Ainda bem que eu tenho amigos fanáticos por futebol aqui na Espanha. Quase que perco o jogo do Dépor contra o Sevilla porque achei que era amanhã, e amanhã estarei viajando. Fui avisada a tempo, ufa!
Primeiro porque finalmente consegui calcular a distância entre a minha casa nova e Riazor, o estádio do Deportivo La Coruña: foram pouco menos de 800 passos dados pelas minhas pernas curtas, uma sensação indescritível. Uma mistura de felicidade e alívio por ter acesso tão fácil a algo tão divertido.
E essa temporada promete ser ainda mais divertida que a anterior. O Dépor tem 15 pontos em 7 rodadas, e só está atrás do invicto Barcelona, o Real Madrid e o Sevilla. Esse último foi a sensação da última rodada: acabou com a invencibilidade dos merengues e a briguinha entre os dois grandes para ver quem perdia primeiro. Temos um brasileiro a mais esse ano: Juca, que desembarcou aqui vindo da Sérvia e agora não precisamos mais depender do Guardado para cobrar o escanteio, ufa!
Filipe vai voltando ao que era antes depois da decepção de estar tão perto do Barça, e agora tão longe. Já deveria ter entrado em campo com a amarela do Dunga, mas isso é história para outro post reclamão.
Lógico que de vez em quando o Dépor volta a sofrer da STP (Síndrome de Time Pequeno). Murcha, desaparece e só realmente começa a jogar o que sabe quando já é tarde demais para garantir a vitória ou até um mísero empate. Vide o Deportivo X Espanyol há umas semanas, que sofrimento!
Mas hoje veio o Sevilla, o fenômeno do campeonato, o maior entre os não-galáticos. Entramos em campo sem o Juca, que está lesionado. E eles sem o Luís Fabiano. Mas Kanouté ainda estava ali, ainda que esse Kanouté parecia bem diferente do que deslizou por Riazor com elegância, educação e uma incrível visão de jogo. Jogamos três vezes seguidas com eles (a Liga e a Copa do Rei). Perdemos as três, uma delas de virada, graças ao camisa 12 deles.
Dessa vez, perderam eles, em um jogaço que, como sempre é o caso dos herdeiros de Bebeto, começou feio. Guardado "metia a pata", como dizem aqui, de maneira consecutiva. Atacávamos mais que eles, só que pior. Até os 37 do primeiro tempo, quando uma bola que eu tinha certeza que ia fora entrou no gol, não sei como.
Estava ali, atrás do gol, e vi o Juán Rodríguez chutar de fora da área. A bola vinha retinha na minha direção e eu vi como ela passou a uns 20 centímetros da trave direita. Só que ela entrou. Viva a brisa do Atlântico Norte!
No segundo tempo, se o Dépor fosse um time sul-americano, voltaria com uma bela retranca para garantir a vitória simples e sortuda. Mas Miguel Ángel Lotina não gosta de mudar seu estilo. E por estilo quero dizer: espera sempre até os 15 minutos do segundo tempo para começar suas alterações, que geralmente têm a ver com colocar o Valerón ou tirá-lo, se ele começou a partida como titular. Valerón, ex-seleção espanhola, é um craque. Passa a bola como um gênio e é o único poder realmente criativo do time. Mas já é mais velho, tem histórico de lesões e infelizmente não agüenta mais o tranco.
Para um jogo como o contra o Sevilla, que ataca muito bem, melhor mesmo ter deixado o Valerón no banco na primeira parte, para o caso de os andaluzes marcarem e o time precisar arrancar pelo menos um empate. Mas o Dépor não tem vocação (nem talento) para a retranca. Então entrou Valerón para dar mais gás ao ataque. Não foi aos 15, devo admitir... Foi aos 12'50''. Ê Lotina...
Dépor e Sevilla lutaram por meia hora. Sufoco pros dois lados, faltas feias, manha, indignação de torcedores. Sorte nossa que Luís Fabiano foi poupado, porque faltou ao Sevilla justamente um matador dentro da área. Kanouté errou passes demais, tinha a mira descalibrada e estava visivelmente irritado com a produção do time. Nem de longe parecia o exemplo de dedicação e pacifismo pelo qual é conhecido.
