Gustavo de Almeida e Marcele Fernandes são cariocas, casados e rubro-negros. Ele tem 40 anos e trabalha de noite. Ela tem 27 anos e trabalha de dia. Os dois se encontram nas poucas folgas que restam, nos posts do blog e, quase sempre, nos sonhos também.
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Marcele Fernandes









14.03.07

Lápis de cor

Lápis

As palavras teimam em surgir quando eu não posso escrevê-las: na praia, no metrô, no ônibus, tomando um banho ou... fazendo faxina na casa. Como aconteceu hoje. Me deparando com coisas que estavam escondidas em algum canto e há muito tempo esquecidas, olhando fotos, achando papéis com letras completamente desconhecidas e outros com aquelas que não tem como não se reconhecer, como a da minha mãe. A letra da minha mãe em um prova de matemática. Sim, porque ela é uma professora de matemática e naquela folha de papel estava tentando fazer os alunos resolverem algum problema. Mas eu olho pro papel e, verdadeiramente, só consigo ver a letra de minha mãe. Aquela letra bem desenhada, firme. Linda a letra da minha mãe. E lembro de quando estava na alfabetização, vendo a minha mãe escrever e desejando ter uma letra como a dela. Mais do que isso: desejando escrever "corrido", com as letras juntas, tentando convencer as tias da escola a me ensinarem a escrever daquele jeito, "por favor". Eu pedia por favor. Eu sempre pedi por favor. Então eu pegava uma folha qualquer e embromava, juntava as letras separadas para que elas parecessem corridas e a tia ria. Como riu uma outra professora, anos depois, quando eu tentei embromá-la com um lápis de cor. Um lápis de cor que, contradição das contradições, não era exatamente colorido: mas preto. Um lápis de cor preto. Alunos do primário não escrevem à caneta, só à lápis comum, aquele de grafite que pode ser apagado. Apagado. E era exatamente isso que eu não queria: que as minhas palavras fossem apagadas. Por isso usei o lápis de cor. Tentando enganar uma professora adulta com um lápis de cor preto e, é claro, ela riu. Riu quando chegou na minha carteira, viu na minha mão o lápis diferente, pegou, reclamou e eu insisti "não, não tia, é um lápis comum, lápis comum!" e ela me desvendou com um simples: "ah é? então apaga o que você escreveu" e é claro que, para a minha felicidade, eu não consegui. E a professora pareceu entender: não brigou, não reclamou - só riu. Riu para depois falar de um jeito carinhoso: "menina, você sabe que tem de escrever com o outro lápis, não sabe? para apagar depois?". Eu sabia, mas não tinha aprendido a lição ainda. "Pra poder apagar depois". Quanta ironia, meudeus, quanta ironia. Porque hoje a lição já está mais do que aprendida, só que parece que todos os lápis sumiram e eu não consigo apagar mais nada. Eu quero viver à lápis comum tia, por favor. Para só passar a limpo no final o que vale a pena. Nem é um pedido tão estranho assim.

(texto publicado originalmente em 27/08/2002 no antigo blog; e que serve perfeitamente para hoje)

por Marcele Fernandes as 11:56:32

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Comentários:


Seus comentários

Nome: Klein
Url: http://lixomania.zip.net
Genial! Muito mesmo!


Obrigada!
14.03.07 @ 13:22
Nome: Francisco
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Leio o blog há alguns dias, mas é meu primeiro comentário: excelente texto! Nessa correria, acaba sobrando delete e faltando lápis comum, né?
Parabéns aos dois pelo blog!

Olá, Francisco! Muito obrigada pelas visitas e pelo elogio. Volte sempre, seja bem-vindo!
14.03.07 @ 18:16
Tem horas que a gente usa o lápis de cor, pra dar mai sabor à vida, mas esquece que quando se usa o lápis de cor, não dá pra apagar e tentar de novo.
Num dia, como o de hoje pra mim, onde a gente se depara com a verdade absoluta da "adultice", eu queria muito poder passar a limpo :)


Teca, e dá-lhe adultice... Nem é bom falar em adultice no dia do aniversário, sabe como é! :)
14.03.07 @ 23:23
Nossa, a gente deve ser meio irmã, mesmo. Minha mãe também é professora!

A propósito, já postei uma "maldita" em sua homenagem, viu?
15.03.07 @ 18:57
eu comecei a escrever um comentário...aí fui divagando...divagando...mas como aqui eu escrevo com lápis comum...eu cheguei a conclusão que eu só estava tentando dizer que o seu texto é lindo, realmente lindo e isso eu escrevo com lápis de cor.

Beijinhos
Gabi

Quando a gente divaga muito, quase sempre se perde, né? Mas Gabi, muito, muito, muito obrigada. De verdade.
16.03.07 @ 01:10
Nome: Maria
Url: http://www.fabriani.com
Alô Marcele! Desculpa não comentar seu post. Queria apenas te agradecer pelo comentário gentil lá no Montanha. Obrigada de verdade. Um beijo!


Maria, não tem nada do que se desculpar. Fiquei muito feliz com a notícia! Novamente, parabéns! Beijos.
17.03.07 @ 04:43
Nome: Hilton Marcos
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Pra que lápis, né marcele? Tudo na vida fica gravado, gravado em superfícies as quais criamos. Depois de prontas, estas superfícies, melhor que seja escrito com lápis de cor. Pra sempre.
Você é muito, muito especial e, escreve como gente grande; deste tamanho!!!
beijos.
04.09.07 @ 21:09
Nome: N.Sara
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LINDO LINDO LINDO...
NEFER NEFER NEFER... (quando eu li 'O Egípcio', tinha uma mulher que se chamava 'Nefer', e era tão linda, que ninguém aguentava dizer 'Nefer'- linda - uma vez só, todos repetiam estupefatos: 'Nefer Nefer Nefer').
Então: lindo lindo lindo...
06.07.09 @ 18:14

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