Cangurus preparando o salto
por Equipe De Primeira11h48
Por RAPHAEL PINHEIRO

Mike Salter é um professor/músico australiano de Sydney. Também é editor do blog The Football Tragic (http://thefootballtragic.blogspot.com), comentando muitos aspectos sobre o futebol local e também sua seleção. A Austrália estará na Copa e o De Primeira correu atrás de uma impressão local sobre esta participação. Confira um ligeiro bate-papo na entrevista abaixo (feita antes da divulgação da pré-lista de 30 convocados para a Copa).
DP) Primeiro de tudo: é sabido que o futebol não é o esporte mais popular na Austrália. No entanto, o interesse local pelo esporte parece ter crescido durante os últimos anos - talvez desde 2006? É isso mesmo? De uma forma geral, você diria que os australianos estão animados por terem se classificado de novo? Qual é o sentimento geral sobre a seleção?
Mike) Houve algum crescimento desde pouco antes da Copa na Alemanha, mas houve uma desaceleração nos últimos anos. É engraçado: de certa forma, ter acesso a uma vaga direta pelas eliminatórias asiáticas ao invés do playoff da Oceania tornou as coisas mais "chatas", digamos, especialmente pelo fato de que nos classificamos facilmente dessa vez. Ainda assim, o público continua prestigiando a seleção, e com certeza muitos australianos viajarão à África do Sul. O fato de estarmos em campanha para sediar a Copa em 2018 ou 2022 também ajuda a dar um gás no interesse, obviamente.
Sobre o time em si.. bem. A qualificação veio sem percalços mas o futebol do time não é o mais bonito de se ver, principalmente quando joga fora de casa. O sentimento por parte de muitos torcedores de longa data é de que trata-se muito mais de um time "operário", esforçado, do que de um realmente bom, e nosso treinador (Pim Verbeek) às vezes é cauteloso além da conta. Caímos em um grupo difícil, mas a maioria dos torcedores acredita que a classificação às oitavas é possível. Ir além disso seria um bônus.
DP) Em 2006 vocês foram abençoados com a presença de Guus Hiddink no banco de reservas, provavelmente um dos 3 melhores técnicos do mundo senão o melhor de todos. Além disso, havia uma geração de jogadores que estava aproveitando, possivelmente, o auge de suas carreiras - tais como Harry Kewell, Mark Viduka e Lucas Neill - para não mencionar Mark Schwarzer, um goleiro bastante talentoso que nunca teve uma oportunidade em um grande clube, sabe-se lá porque. Tudo isso certamente deu confiança ao país, e foi vergonhoso ver a forma como os australianos foram eliminados contra a Itália, enfim, todos conhecemos essa história. Desta vez vocês apostaram em um técnico "low-profile" e a responsabilidade permanece sobre parte daquele esquadrão, certo? Os torcedores acreditam de verdade que é possível igualar aquele desempenho ou até mesmo superá-lo?
Mike) Ir tão longe quanto na última Copa seria um feito e tanto. É um grupo muito mais difícil do que o que encaramos na Alemanha, e a expectativa é de que se ficarmos em segundo lugar nosso provável adversário será a Inglaterra, o que seria bem complicado. Quanto ao time, é basicamente o mesmo grupo que tivemos em 2006, quatro anos mais velhos! Apesar de Viduka não estar mais conosco (o jogador está semi-aposentado, com destino incerto na carreira), Kewell ainda é um jogador de habilidade, embora não tenha mais o fôlego da juventude. Tim Cahill tornou-se ainda mais importante para nós nos últimos anos, marcando muitos gols graças ao seu oportunismo na área. Pra resumir, o país não tem grandes expectativas para o time, e repetir o feito de 2006 já seria motivo de felicidade. Como eu disse antes, ir além disso seria o êxtase!
DP) O que você acha ou sabe sobre os times que enfrentará na primeira fase? A Austrália está acompanhando de perto seus oponentes? Parte da imprensa mundial concorda em dizer que apesar do grupo ser duro, os Socceroos certamente têm chance de classificação, até pelos times serem mais ou menos parelhos entre si (com exceção da Alemanha). A Sérvia se classificou com alguma autoridade em primeiro no seu grupo na Europa, e Gana vem sendo uma força sólida na África, mostrando um futebol pragmático que os levou à final desta última Copa Africana de Nações. Além disso, todos sabem do que a Alemanha é capaz. O grupo é mais difícil que o de 2006?
Mike) Com certeza. Gana tem Essien, Appiah, Muntari, etc, todos jogadores de alto nível. A Alemanha é sempre competitiva e os sérvios tem alguns bons jovens jogadores, que pudemos observar nas Olimpíadas.
DP) Há alguns jogadores em específico que deveríamos observar desta vez? Alguém capaz de virar um novo líder ou estrela do futebol australiano? A visão especializada por aqui é de que, fora o capitão Lucas Neill, que é um bom defensor, não há muito o que esperar das velhas estrelas - especialmente Kewell, que é provavelmente um dos jogadores que mais sofreu com contusões nos últimos 10 anos. Ou ainda poderemos ser surpreendidos?
Mike) Receio que não! Como eu já frisei, o time que irá à África é basicamente o mesmo de 2006. Muito poucas revelações se juntaram ao grupo; algumas ainda estão tentando se estabelecer na Europa, como David Carney e Brett Holman no futebol holandês, Nikita Rukavytsya na Bélgica e Mile Jedinak na Turquia. Mas é quase certo que estes jogadores ficarão meio que à margem das escolhas para os titulares da equipe. Há um ala chamado Tommy Oar, ele joga na liga australiana (A-League), e fez uma estreia promissora neste último jogo contra a Indonésia, pelas eliminatórias da Copa Asiática. Pim Verbeek pode incluí-lo nos convocados da Copa do Mundo, mas ele já disse que espera que Oar consiga uma transferência para o futebol europeu até a hora do torneio começar; Verbeek já disse claramente que não leva em conta o desempenho na A-League como parâmetro (N. do E.: Oar foi transferido para o futebol holandês e com isso conseguiu um lugar na pré-lista de Verbeek).
DP) A questão dos playoffs me leva a uma nova pergunta. Como foi a aceitação local sobre a mudança da Austrália para a Federação Asiática? Não tenho muito o feedback de vocês mas há gente por aqui que ainda olha de forma desconfiada sobre essa questão, muito embora fique claro que para o nível competitivo do país é um ganho e tanto, permitindo que os Socceroos joguem contra adversários mais experientes e técnicos do que os da Oceania. Isso pra não mencionar a vaga direta pra Copa do Mundo ao alcance. Segundo seu comentário anterior, os playoffs adicionavam uma tensão extra natural ao processo de classificação. Você diria que era mais fácil para os australianos se envolverem com sua seleção naquela época, por esse motivo específico?
Mike) De certa forma sim, mas também significava que a Austrália só jogava dois jogos realmente competitivos a cada quatro anos (se excluirmos coisas como a Copa das Confederações, etc.), o que claramente não era o ideal! Acho que muitos torcedores estão cientes dos grandes benefícios devido à nossa mudança para Ásia; podemos competir regularmente, temos a chance de aumentar o padrão de nossa liga local, e temos muito mais jogos importantes para disputar do que anteriormente.
DP) Outro rumor na América do Sul é de que a "era playoff" ajudou a construir uma certa rivalidade entre Austrália e Uruguai, considerando que as duas seleções se encontraram várias vezes nesta situação, lutando pelo último lugar disponível na Copa. Há alguma verdade nisso, ou espécie de ressentimento pelo Uruguai ter tirado vocês de 2002, por exemplo? Haveria algum desejo de reencontrá-los na segunda fase apenas pelo prazer de enfrentá-los?
Mike) Haha, não! Não exatamente, embora realmente o confronto estivesse virando uma espécie de tradição. Mas é claro que isto nos ajudou a conhecer jogadores como Alvaro Recoba, Fabian Carini e Diego Lugano muito bem.
DP) Com a aposentadoria de Viduka, Tim Cahill virou o novo homem-gol do time, a referência? Considerando que ele é meio-campista, não há outros atacantes disponíveis e confiáveis para o serviço?
Mike) Creio que não... seria muito legal ter Scott McDonald (que marcou muitos gols pelo Celtic) em seu lugar, mas a verdade é que ele até agora não correspondeu na seleção.. se bem que nunca foi utilizado da forma apropriada. Josh Kennedy, o outro centroavante que temos no momento, também não está no melhor de sua forma. Cahill é definitivamente em quem podemos nos apoiar para gols, principalmente em momentos finais e decisivos dos jogos.
DP) Pra finalizar: quem são, na sua opinião, os favoritos para vencer a Copa de 2010?
Mike) Por melhor que a Espanha tenha jogado até agora (e tem jogado muito bem), ainda aponto Brasil e Argentina como francos favoritos. Nunca nenhum europeu venceu a Copa fora da Europa, e não acho que essa escrita vá mudar desta vez!
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