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Abr 28

Voltando por cima, e subindo

por Felipe Lessa02h43

Remanescente do caos de 6 de dezembro de 2009, o Coritiba foi bicampeão paranaense na casa do maior rival, conquistou retorno ao grupo de elite do Campeonato Brasileiro e alcançou recordes, igualando as 21 vitórias consecutivas do Palmeiras de 1996. Para renascer dos escombros, ao clube restava encarar com cautela a devastação ocorrida no rebaixamento nacional. Repetir velhos erros eternizaria o pós-centenário coxa em um violento Green Hell.

O início da nova trajetória começou ainda nos vestiários, após a partida contra o Fluminense. Na ocasião, enquanto coxas-brancas se digladiavam contra tudo e contra todos dentro e fora de sua cancha, nenhuma voz ativa do clube era vista para dar explicações. Sobrou para o técnico Ney Franco, que, se não fosse pelo então diretor de futebol, João Carlos Viale, iria aparecer sozinho para dar as aspas esperadas pela imprensa, sedenta por personagens que ilustrassem reportagens da selvageria mais falada da noite.

Nas palavras de Ney, na ocasião, pausas e tom comedido. Havia promessa de permanência, compromisso com o clube e volta por cima. Pareciam “frases prontas” na tentativa de conformar os coxas-brancas, ainda atordoados pelo desastre em campo. Quem não baqueou, sofreu em dobro vendo na TV a repercussão da quebradeira que recolocou o Coritiba nos holofotes nacionais – algo que dizem não ter acontecido de forma tão intensa nem mesmo no título brasileiro de 1985.

Incerteza

Na verdade, muito pouca gente acreditou que seriam cumpridas as palavras de Ney Franco. Não por duvidar de sua pessoa, mas principalmente pelo panorama do momento. O clube estava devastado, João Carlos Viale (o encarregado de dar uma posição do clube no dia da tragédia) foi dispensado logo depois e a cúpula alviverde sumiu de cena, alegando que estavam sendo caçados por componentes da principal torcida organizada do clube.

Em menos de um mês, pra piorar, o Coritiba passaria por um processo eleitoral. No momento, ainda era incerto saber até mesmo se haveriam pessoas dispostas a assumir a bronca. E, principalmente, se era possível se levantar do nocaute de 6 de dezembro.

As cenas de vandalismo deram a entender, até ao mais otimista coxa-branca, que estava perdida toda credibilidade da instituição Coritiba. O clube havia feito muitos empréstimos e teria um brutal corte de receitas. Mais, tinha como certo que seu estádio seria interditado para dar exemplo ao resto do povo brasileiro. Em resumo, miou a grana e parte dos curitibanos já acreditavam em queda certa para a Série C do Brasileiro de 2011.

Rebarba

Eis que apareceu um grupo disposto a assumir. Do antigo conselho administrativo composto por nove pessoas, o G9, permaneceu apenas o presidente Jair Cirino. Os demais eram empresários e personagens da região, com velhos clichês na ponta da língua: para levantar o clube, transparência, gestão profissional, etc.

Apesar das incertezas iniciais, foi a partir de então que a vida do clube tomou novo rumo. Cirino foi blindado e passou a ser uma figura meramente ilustrativa. Depois de ver seu escritório destruído por vândalos e saber que pessoas de sua família sofriam ameaças, foi buscado o anonimato. Vilson Ribeiro de Andrade, vice-presidente, assumiu o papel de posar na frente pelo “renascimento coxa”.

A primeira promessa, feita quando o novo comando nem mesmo era cogitado no Alto da Glória, foi cumprida. Ney Franco não apenas permaneceu como também gerenciou certa integração entre todas as categorias do clube. Na montagem do time, os primeiros reflexos. Se nos bastidores se indicava que o estrelismo de Marcelinho Paraíba havia sido determinante pelo rebaixamento no nacional, treinador e diretoria souberam gastar as moedas que eram escassas.

Montaram um time composto por “operários” menos bajulados como Rafinha, Marcos Aurélio, entre outros. Com eles, o Coxa levou o Paranaense 2010 e ganhou a Série B do Brasileiro.

Cofre

Ao novo G9 coube renegociação das dívidas. Com o Couto Pereira interditado, também sobrou a tormenta de suportar o prejuízo do exílio em Joinville. Afirma-se que a estada na cidade catarinense, onde o clube do Alto da Glória mandou metade de seus jogos na Série B do Brasileiro em 2010, custou a bagatela de R$ 12 milhões. Diante de vários outros saldos negativos, o dia de hooligans de parte da torcida coxa deixou uma série de “tretas” a serem resolvidas.

Por falta de moedas no caixa, por exemplo, o clube chegou a ter de fazer gigantes promoções de camisas para ajudar a custear uma viagem de um time de base para um torneio no exterior. Reuniões de cúpula indicaram por mudanças, em um clube que sofria com o desgaste de imagem proporcionada pelo quebra-quebra no Couto.

Liderado por Vilson Ribeiro de Andrade, o novo G9 resolveu traçar o perfil daqueles que deveriam ser afastados do clube. Estava comprada a briga com a principal torcida organizada alviverde. Além de retiradas as regalias para a Império, como uma sede da facção no estádio do clube e o subsídio de ingressos, os torcedores passaram a ser impedidos de levar camisas e faixas de facções aos jogos do clube – mesmo em Joinville, Paranaguá e Vila Capanema, onde o Verdão se exilou.

A medida visava a valorização dos associados, receita certa necessitada pelo Coxa. Dinheiro que deixou de ir para o caixa das organizadas e foi parar no clube. Valorizando a fidelização dos torcedores, cobrando muito mais caro por bilhete avulso e negociando mudanças estatutárias para acalmar os muitos revoltados com o panorama de desolação, o Coritiba superou os 20 mil associados e equilibrou as contas.

Pós-Ney

Ney Franco se foi e o também mineiro Marcelo Oliveira assumiu o comando técnico alviverde. A forma de jogar – com dois volantes, três meias ofensivos que também poderiam se tornar atacantes e a presença de um homem de referência na frente – foi mantida pelo novo comandante.

O Coritiba também manteve a postura de contratar “operários” e entrou na disputa do Estadual 2011 com as peças que lhe faltavam, como Davi, Eltinho, Emerson. Aproveitando a fraqueza de Roma’s, Cascavel’s, Paraná’s e outros que rechearam o garboso campeonato local, o Coxa passou o trator sobre todos os adversários. Mesmo o Atlético, com nomes como Madson e Paulo Baier, foi colocado na humildade por seu principal rival.

Na volta ao cenário nacional, o clube do Alto da Glória posa de debutante. Embora seus cartolas tentem se mostrar discretos, eles sabem que será o momento de comprovar se o Coritiba pode algo mais que passar o rodo no campeonato mais nervoso de sua aldeia.

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