E pensar que eu quase perdi tudo isso. Ainda bem que fiz os amigos certos. PS: Quarta-feira parece que vou ao Porto X APOEL lá no Estádio do Dragão. Duvido que eu faça um post sobre isso, mas sempre pode chover né? PS2: Filipe Luís é um dos jogadores mais populares do Deportivo, mesmo depois de quase ter ido ao Barça. Todo mundo pede fotos com ele, as meninas suspiram, os moleques pedem que ele não vá pra Catalunha e ele me disse que o Luís Fabiano foi poupado porque joga a Champions na terça. Bendita Champions! Ano que vem o Dépor chega lá...
Na Espanha, NADA se pensa, discute ou opina sem que alguém leve em consideração o fator "nacionalismo". Que, aqui, não significa o mesmo que no Brasil. Um "nacionalista" gaúcho é um cidadão que quer que o Rio Grande do Sul rompa com o Brasil e forme seu próprio país. Aqui, ele seria considerado "independista", enquanto os "nacionalistas" são os que consideram todas as comunidades autônomas (os "estados" espanhóis) primeiro espanholas, depois galegas, catalãs, valencianas e por aí vai.
O futebol não só não escapa dessa polarização automática, como é um dos principais pivôs de debate. Exemplos não faltam, e um deles apareceu agora há pouco, enquanto eu divagava durante o fechamento do jornal.
Segundo o Globoesporte.com, há exatos 75 anos (7 de setembro de 1934) o Brasil jogou, em Salvador, uma partida contra a seleção de futebol da Galícia. O resultado foi 10 a 4 pra gente (ou melhor, pra vocês, ou sei lá... o Brasil ganhou). Entre todos os jogos que a seleção já disputou em Salvador, foi o que mais teve gols a favor, e gols em contra.
Alguns comentários dos galegos que me escutaram contar essa história:
- A notícia não é que o Brasil ganhou de 10 a 4, e sim que nós conseguimos fazer 4 gols no Brasil! (Joel Santana feelings?)
- Estávamos em desvantagem, muitos jogadores foram fuzilados durante a Guerra Civil. (esse comentário é mentira, a guerra só começou em 1936, mas é fato que muita gente morreu. os jogadores da seleção vasca, por exemplo, estavam jogando no exterior e por isso se salvaram, e ainda aproveitaram para arrecadar dinheiro em jogos para cuidar das vítimas. de qualquer maneira, em 1934 a Espanha era uma república ainda não de todo desesperançada, e só unas anos mais tarde seria totalmente devastada.)
- Tudo bem, mas temos é que promover o jogo de volta pra ver como é que fica o placar final! (não pensem que só porque ganhamos da Argentina na casa dela que ganhar da Galícia vai ser fácil... aqui eles são especialistas em adotar novos cidadãos, eu não me surpreenderia se logo logo Iniesta, Xavi e Casillas vestissem a camisa braca com listras azul claras. é claro que, por outro lado, o mero fato de decidir se a seleção galega deve ser tratada de novo com tanta importância, destaque e autonomia, é um debate que nem esse post, nem mil comentários, nem uma nova guerra civil, poderão esgotar.)
Dépor 1 x 1 Barça, última rodada da Liga 2008-2009 (Filipe Luis, no canto inferior direito)
Talento ele tem. O suficiente para ter sido titular em nada menos que todas as partidas da última Liga española e ser eleito pela Uefa o melhor lateral esquerda do campeonato. Seriedade e profissionalismo, também. Vide as palavras do seu treinador, Miguel Ángel Lotina:
- Sabemos o que o Filipe nos dá. Como jogador y como pessoa é um dez, mas também somos conscientes de que as pessoas têm ilusões e lhe está batendo à porta um Barcelona. Mas o sonho atual de qualquer jogador são, o de jogar na equipe que, jogando o futebol mais bonito, ganhou três títulos, incluindo a Liga dos Campeões, pode ir por água abaixo para Filipe Luís Kasmirski. E a razão ainda é incerta.
Em junho, ele embarcou para o Brasil com o sétimo lugar no bolso. Por pouco o Deportivo La Coruña não havia assegurado uma vez mais a vaga na Copa da Uefa. Mas, para uma equipe que começou o ano pensando em não ser rebaixada, o resultado não chegou a decepcionar.
