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Ago 06

A glória das arquibancadas vazias

por Felipe Lessa06h56

A falta de torcedores e moedas nas bilheterias do Estádio do Pinhão, que chegou a ser plano D da Copa 2014 em Curitiba, talvez um dia tenha sido um problema para o São José, que disputa a 2.ª divisão do Campeonato Paranaense. Passado ingrato, futuro promissor. As arquibancadas vazias renderam momentos de glória nacional ao clube da região metropolitana da capital das araucárias.

Depois dos emblemáticos três pagantes na derrota contra a Portuguesa Londrinense, o Lobo conseguiu superar seu próprio recorde: nenhum herói tirou uma nota de 10 contos do bolso pra vibrar pela vitória sobre o Foz do Iguaçu, a primeira na fase final da Divisão de Acesso do Estadual 2010. Foi a sentença necessária para que o São José entrasse na história do futebol paranaense. Mesmo assim, sem foguete e rojão pra ferver com tudo.

Talvez abandonado em São José dos Pinhais, cidade onde o clube representa sozinho o futebol profissional, ao menos em outras terras houve melhor camaradagem com o time do Lobo. O maior contingente de pagantes como mandante foi conquistado a mais de 100 quilômetros de estrada longe de casa. *Em Ponta Grossa, 64 pessoas pagaram pra ver o empate contra o Arapongas, na rodada inicial da Divisão de Acesso.

Entre eles estava o mecânico Armindo Drech, autodenominado o maior, e único, ferrenho torcedor do São José. Velho de guerra que larga tudo pelo time de sua quebrada, SJP. “Também torço por um time da capital. Mas lá eu não costumo ver jogos. Tem muita briga entre torcidas”, disse, pedindo que fosse mantido o anonimato do clube que divide espaço em seu coração.

Na postura do torcedor, o peito estufado. Na fala, o orgulho em lembrar-se da solitária caravana para os campos gerais do Paraná. Por lá, muitos olheiros e uns familiares de jogadores nas bancadas. Até alguns integrantes da Trem Fantasma, organizada do Operário de Ponta Grossa, resolveram dar as caras no Estádio Germano Kruger. Sem treta, foram para engrossar a massa do Lobo, composta por Armindo. Fizeram boa companhia ao senhor de 65 anos, que os classificou como "boa gente" e fazia questão de dizer que também já foi ver o São José jogar em Londrina, mais de 400 quilômetros distantes do território do Lobo. "Mas lá o pau torou. Por sorte, apenas entre jogadores. A torcida era na paz".

No entanto, na batalha em casa pra ‘ninguém botar defeito’ contra o Foz, nem mesmo o heróico torcedor peitou a chuva e o frio pra pagar ingresso pelo time do coração. Por lá, no máximo alguns garotos que portavam uma faixa da torcida organizada Guerrilha Jovem conseguiram liberação da diretoria pra entrar sem pagar, quando a bola já rolava no Xingu. Apesar dos cofres vazios, pelo menos a casa não ficou no silêncio.

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*O Estádio Municipal do Pinhão, popular Xingu, foi interditado pela Federação Paranaense de Futebol por dois jogos, alegando falta de laudos, o que fez com que o Lobo migrasse pra Ponta Grossa emergencialmente.

Lobo Mau na linha, antes da fama
Dias atrás, eu estava moscando no trampo. O fone tocou. Tirei o aparelho do gancho e atendi. Pela voz, parecia ser um cara jovem, pedindo um minuto de conversa. Sem problemas, falei pra mandar brasa. Perguntei qual o assunto.

O rapaz se identificou como presidente do Sport São José. Desconfiei do cargo anunciado, pois já troquei umas palavras com o dirigente máximo e o vice do nosso Zequinha, o primo pobre do futebol curitibano. Ambos já são coroas. Mas ouvi o que ele tinha a dizer.

“Ae, seguinte. Gostaria de pedir que não nos classifique mais como Zequinha. Time com esse apelido não ganha nada. Por favor, não nos chame de primo pobre. Recebemos em dia no São José. Se der, nos chame de Lobo. O Lobo da capital. Estamos lutando por uma vaga na 1ª divisão do Paranaense 2011”, disse a pessoa que estava do outro lado da linha, com chiadeira de papo de mais garotos ao fundo.

O cara foi educado. Desejei-lhe sorte e disse que já havia conferido alguns jogos do Zequinha. Ou do Lobo, como ele preferia. Me despedi, desliguei o fone e metralhei a fala do camarada no teclado. Até hoje não sei quem era, de fato, mas decidi publicar o papo na coluna súmula da Tribuna.

Opinei nela também, repetindo o que havia dito ao camarada. Escrevi que torcia pelo sucesso do querido clube de São José. Lembro que terminei o texto associando o Lobo Mau ao mascote do Coritiba. “Fica um recado ao Vô Coxa. Está surgindo a quarta força do futebol da capital”. Algo assim.

Pelo visto, o destino cumpriu com a palavra. Nosso Zequinha continuou sendo o primo pobre de Curitiba. Mas a fama chegou antes mesmo do esperado, superando as fronteiras do estado e até mesmo Atlético, Coritiba e Paraná no noticiário nacional.

