Entrevista com Doutor Sócrates
por Felipe Lessa00h57
Se um dia houver alguém que não conheça Sócrates, esse alguém vai duvidar que o magrão já jogou bola. Afinal, como poderia esse maluco beleza, intelectual, subversivo, de bom papo e cultura ter sido um jogador de futebol?
No entanto, foi o mesmo comportamento ácido, aliado a uma paixão inesgotável pela liberdade, que tornou Sócrates um doutor com a bola nos pés. Talvez apenas para quebrar as regras do jogo e mostrar ao povo brasileiro que tudo é possível.
Saudoso magrão. Inimigo do poder, dos Estados Unidos e dos impérios midiáticos. Aliado da verdadeira justiça e da honestidade. Está aí o grande ícone revolucionário no futebol corintiano e brasileiro, que na sexta-feira (7) esteve em Curitiba.
Sócrates participou de um evento sobre futebol e cultura organizado pelo SESC Paraná. Depois de encantar o público com suas histórias e levantar o coro da platéia ao cantar MPB, o doutor magrão bateu um papo com o De Primeira, apresentando um pouco de quem é, do que pensa e até mesmo revelando um grande amor no Paraná.

De Primeira – Sócrates foi craque em campo. Mas o doutor foi e continua craque intelectualmente. Acha que existe hoje algum jogador com características parecidas com as suas?
Sócrates – Não. Eu acho que não. Se tiverem jogadores assim no futebol brasileiro, são raros. Mas tomara que apareça logo!
De Primeira - Você foi um revolucionário dentro e fora de campo. Maradona também. Qual sua opinião sobre ele?
Sócrates - Eu não o conheci pessoalmente. Nosso contato foi apenas como adversários dentro de campo. Mas eu gosto da postura dele, das suas convicções. O Maradona tem uma opinião clara. Na minha opinião, é um cara que teve coragem de confrontar o império.
De Primeira – Você é dos tempos que se podia tomar uma cervejinha na concentração. Hoje, se um jogador é visto bebendo pode ser vítima de um escândalo. O que acha disso?
Sócrates – Essa é uma postura de patrulhamento hipócrita. Quando você está por cima da carne seca, ninguém vê que você está tomando seu vinhozinho. É uma demagogia pura esse negócio aí.
De Primeira – Que drink te agrada. Cerveja? Vinho?
Sócrates – Bom, a cerveja faz um tempo que deixei de tomar, cara. Eu ando tomando só um vinho, para apreciar todo sabor que ele pode proporcionar.
De Primeira – Recorda alguma história em campos de futebol do Paraná?
Sócrates – Já me apaixonei por uma paranaense. Morro de saudades dela. Isso é bem melhor que qualquer jogo ou episódio futebolístico.
De Primeira – Ela é daqui de Curitiba ou do interior?
Sócrates – Curitiiiiiba, senhor (sorri). Você me lembrou de um episódio que rolou em rede nacional. Foi um negócio com o Airton Rodrigues, lá nos anos 70. Ele perguntou: Você é da onde? Falei que era do Pará. Ele continuou: De Natal ou do interior? Aí eu preferi deixar quieto e disse que sou de Belém, mesmo.
De Primeira – Qual sua opinião sobre o episódio de invasão de campo e a violência após o jogo entre Coritiba x Fluminense, no Couto Pereira, ano passado?
Sócrates - Ah, cara. Isso aí foi uma massa totalmente insatisfeita, incontrolável. Na verdade, não sei o que ocorreu no Coritiba na semana anterior daquele jogo. Mas, normalmente, a mídia trata essas coisas com muito pouco cuidado. Estimula a agressividade das pessoas. Estimula a reação incontrolável através da paixão que todos têm pelos seus times do coração. O grande culpado disso, imagino que tenha sido, foi o pessoal da mídia. Que estimulou isso que, só porque o Coritiba perdeu, eles tivessem uma reação tão absurda daquela. Acho que os culpados têm que ser punidos. Mas os maiores culpados não estavam dentro de campo, estavam fora dele.
De Primeira – O que acha da centralização do eixo Rio-São Paulo nas transmissões de televisão?
Sócrates – O dia que alguém tiver mais poder que a TV Globo, vai aparecer mais na televisão. Seja lá no Ceará, no Amazonas, no sul, no Paraná. Tem que ter mais poder que eles. Tem que ser melhor que eles. No dia que alguém conseguir fazer isso, centraliza a mídia nesse estado. Até agora não apareceu. Mas pode aparecer daqui a pouco.
De Primeira - O que espera da Copa do Mundo de 2014?
Sócrates - Eu tenho medo de passar vergonha. Cito um exemplo. Passei o carnaval no Rio. Cheguei a ficar três horas esperando para conseguir um táxi. Imagine na Copa como vai ser. Ainda assim, o Mundial será disputado em várias cidades. Pior ainda será na Olimpíada, realizada apenas no Rio de Janeiro.
De Primeira – O que acha dos sindicatos de atletas?
Sócrates – Na verdade, não fazem nada. São todos pelegos. Os que existem são peleguinhos.
De Primeira - Quais livros o doutor gosta de ler?
Sócrates - Tem um monte. Poderia dizer leio tudo de Machado de Assis. Se você quiser um pouco de publicação latino-americana, pode ser um pouco de Gabriel Garcia Marques. Daí pra frente leio Gilson Alvez, leio (Franz) Kafka, (Fiodór) Dostoiévski, leio todo mundo.
De Primeira – Você cantou aqui no evento. Qual teu estilo de música preferido?
Sócrates - Gosto de tudo. Desde que a música caia bem aos meus ouvidos. Gosto desde sertanejo até música clássica. Desde Beethoven até Chitãozinho & