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Jun 12

Minha fé em Kaká

por Equipe De Primeira17h25

Por Marcos Xavier Vicente*

Meu caro Kaká, confesso que já tive uma certa implicância com você. Nunca acreditei muito em jogador bem-educado, que não se mete em confusão, que não tem um harém à sua volta e um escandalozinho para turbinar a imagem estigmatizada de boleiro.

Para mim, além de categoria, jogadores de futebol, especialmente meias e atacantes, tinham que ter malandragem, saber cair teatralmente para cavar uma falta, e, claro, chamar o marcador para dançar só pelo prazer de desmoralizá-lo.

Aí me aparece você e contradiz toda minha cultura futebolística, com um jogo objetivo, leal, altamente técnico, sem firulas, voltado exclusivamente ao gol. O que só me faz crer que, mesmo vindo de contusão, essa será a sua Copa.

Se alguém disser que não, lembre os passos de Ronaldo. Como o Fenômeno em 94, você foi campeão em 2002 ainda adolescente. Como o Fenômeno em 98, você tombou em 2006. E como o Fenômeno em 2002, você chega à África ainda se recuperando, mas pronto para dar a volta por cima.

De sua religiosidade, uma coisa sempre me chamou a atenção. Ao contrário de boa parte dos atletas de Cristo, você realmente cumpre os preceitos bíblicos. Casou-se virgem, dedica-se integralmente ao trabalho e à família, nunca é desleal com os adversários, é atencioso com todos... Um legítimo cristão!

Vi isso nos treinos aqui em Curitiba. No dia em que a polícia impediu o acesso da torcida ao CT do Atlético, você foi à frente dos jogadores saudar o povão.

Se a ideia foi sua, não sei. Mas sem dúvida você era o mais animado. Enquanto alguns de seus companheiros foram lá visivelmente contrariados, você não só ofereceu um sorriso sincero, como ainda furou o bloqueio policial para estender a mão ao público. “Isso só prova o comprometimento dele com o povo”, me resumiu bem o auxiliar administrativo Rafael Biano, um dos populares que lá estavam.

E já que estamos nessa conversa franca, meu caro Kaká, admito que, ao contrário de você, não sou um sujeito apegado à fé. Entretanto, nesses períodos de Copa, estranhamente rezo.

E em minhas preces, peço, sobretudo, por você. Peço para que Deus te ilumine e te faça jogar como se estivesse com o diabo no corpo, que infernize cada marcador que surja no seu encalço.

Nisso boto fé!

*Publicado originalmente no caderno de Esportes da Gazeta do Povo. Não deixe de acompanhar as crônicas da Copa no blog Populares

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