zero baratas mortas por ele – o NN não admite o medo. Aliás, a frase predileta dele é: “Eu não tenho medo, eu tenho nojo de barata”. Malditos estereótipos. Agora, com licença, que o dever me chama. Uma barata me espera há mais de dez minutos em algum lugar da cozinha e meu marido está trancando no quarto. Esse nojo é algo sem proporções, sabem?
P.S.: Quem não gosta de baratas deve evitar o Globo Online esses dias. Você pode se deparar com uma andando pela tela, como já avisou a Luciana Misura.
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Seus comentários
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Falamos nisso a tarde toda hoje e agora li seu texto... Já vi minha mãe matando rato, mas de barata não chega perto... Alega nojo também...
Acho que eu não chegaria nem perto de um rato. Desse sim, eu tenho nojo. E medo também! Quanto aos estereótipos, eles são um bom assunto, não são? Mas aqui só devo tratar de mais dois e, ainda assim, sem data definida: casais com homens mais altos que mulheres e mulheres mais organizadas que homens. Já estou ansiosa para ler a série que você e Patrícia estão preparando. E ah, parabéns pela publicação da matéria na UM!
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Ficou com pena da barata? Com pena?! Só você mesmo, Mô...! E obrigada pelos elogios. Beijos!
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Bem, Anderson, que bom que você gostou. Mas não está sendo um pouco vago, não? O que não tem "nada a ver"? Não dá para entender direito, ou você não entendeu? Sucesso para você também, abraço.
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Verdade seja dita! A situação foi bem pior do que parece ser, né não?! rs
O engraçado é que agora sem você por aqui, com certeza, se aparecesse alguma barata aqui em casa eu e a mamãe estaríamos do lado de fora da casa chamando o porteiro.
Eu não tenho culpa se o bicho é nojento!
Beijinhoss
Gabi
Ainda bem que o prédio tem porteiro, né? Se não, ia ser o pobre coitado do vizinho! Beijos, Bibi!
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Ricardo, muito obrigada! Eu também tou sempre passando pela Discoteca Básica. Abraço.
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Olá, Daniel! Seja bem-vindo e obrigada!
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