O time underground da capital do Paraná
Os jogadores do São José recentemente viviam em um motel desativado, no Uberaba, zona leste de Curitiba. O local é propriedade de um dirigente do "Sanja". Era a “Toca do Lobo”, o improvisado alojamento do representante da região metropolitana de Curitiba.

Há cerca de três semanas, com diretores em busca de economias, os jogadores do São José mudaram de casa. Arrumaram as malas e embarcaram para Mafra, em Santa Catarina, 130 quilômetros da “Toca do Lobo”.

Um convênio foi firmado pelos diretores do Lobo com um time catarinense, que joga a segundona estadual no estado vizinho. Agora, o elenco aparece em São José dos Pinhais apenas em dias de jogo e ficará permanente em Mafra após o fim do Acesso Paranaense.

Ver o São José em ação faz lembrar um sentimento libertário, do naipe DIY, ou faça você mesmo - nada comum nos grandes jogos, cheios de restrições e impedimentos. Eu mesmo, ao chegar nas redondezas da “batalha dos três pagantes”, vi que tudo estava fechado no Estádio do Xingu. Rua calma e nada de gritarias ou bebedeiras comuns em outras canchas. Só uns motoqueiros passando rápido, sem dar bola pro espetáculo. Faltava uma questão de minutos pro apito inicial, mas eu parecia estar perto de uma casa de jogos clandestina. Calmaria total, do lado de fora, como se fosse esquema pra despistar polícia.

Achei um portão e buzinei. Ninguém atendeu, então desci do carro e abri as portas para a glória. Ninguém me viu, embora a rapeize presente fosse pequena. Se vissem, dariam de ombros. Na sequência, entrei e estacionei em um local onde estavam carros de dirigentes, uma Caravan oldschool com plotagem de ambulância e uma viatura da Polícia Militar. Havia também um golzinho 4 portas estacionado debaixo das arquibancadas, escondido da leve garoa que caia em São José dos Pinhais.

Dei um rolê por lá e parei pra ver o jogo. Pra tormenta dos persistentes guerreiros de São José, a Lusinha pé-vermelha foi quem abriu o marcador – ganhando o jogo por 2 x 0.

No intervalo, fui conversar com os torcedores. Foi aí que conheci o mecânico Armindo, que se apresentou como torcedor número 1 do Lobo. Também como o único fanático. Ele estava com um outro cara, que pela primeira vez assistia uma partida do São José, e uma criança.

O garoto, que deveria ter uns cinco anos, brincava de carrinho enquanto eu conversava com Armindo. Durante o papo, o mecânico também dava atenção ao piá e tirava uns doces de uma lancheira levada por ele. "Pra evitar o berreiro do bacuri", explicava.

Pouco ao lado, também nos fundos de gol, estavam uns 10 adolescentes, com uma faixa da Guerrilha Jovem e adaptando gritos de guerra de organizadas da capital paranaense. Não creio que eles tenham desafetos pra acertar contas, mas o bang estava louco. Pelo menos pelas letras dos sons. Cantaram como se fossem legítimos barrabravas na La Bombonera. No intervalo, eles aproveitavam a vista pra rua e xingavam quem passava. “Ei, modinha cuzão, vai lá ver Alemanha e Uruguai na TV. Jogo de verdade é aqui. TV é pra otário, nerdão”, disparavam, já que o jogo competia com a decisão de 3º e 4º lugar da Copa do Mundo. Momentos de maloqueiragem, sentimento nato no futebol.

Os torcedores organizados sequer pagaram ingresso. Mas estavam demarcando território. Em nome do São José, o time underground do futebol curitibano.

Extra - publicidade da segundona argentina
Dois vídeos sensacionais da segundona argentina, feitos pela TYC Sports, ficam de lambuja aos leitores do De Prima. Afinal, a glória nem sempre surge onde está o dinheiro e a torcida.

Leia mais:
Segue abaixo alguns links de matérias sobre o São José, a falta de torcedores e as tretas de um time que só vê despesas pra jogar futebol.

- São José: Prejú todo jogo como mandante - clique aqui

- A batalha dos três pagantes - clique aqui

- São José: Vitória e briga pra ninguém botar defeito - clique aqui

- Estádio onde São José manda jogos é plano D pra Copa 2014 em Curitiba - clique aqui e também aqui

- Federação Paranaense de Futebol complica times e os faz concorrer com a Copa do Mundo - clique aqui

- São José na Placar - clique aqui

- São José no Globo Esporte nacional - clique aqui

- São José no Globo Esporte Paraná - clique aqui

- Mais do jogo sem pagantes - clique aqui

- São José chega a dar ingresso - clique aqui

- Conheça a Divisão de Acesso do Paraná. Submundo selvagem...prevendo dívidas - clique aqui

- Blog do sempre camarada Osmar Rebollo Jr, assessor do São José - clique aqui

2 comentários
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Comentários:


Comentário de: Chopp Kremer · http://www.choppkremer.com.br

legal

PermalinkPermalink 07.08.10 @ 15:16



Comentário de: tom · http://www.brtrends.org

nessas horas tem que ver se vale a pena continuar - não ter dinheiro é uma coisa, mas não ter torcida é um problema bem pior.

PermalinkPermalink 19.08.10 @ 18:28



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