Alguns dias depois, a Conmebol européia o incluiria na sua “seleção da Liga”. O brasileiro foi um dos 11 melhores jogadores do futebol espanhol na temporada 2008-2009. Uma honra enorme para um menino calado e educado do interior de Santa Catarina.
Logo, porém, começou a turbulência. Boatos de que o Barcelona queria Filipe. Bar-ce-lo-na. Junho, na Espanha, é o equivalente para o “jornalismo esportivo” do mês de janeiro no Brasil. Ele muda o nome temporariamente para “jornalismo especulativo”. Para o Dépor, uma possível venda do passe do brasileiro seria o melhor negócio do ano. A oferta inicial era 8 milhões de euros. O clube havia pagado 2,2 milhões pelo jogador.
Mas o Deportivo tem dívidas, muitas. Não tem patrimônio. E é comandado por um presidente-dono (não, aqui não é preciso nem roubar na urna, porque não há eleição). Que queria o valor da multa, 20 milhões. E jogou água no chopp, cozinhou a negociação a banho-maria e deu tempo e espaço suficientes para todo tipo de notícia. O Marca publicou que o clube que vendeu o Filipe ao Dépor havia bloqueado as contas do time coruñes porque ele não havia pago os 4 milhões de euros que devia. Veja a inflação de números.
Especulações sobre outros times interessados, idas e vindas dos dois empresários do Filipe à Espanha também fizeram parte do repertório midiático no mês passado. A dupla parece que fez o teatro “good cop, bad cop”. Enquanto um evitava fazer qualquer declaração, o outro caprichava nas críticas ao dirigente deportivista.
Enquanto isso, o catarinense tentava descansar no Brasil. Tentar, tentou. Mas nós, os jornalistas, não deixamos. Tampouco ajudou a possibilidade de vestir as cores do time catalão no ano que vem e quem sabe finalmente abrir os olhos do treinador da seleção que arrisca até lateral direita na ala esquerda do campo.
Então ele viajou aos Estados Unidos de férias. Tentar descansar, ele tentou. Mas ninguém deixou.
Finalmente, ele encurtou as férias e voltou à Espanha quatro dias antes do previsto para tentar arrumar a bagunça que criaram em torno do seu destino. As ofertas sobem e descem, o Barça quer resolver logo, o Dépor prefere esperar. O Barça foge a todo custo de gastar dinheiro em demasia porque precisa se opor ao carnaval monetário do Real Madrid. O Dépor quer ganhar o máximo com a transferência, como tem o direito de exigir
E o Filipe enfrenta agora a tarefa hercúlea de treinar com a camiseta do time que o acolheu na Espanha e suportar a própria frustração pelo circo criado em torno dessa negociação. Uma verdadeira bola de neve cujo desfecho deve acontecer até a próxima segunda-feira. E que, até agora, está completamente indefinido.
Uma coisa é certa: o apoio da torcida, independente de sua permanência ou não, está garantida depois de dois anos de devoção completa à camisa e à cidade. O próprio treinador resume a posição do atleta:
- Se fosse o meu filho, o encorajaria a ir para o Barça.
Verde, com um belo dedão no meio e logo acima uma foto que, via de regra, é extremamente tosca. Na minha, por exemplo, tirei com a parte de cima de um terno que caberia com tranqüilidade em um jovem de 14 anos, em dia com o seu físico. Mas ela está na minha carteira, com meu número de registro e pode salvar a minha vida em um geral policial. Esta é minha identidade.
Na sua apresentação, no Real Madri, o português Cristiano Ronaldo, acabou perdendo a sua.
Ao se apresentar para mais de 85 mil pessoas, com a camisa 9, com a inscrição “RONALDO” as costa, o jogador eleito pela FIFA como melhor do mundo em 2008 deu a grande furada da sua carreira.
O sistema de numeração fixa já uma realidade na Europa, Estados Unidos e começa a ganhar corpo no Brasil. São Paulo, Corinthians e Coritiba já adotaram esse sistema.
