O voo do Dragão
por Daniel Soares15h25
O América Futebol Clube, de Teófilo Otoni/MG, viveu ontem (10/abr) a maior glória de seus quase 75 anos (a serem completados no próximo dia 12 de maio). A vitória sobre o Villa Nova por 2x1 no estádio Nassri Mattar, em Teófilo Otoni, fez o clube alcançar 21 pontos, mantendo a quarta posição no Campeonato Mineiro. Seis pontos a frente do próprio Villa, o quinto colocado, e faltando apenas uma rodada para o fim da primeira fase, o América está classificado para as semifinais do Mineiro e garantido na Série D do Campeonato Brasileiro em 2011. De quebra, conquistou o título de Campeão Mineiro do Interior, oferecido pela Federeção Mineira de Futebol (FMF) à melhor equipe do interior do estado no campeonato. Um sonho para o clube que em 2008 disputava a Segunda Divisão (o terceiro nível) do Campeonato Mineiro.
Clube essencialmente local (23 vezes campeão citadino de Teófilo Otoni), o América disputava, de forma intermitente, os níveis mais baixos do campeonato estadual, sempre sem maiores destaques. A história mudou em 2008, quando a Ramos Transportes, empresa local do ramo de logística, assumiu a administração do futebol do clube. Poderia ser mais uma história, como tantas outras, de ascensão de um pequeno clube a partir de recursos injetados por uma administração profissional. O que diferencia a trajetória do América de clubes como o Boavista, de Saquarema/RJ, ou de clubes itinerantes como o Americana (ex-Guaratinguetá) e o Prudente (ex-Barueri) é a forma como a cidade de Teófilo Otoni abraçou sua equipe.
Localizada 450km a nordeste da capital mineira, Teófilo Otoni é a maior cidade da região do Vale do Mucuri. Na economia local, destaca-se a exploração de pedras preciosas e semipreciosas. Tradicionalmente, seus moradores torcem para grandes clubes do Rio de Janeiro (tanto que o nome e as cores do AFC homenageiam o homônimo carioca) e de São Paulo, sendo mais raro aqueles que expressam preferência pelos grande clubes de Belo Horizonte. Futebol de alto nível, na cidade, só pela TV. Muito distante da capital do estado e mesmo dos principais centros de futebol do interior, como Ipatinga, Juiz de Fora e o Triângulo Mineiro, assistir ao clube do coração jogar era uma atividade rara e que só podia ser desempenhada longe de casa.
Logo no primeiro ano da nova administração, o América foi vice-campeão da Segunda Divisão mineira, sendo promovido para o Módulo II da Primeira Divisão. Em 2009, foi terceiro colocado no segundo nível do futebol estadual. Entretanto, no fim daquele ano, o Rio Branco de Andradas anunciou oficialmente que desistia de disputar o Módulo I. A FMF cedeu, então, a vaga ao América.
Com uma equipe montada para a disputa do Módulo II e ajustada às pressas para o Módulo I, o América fez campanha ruim em sua estréia na elite mineira, conquistando apenas uma vitória em 2010, mas conseguiu se manter entre os grandes após a 10ª colocação entre 12 clubes.
Para 2011, o Dragão se preparou para a disputa da elite. A cidade abraçou o time. Jogando no pequeno Nassri Mattar, com capacidade para 5 mil torcedores, foram vendidos 3 mil carnês de sócio-torcedor, o que garante casa cheia e assegura a receita, para um clube cuja folha salarial não ultrapassa R$120 mil. Em campo, o time correspondeu e as vitórias começaram a vir. A cidade continuou o apoio. Mais de 800 camisas foram vendidas nos primeiros meses. Caravanas deixam a cidade para torcer pelo time fora de casa. Filhos famosos da cidade, como o atacante Fred, do Fluminense, enviam mensagens públicas de apoio. No último dia 2 de abril, o caderno de esportes do Estado de Minas, principal diário do estado, publicou matéria sobre o clube. O parágrafo abaixo resume a mobilização da cidade:
“Por causa da euforia, casas, pontos comerciais e praças se coloriram de vermelho e branco. Há bandeiras por todo o município. “Se depender da nossa animação, a equipe ainda vai muito longe. Somos fanáticos pelo time e não faltamos a um jogo aqui na cidade”, conta o funcionário público Gero Eugênio Silvestre, de 32 anos, que aderiu a campanha recente da diretoria do clube, comprou camisas para mulher e filhos e ganhou um carnê com ingressos para as partidas no Nasrri Mattar. Gastou cerca de R$ 2 mil, mas em nenhum momento se arrependeu. “Qualquer esforço é válido para ver o Mecão jogar”, diz a mulher, Viviane Maraci Chaves, de 34, que sempre leva Maria Eduarda, de 13, e João Pedro, de 9 meses, ao estádio.”
Ainda curtindo a classificação inédita para as finais, o América se prepara para enfrentar o Atlético Mineiro na última rodada da primeira fase, fora de casa, em Sete Lagoas. Uma vitória pode significar a vice-liderança, o que garantiria não apenas fazer o segundo jogo da semifinal em casa, como ter a vantagem do empate no placar agregado. Até onde voará o Dragão do Corcovado?
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