Futebol e o politicamente correto
por Núbia Tavares14h22
Acordei hoje pensando sobre todas as mudanças pelas quais o futebol tem passado e estava pensando em escrever uma série de textos sobre cada uma delas. O primeiro tópico que me veio à cabeça era sobre os palavrões no estádio e, por coincidência, ao chegar ao trabalho, me deparei com essa notícia, de que a Liga Inglesa pretende punir o Rooney por ter comemorado um gol falando palavrões para as câmeras.
Há tempos me preocupo com a instituição do politicamente correto no futebol. Das entrevistas sem sal de jogadores que sempre “vão respeitar o adversário, mas buscar os três pontos”, passando pelo absurdo de ser crime falar palavrão dentro de um estádio, o futebol está ficando sem graça, chato e cada vez mais parecido com uma sessão de chá das cinco. É proibido falar palavrão, xingar, dar cotovelada, dizer que vai massacrar o rival. Jogadores que brigam em campo são massacrados pela imprensa, que os consideram um péssimo exemplo para “as crianças e jovens” que os têm como ídolo.
Cresci vendo futebol em uma época que em semana de Palmeiras x Corinthians, todos os jogadores do meu time batiam boca com os da marginal. As provocações em jogos eram constantes e falar palavrão era absolutamente normal e necessário. Aliás, como sempre foi no mundo do futebol. Não me tornei uma pessoa violenta e nem sai batendo em ninguém por conta da provocação do Viola no Paulista de 93 ou pela briga na final do Paulista de 99. Quero mais é que os jogadores do meu time arrebentem qualquer rival em dia de clássico e nem por isso saio brigando com alguém. Não me tornei uma adulta violenta ou transtornada por ter ouvido palavrões e ter visto brigas no futebol durante minha infância/adolescência. Por isso, supostos argumentos que sustentam o futebol politicamente correto não agüentam 15 minutos de jogo.
O politicamente correto, em sua essência, começou a se massificar na década de 1930, após a fundação do Instituo de Pesquisa Social, na Alemanha, um think tank cuja missão era implementar as teorias de Antonio Gramsci sobre à adoção do marxismo na cultura como forma de promover a revolução proletária. Essa visão foi amplamente defendida por uma das correntes mais influentes da comunicação, a Escola de Frankfurt, por meio de sua Teoria Crítica. O objetivo do politicamente correto é expurgar do vocabulário expressões ditas ‘preconceituosas’, que seriam opressoras e ofensivas à minorias, como negros, mulheres, pessoas com deficiência e afins.
Mas, obviamente, vocês devem estar se perguntando: que cazzo é isso, Núbia? Marxismo? Escola de Frankfurt? Que raios isso tem a ver com eu não poder falar palavrão num estádio de futebol?
Bem. Um belo dia, alguém inventou que estádios de futebol estavam muito violentos. Torcidas organizadas brigavam e, para isso, era preciso retornar à época do futebol moleque, amigo. E, para isso, era preciso atrair gente “de bem” para os estádios. Gente que não gosta de palavrão, de briga, de nada. E, para atrair esse público, era preciso tornar estádios ambientes sadios e jogadores em super heróis modernos.
E foi assim que começou a desgraça no futebol.
Primeiro, proibiram bebida alcoólica, porque potencializam brigas, desestruturam famílias, mimimi. Depois, veio a patrulha para cima dos jogadores, que não podem mais beber, xingar, brigar e comer putas e travecos se relacionar com mulheres e homossexuais publicamente. Para convencer os boleiros a se portarem como exemplos, trouxeram Cristo para o futebol e todos viraram atletas dele. Daí, surgiu o padrão“grazadeus fizemos um gol e conquistamos os três pontos, sempre respeitando os adversários”. Os poucos boleiros que fogem a esse padrão, são massacrados pela imprensa e diagnosticados por especialistas como “pessoas que sofreram muito e não souberam lidar com a fama e o estrelato e, por isso, se perderam”.
Além disso, para o futebol se tornar saudável, era preciso trazer mulheres e crianças para os campos. Para isso, o palavrão fica proibido. Mulher não pode mais ser chamada de maria chuteira, puta, gostosa e todos os elogios típicos que qualquer mulher escuta no estádio, porque isso era opressor e as afastaria do ambiente futebolístico. Logo, vamos proibir os palavrões também.
E, agora sim: sem palavrões, bebidas e jogadores sendo exemplos, o futebol voltaria a ser tranqüilo, sem brigas e saudável, correto? Não, não é o que vemos. Aliás, arrisco a dizer que hoje, o futebol é muito mais violento exatamente por isso. A introdução do politicamente correto dentro do mundo da bola, desrespeitando toda a cultura desse universo, não apenas não conseguiu transformar o futebol em um ambiente mais saudável, como apenas piorou os problemas que se pretendia combater. Se as brigas não acontecem mais no estádio, elas acontecem em ambientes distantes, como estações de metrô e trem. E o estádio continua ser o que sempre foi: um espaço para xingar, brigar e vibrar.
Atitudes como a da Liga Inglesa, que visam punir uma manifestação de sentimento típico e intrínseco ao futebol apenas colaboram para mais revolta entre torcedores. Punir um jogador por ele extravasar um sentimento de maneira politicamente incorreta é um desrespeito à cultura boleira. O politicamente correto deve ser manter bem longe do porque não é podando as atitudes ditas “incorretas” que teremos um futebol melhor, mas respeitando os rituais próprios do esporte bretão.
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