Nos Estados Unidos, inclusive, muitas equipes de basquete aposentam o números dos seus grandes jogadores. O Boston Celtics, maior vencedor da Liga de Basquete Americana (NBA), já aposentou 22 números até o momento.
Na Europa, em sua passagem pelo Manchester United, David Beckham marcou época com a camisa 7 no costado, e isso alavancou as vendas da mesma e a mesma situação acontece em várias outras equipes, com o seu respectivo astro. Em Milão o número 22 domina a maior parte das arquibancadas em jogos do Milan, Na Bombonera impera o 10, com o nome do argentino ROMAN e por aí vai.
Ao apresentar a grande contratação da temporada mundial, com um ar de Déjà vu, o Real Madri perde e perde também o jogador. Ganha o pioneiro, que hoje desfila pelo Pacaembu, pela Pink Elephant e por alguns motéis do Rio de Janeiro.
A simples presença da letra “C”, nessa mesma camisa, já daria um novo ar para a festa e poderia eternizar o seu usuário.
Dez motivos para torcer para o Athletic Club de Bilbao hoje
por Ana Carolina Moreno16h04
Começa às 22h (17h, horário de Brasília) a final do "Campeonato de España - Copa de Su Majestad el Rey de Fútbol". Nome artístico: Copa do Rei. É o campeonato mais antigo da Espanha, criado em 1903. É a Copa do Brasil espanhola, mas todos os times da Primeira Divisão participam, além de todos os da Segunda e os melhores da Segunda B e da Terceira.
A edição de 2009 termina daqui a pouco em uma final com apenas um jogo, em Valencia, entre o Athletic Club de Bilbao e o FC Barcelona. Eis porque eu (e você também) devemos vestir a camisa do time basco:
1- David contra Golias.
2- O Barcelona mantém o favoritismo técnico, tem mais torcedores dentro e fora da Espanha e não precisa de ajuda extra.
3- O Barça tem o maior número de Copas do Rei (24). Quem está em segundo nesse ranking? Athletic. Com 23. Amanhã, espero que eles empatem.
4- O Athletic ganhou sua última Copa em 1984. Justamente ganhando de um Barcelona que, em vez de Messi, tinha Maradona. O último título do Barça nessa competição foi em 1998.
5- Messi é titular do "time das Ligas", mas está escalado para a final para cobrir as baixas do time catalão. Tem brilhado pouco (ou seja, está apagado) desde o jogo de ida da semi contra o Chelsea, pela Liga dos Campeoes. Vamos ver se resolve acender o difusor hoje.
6- Em um país onde só existem duas equipes (Barcelona e Real Madrid) protagonistas e um pequeno punhado de coadjuvantes (Atlético de Madrid, Sevilla e Valencia, quando muito o Villarreal), é bom ver outros nomes ganhando atenção.
7- O Iniesta, que recentemente virou a versão espanhola do "namoradinho da América", não joga, então fica mais fácil não ter simpatia pelo Barça.
8- Muitos podem dizer que se trata de racismo, os misturar alhos com bugalhos e o terrorismo da ETA, mas o Athletic, desde 1911, tem a tradição de não ter jogadores estrangeiros. E por estrangeiros, se referem também aos demais espanhóis. Ou seja, para vestir a camisa, tem que ter um mínimo rastro de sangue basco. E eles siguem firme na Primeira Divisão, sem precisar das pedaladas brasileiras, dos mullets argentinos ou dos chutes precisos franceses (a não ser que venham do País Basco francês, claro).
9- Motivo são-paulino: o uniforme do Athtletic é vermelho, branco e negro.
10- O Barcelona tem a chance de conseguir sua primeira "conquista tripla" (a Liga Espanhola, a Champions e a Copa do Rei). Se conseguir tal feito, será a consagração do tal "joga bonito" que anda fazendo todos os brasileiros babarem. Não me olhem feio! Eu ficarei feliz se, ao fim desse mês, os meninos do Pep Guardiola saírem de férias com três títulos na mala. Mas, se é para ganhar, que ganhem com estilo, calando a boca de toda essa gente de pouca fé.
