14.03.07
Lápis de cor

As palavras teimam em surgir quando eu não posso escrevê-las: na praia, no metrô, no ônibus, tomando um banho ou... fazendo faxina na casa. Como aconteceu hoje. Me deparando com coisas que estavam escondidas em algum canto e há muito tempo esquecidas, olhando fotos, achando papéis com letras completamente desconhecidas e outros com aquelas que não tem como não se reconhecer, como a da minha mãe. A letra da minha mãe em um prova de matemática. Sim, porque ela é uma professora de matemática e naquela folha de papel estava tentando fazer os alunos resolverem algum problema. Mas eu olho pro papel e, verdadeiramente, só consigo ver a letra de minha mãe. Aquela letra bem desenhada, firme. Linda a letra da minha mãe. E lembro de quando estava na alfabetização, vendo a minha mãe escrever e desejando ter uma letra como a dela. Mais do que isso: desejando escrever "corrido", com as letras juntas, tentando convencer as tias da escola a me ensinarem a escrever daquele jeito, "por favor". Eu pedia por favor. Eu sempre pedi por favor. Então eu pegava uma folha qualquer e embromava, juntava as letras separadas para que elas parecessem corridas e a tia ria. Como riu uma outra professora, anos depois, quando eu tentei embromá-la com um lápis de cor. Um lápis de cor que, contradição das contradições, não era exatamente colorido: mas preto. Um lápis de cor preto. Alunos do primário não escrevem à caneta, só à lápis comum, aquele de grafite que pode ser apagado. Apagado. E era exatamente isso que eu não queria: que as minhas palavras fossem apagadas. Por isso usei o lápis de cor. Tentando enganar uma professora adulta com um lápis de cor preto e, é claro, ela riu. Riu quando chegou na minha carteira, viu na minha mão o lápis diferente, pegou, reclamou e eu insisti "não, não tia, é um lápis comum, lápis comum!" e ela me desvendou com um simples: "ah é? então apaga o que você escreveu" e é claro que, para a minha felicidade, eu não consegui. E a professora pareceu entender: não brigou, não reclamou - só riu. Riu para depois falar de um jeito carinhoso: "menina, você sabe que tem de escrever com o outro lápis, não sabe? para apagar depois?". Eu sabia, mas não tinha aprendido a lição ainda. "Pra poder apagar depois". Quanta ironia, meudeus, quanta ironia. Porque hoje a lição já está mais do que aprendida, só que parece que todos os lápis sumiram e eu não consigo apagar mais nada. Eu quero viver à lápis comum tia, por favor. Para só passar a limpo no final o que vale a pena. Nem é um pedido tão estranho assim.
(texto publicado originalmente em 27/08/2002 no antigo blog; e que serve perfeitamente para hoje)
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Parabéns aos dois pelo blog!
Olá, Francisco! Muito obrigada pelas visitas e pelo elogio. Volte sempre, seja bem-vindo!
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Num dia, como o de hoje pra mim, onde a gente se depara com a verdade absoluta da "adultice", eu queria muito poder passar a limpo
Teca, e dá-lhe adultice... Nem é bom falar em adultice no dia do aniversário, sabe como é!
Url: http://www.interney.net/blogs/guindaste
A propósito, já postei uma "maldita" em sua homenagem, viu?
Url: http://www.interney.net/blogs/eclipse
Beijinhos
Gabi
Quando a gente divaga muito, quase sempre se perde, né? Mas Gabi, muito, muito, muito obrigada. De verdade.
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Maria, não tem nada do que se desculpar. Fiquei muito feliz com a notícia! Novamente, parabéns! Beijos.
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Você é muito, muito especial e, escreve como gente grande; deste tamanho!!!
beijos.
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NEFER NEFER NEFER... (quando eu li 'O Egípcio', tinha uma mulher que se chamava 'Nefer', e era tão linda, que ninguém aguentava dizer 'Nefer'- linda - uma vez só, todos repetiam estupefatos: 'Nefer Nefer Nefer').
Então: lindo lindo lindo...
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