Gustavo de Almeida e Marcele Fernandes são cariocas, casados e rubro-negros. Ele tem 40 anos e trabalha de noite. Ela tem 27 anos e trabalha de dia. Os dois se encontram nas poucas folgas que restam, nos posts do blog e, quase sempre, nos sonhos também.
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Marcele Fernandes









13.03.07

Tudo bem!

Rosa queria se casar na primavera, mas se contentou com um casamento no outono. Rosa queria uma lua-de-mel na praia, mas se contentou com uma na cidade. Rosa queria morar no oitavo andar, mas se contentou com o sétimo. E, apesar disso tudo, Rosa segue dizendo tudo bem.

Eu não quero comprar um carro novo, como no anúncio que conta a história de Rosa, mas confesso que nunca me identifiquei tanto com um comercial. Fui durante muito tempo exatamente como ela: seguia dizendo tudo bem para tudo e para todos. Mesmo que, muitas vezes, isso contrariasse tudo o que eu queria.

Quando criança, era um costume abaixar a cabeça e ficar calada, por mais certa que eu estivesse (ou que, pelo menos, achasse que estivesse). Ficava matutando durante horas todas as respostas que poderia ter dado, as caras e bocas que poderia ter feito, todos os escândalos no meio da rua que poderiam ter acontecido (e que sempre morreram dentro de mim). E assim, ia tentando digerir os sapos engolidos, quase sempre sem sucesso. Com o tempo e muito, muito, muito trabalho fui melhorando aos poucos. Parei de aceitar tudo o que os outros diziam, mas confesso que restaram algumas seqüelas. Ainda engulo alguns sapos, ainda me conformo com muita coisa que não deveria. E – eu não me emendo – peço desculpas por tudo.

Por tudo mesmo! Se estou parada na rua e alguém me dá um esbarrão, eu peço desculpas. Se estou caminhando e alguém levanta o pé para eu tropeçar, eu peço desculpas. Se um cliente é extremamente grosso comigo, eu peço desculpas. E a ladainha de “ai, desculpa!”, “me desculpe”, “foi mal aê!” vai se desdobrando, sem ter fim.

É por isso que às vésperas dos meus vinte e sete anos de idade, vou fazer uma listinha de promessas, parecida com as dos outros no revéillon: eu não vou mais me conformar com o meu emprego, eu não vou mais me conformar com a grosseria alheia, eu não vou mais me conformar em ser medíocre. E, finalmente, vou tratar de adotar como mantra aqueles versos iniciais da música “Todo errado”, de Caetano Veloso e Jorge Mautner: “Eu não peço desculpa / Nem peço perdão”. Quer dizer... só de vez em quando.

por Marcele Fernandes as 00:03:22

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Seus comentários

Nossa, Marcele, fico besta de ver como somos parecidas... Eu também vivo pedindo desculpas e repassando mentalmente todos os impropérios que deveria ter dito e calei. Acho que você deve ser minha versão carioca!

Gostei dessa história de ter uma versão paulista (quer dizer, eu acho que é paulista... é paulista?). Essa história de pedir desculpas toda hora é muito ruim. E o pior é que o desculpa escapa que nem soluço! Parece impossível de controlar. O mesmo acontece com os "por favor" e "obrigada".
13.03.07 @ 15:57
Eu nem preciso dizer que eu já fui muito Rosa também... ainda sou, mas já não sou mais pra todo mundo.
Depois de uma fase tardia de revolta/mal-criada, eu conheci o João e consegui achar o meu meio termo.

=P

Você precisa me dar um curso urgentemente, Teca!
14.03.07 @ 23:06
Hehe, paulista, mas não paulistana. Como diz o Millôr, nasci em Tiradentes aos 22 anos de idade.

Carol, Tiradentes é uma bela cidade para se renascer.
15.03.07 @ 19:00
Nossa é muito engraçado esse comercial pq ele tem esse lado mesmo de nos fazer perceber o quanto calamos e aceitamos tudo passivamente, muitas vezes com medo de entrar em discussões e gerar problemas acabamos com um "tudo bem"...Aqui no trabalho agora estamos satirizando em cima dessas duas palavrinhas ficou ate divertido...quando determinada situação ñ nos agrada vem o famoso TUDO BEM, e na brincadeira deixamos no protesto registrado...rsrsrsr
Muito legal essa idéia do seu post
Um abraço

Obrigada, Luciana! E, pelo menos pra mim, o que você falou é pura verdade: a quantidade de coisas que eu calo e aceito passivamente... afe! Mas estou tentando melhorar.
16.03.07 @ 19:13
Nome: cris reis
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Acho q parte das mulheres são assim, pois exatamente como todas as q postaram, se identificaram...
Nossa, como é chato as pessoas saberem q foram grossas e arrogantes conosco e ão fazem o menor esforço para se desculparem muito menos pra reverter o quadro!
sim, são várias as Cris, Marceles, Rosas, Lu etc q se calam diante desses atos permitindo q nunca se tenham fim...
Daí eu pergunto: -Quem foi assim um dia e conseguiu mudar "na boa"? Sem maiores problemas e sem q tenha feito algum acompanhamento ou q lhe digam q está sendo influenciada por alguém? Me faz um favor, aquela q tem a fórmula, distribui q a necessdade é ENORME!
01.04.07 @ 18:15
Nome: Rafael Morais
Url:
Pois é, eu não sou mulher mas acho que puxei isso da minha mãe.

Me peguei muitas vezes fazendo isso, hj em dia fico me policiando, já criei um botão de "Foda-se" na cabeça, mas as vezes eu esqueço, hehehe.
03.08.07 @ 15:40
Nome: N.Sara
Url:
Quando vimos esse comercial (e olha, Marcele, que Ricardo e eu quase não assistimos televisão), quando vimos o comercial da Rosa 'tadinha', Ricardo começa a rir e diz: 'Olha você aí, minha burrinha...' E me deu uma comoção danada, uma vonmtade de chorar de peninha dela (de mim?). Mas isso foi antes. Agora eu sou a Cruela Cruel!
06.07.09 @ 18:45

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