Talvez o problema seja a minha tecla SAP. Mas ontem abri o Marca no lobby do hotel Eurostars, enquanto esperava a chegada da delegação do Villareal a La Coruña, para o jogo de hoje contra o Deportivo, e encontrei uma foto do Pedro Oldoni. Só era possível ver um pedaço do seu rosto, porque ele beijava a camisa do Atlético Paranaense, mas o título da matéria levava seu nome, escrito com letras gigantes, perto da palavra “perla”.
Foto: Miguel Rojo
Mas... perla quer dizer pérola, né? Sim, o repórter Pablo Rey, escrevendo de São Paulo, comentava a transferência do atacante do Furacão para o Valladolid aclamando, no lide, que a equipe valenciana havia ganhado a corrida inclusive de gigantes europeus, todos atrás desse grande potencial escondido na concha que é o futebol paranaense. O texto não termina de me mostrar o que é que ele tem de tão especial – além, talvez, do empresário de boa lábia que deve ter falado por telefone com o repórter, que nem no Paraná estava – para se tornar O brasileiro do momento. Não se fala no número de gols do menino na última temporada, só há menções à sua altura e sua idade. Pelo visto, ter 23 anos é a característica mais favorável dessa pérola.
Ao lado, um outro jornalista analisa Pedro Oldoni em dois parágrafos. Agora, os leitores do principal jornal de futebol da Espanha sabem que o menino nasceu em Pato Branco e que sabe usar bem as costas do adversário. Y nada más.
Não foi a primeira vez Há seis meses, o site SuperDeporte recorria à mesma imagem da pérola para falar sobre o interesse do Valência em Pedro Oldoni no título (“Una perla de Brasil”). Mas a confundiu com um diamante na linha fina (“Pedro Oldoni, en estado bruto”) e, no lide, já comparou o futuro do menino com o passado de Luís Fabiano, pedindo para o torcedor manter as esperanças, porque o sevillista, quando aqui chegou, também era um nome desconhecido.
Há dois anos, o site BetisWeb já incluía o menino de então 21 anos na extensa lista anual de recomendações de jogadores para o Betis comprar. Além de mencionar a “excepcional” campanha que Pedro Oldoni fazia no Atlético, depois de voltar do empréstimo com o Cianorte, o descreveram como um jogador polivalente. “Su estatura y su complexión atlética le convierten en un atacante letal en las proximidades de la portería. Dotado de un excelente remate de cabeza, Oldoni también es hábil con el balón en los pies.”
E aí, foi sorte do Valladolid, ou quem saiu ganhando nessa foram Valência e Betis?
*Para os jornalistas espanhóis, "carioca" é sinônimo de "brasileiro". Viva a simplificação, né?
Perdão Como é que, em 7 de agosto de 2008, eu pedi ao Large Hadron Collider (aquela máquina capaz de recriar o Big Bang) que, se não provocasse o fim do mundo, pelo menos levasse o Washington pra bem longe da minha frente, e hoje coloquei uma foto dele no meu plano de fundo?
Ou é ou não é Se o jornalista tem uma fonte em off dizendo que o Cruzeiro vai ganhar Kléber mais 14 milhões do Dínamo, em troca do Guilherme, porque escreve que o valor é uma mera especulação? Nem preciso dizer quem é, mas avisa a gente que você tem a fonte, ora. E, se é uma mera especulação, o que ela tá fazendo em destaque na notícia?
Ou é ou não é (2) E eu aqui achando que o Kléber valesse mais do que isso, pro Palmeiras perder tanto tempo tentando segurá-lo... Ou será que o Guilherme é que tá inflado?
Acontece com todos Por que o melhor jogador do mundo, habitualmente um cara tranquilo e "buena onda", ficaria com inveja do triângulo amoroso Milan-Kaká-City? Messi precisava mesmo dizer que não se espantaria se o Barcelona te largasse no futuro, igual fez com o Ronaldinho? O clube está fazendo história, a última coisa de que precisa é de gente reclamando com a barriga cheia. Fora que, se algum dia o Barça pensar em te largar, pode ter certeza que o polígono amoroso que surgirá daí vai ter cifras muito mais obscenas que as do Kaká.
Frédéric Kanouté é um homem de poucas palavras. Percebe-se pela maneira como responde às perguntas dos jornalistas e encerra as entrevistas acenando com um breve sorriso. Seus quase dois metros - faltaram oito centímetros para bater a marca - percorrem sem pressa os corredores do estádio de Riazor, casa do Deportivo La Coruña.
Foto: Agência EFE
É a segunda vez em quatro dias que o atacante do Sevilla visita a cidade do noroeste da España: uma coincidência de agendas fez com que as duas equipes se enfrentassem três vezes seguidas, duas pela Copa do Rei e uma pelo Campeonato Espanhol. Três batalhas que terminaram em três previsíveis vitórias para o time do jogador nascido na França em 1977, mas naturalizado em Mali.
Na primeira delas, em 7 de janeiro, Kanouté anotou o segundo gol do Sevilla aos 39 minutos do primeiro tempo. Bem colocado na pequena área, recebeu um passe de Diego Capel e, sem muito charme, girou a longa perna esquerda de fora para dentro do corpo pra encaminhar a bola rumo ao à meta adversária. Mas pouco se lembram do lance ligeiramente desengonçado, porque foram os cinco segundos seguintes ao gol que percorreram o mundo.
Evitando a tradicional corrida pelo campo, balançando os punhos cerrados e contraindo os músculos faciais para chegar à mais fidedigna expressão de sucesso, o atacante se dirigiu aos cinegrafistas e fotógrafos, se desvencilhou dos abraços dos colegas e levantou a camisa branca do Sevilla, revelando por baixo uma camiseta preta apenas uma palavra, traduzida em seis idiomas: "Palestina". Com boca e olhos bem abertos, para recuperar o fôlego e captar a reação imediata que seu gesto provocou, Kanouté colocou em prática o plano que idealizara quando Israel começou sua mais recente tentativa de aniquilar o arsenal de mísseis do Hamas às custas da população palestina.
Ele quebra o silêncio sobre o tema uma semana depois, quando o número de resultados do Google para a busca de "Kanouté Palestina" já havia passado de 40.000. Falando em espanhol correto, pausado e com leve sotaque francês, o jogador revelado pelo Lyon e com passagem pelas equipes inglesas do West Ham e do Tottenham deu a um grupo de jornalistas, após a partida, uma resposta simples e vaga:
- Fiz o que devia fazer.
A esta repórter, o titular da seleção de Mali afirmou ter evitado falar em público sobre o assunto por causa da grande repercussão que teve entre famosos e anônimos. Ele se diz contente pelas consequências de sua atitude e explicou que agiu sem pensar muito nelas:
- Não pensava muito na conseqüência, ainda que soubesse que talvez fossem me dar uma multa. Mas a minha motivação de fazê-lo ia muito além de uma multa ou sanção. Pensava que era uma boa oportunidade para eu sensibilizar as pessoas sobre o tema, e nada mais.
O próprio jogador, porém, admitiu que nem todas as reações foram de apoio. Mas, considerando que até o embaixador de Israel afirmou não ver nenhum caráter de incentivo à violência na mensagem, a consciência de Kanouté segue tranquila. O futebolista de Mali aceita sem a multa que levou pela atitude sem reclamar.
- A Federação Espanhola faz o que deve fazer.
Um time de futebol iraniano se ofereceu a pagar os três mil euros impostos pela entidade, valor estipulado no regulamento da Federação Espanhola de Futebol. Mas, para quem desembolsou 700.000 dólares para salvar uma mesquita em Sevilla prestes a ser despejada, a cifra não tira o sono, nem a calma, do jogador.
O fim do ano de Filipe Luís, lateral do Deportivo La Coruña, foi agridoce. Apesar de poder visitar a família no Brasil e fechar 2008 com a classificação para a próxima fase da Copa da Uefa e uma vitória de 4 a 1 sobre o Recreativo de Huelva pela Liga, com direito a um golaço seu, o catarinense de Jaraguá do Sul sabia que encontraria seu Estado alagado depois das chuvas de novembro. E, ainda por cima, que teria de ver seu time do coração, o Figueirense, rebaixado.
Ouça trechos da entrevista concedida ao Blog de Primeira, onde ele fala sobre a diferença entre a importância que se dá à Copa da Uefa e o desdém que os clubes brasileiros dispensavam à Sulamericana, pelo menos antes do título conquistado pelo Internacional, sua adaptação à Espanha, a sombra dos antigos ídolos brasileiros no La Coruña, sua relação com a torcida deportivista e sobre o time que o revelou.
“Tenho um amor pelo Figueirense muito grande, um carinho, uma dívida com eles. Espero um dia poder voltar e me despedir lá”, afirma o titular da lateral esquerda do Dépor. 'Feli', como é chamado pelos companheiros de time, está escalado para a partida de hoje contra o Sevilla pelo campeonato espanhol. A equipe entra em campo às 20h (17h, no horário de Brasília) e uma vitória pode deixá-la pela primeira vez entre os quatro primeiros da tabela, zona de classificação para a Liga dos Campeões. Atualmente, o time ocupa a sexta colocação, último posto que dá acesso à Copa da Uefa 2009-2010. São 30 pontos em 17 jogos, com nove vitórias, três empates e cinco derrotas.
Segundo o camisa 3, o objetivo principal do Deportivo é chegar aos 42 pontos, número que geralmente garante a salvação contra o rebaixamento. “Se a gente conseguir isso antes do previsto, claro, vamos tentar brigar para entrar na Uefa ou quem sabe na Champions”, explicou, otimista, mas consciente da dificuldade de enfrentar times maiores, mais ricos e com vários pontos a mais.
Apesar de o fantasma do rebaixamento rondar La Coruña mesmo após anos sem descenso, a torcida coruñesa mais otimista vibra com a palavra Champions. E vibrou também em 21 de dezembro, quando Filipe, depois de correr por 90 minutos na partida contra o Recreativo de Huelva, conseguiu ser mais rápido que seu marcador e, ao receber um passe certeiro, encobriu o goleiro e marcou o quarto tento da goleada. “Brasil! Filipe!”, gritou o torcedor atrás de mim na arquibancada, quando o jogo acabou. Grito que já foi direcionado a jogadores como Bebeto, Djalminha, Mauro Silva e Donato.
No vídeo com os melhores momentos da partida acima, a jogada de Filipe começa a partir do 3:10.
Não, este texto não é sobre "o Brasil na Euro". Marcos Senna, primeiro sul-americano campeão europeu de seleções, paulistano de 31 anos (faz 32 no dia 17 de julho), que até 2002 jogava no São Caetano, é muito mais que isso, é cara de um Novo Mundo que deu as caras nesta Eurocopa. Um mundo em que brasileiros jogam por seleções estrangeiras, representando países dos quais mal conhecem o idioma. E isto, ao contrário do que parece, não é ruim.
A Alemanha enfrentou uma Turquia que tinha no seu elenco um inglês, um brasileiro, dois alemães e um suíço. O fim das seleções? Não é, ao contrário do que os apocalípticos pregariam. É a consolidação de uma nova idéia européia de nação, mais aberta, mais democrática e heterogênea, sincrética como o Brasil de Mazola e Pelé, de Bellini e Garrincha.
Senna, um negro de sobrenome italiano, é a cara do Brasil, mas também da nova Europa, sempre tão afeita a radicalismos e à idéia de Nação como algo sagrado e fechado a quem é de fora. O nazismo perdeu a guerra, mas parte de seu intento foi alcançado. Transformou a Alemanha em um país praticamente sem judeus. Agora, mais de 60 depois do fim da Guerra, o nazismo perdeu. A Europa vai aos estádios torcer por suas seleções cheias de estrangeiros e descendentes de imigrantes. A Holanda é negra desde a década de 80, africanos jogam na Alemanha e na Polônia, Senna é campeão pela Espanha e um dos melhores da Euro.
Joseph Blatter, presidente da FIFA, quer limitar o número de estrangeiros nas seleções e times e impor regras mais rígidas para evitar este intercâmbio. Mas proibir a livre circulação das pessoas é como proibir o livre mercado de idéias, quase impossível.
E Blatter está errado. As seleções européias não estão sendo descaracterizadas. Apenas refletem a nova composição de seus países, cheios de imigrantes em busca de uma vida melhor, sejam eles da periferia de São Paulo, como Marcos Senna, ou da Argélia, como os pais de Zidane.
Ninguém pode culpá-los por a encontrarem no gramado, berço de uma nova Europa.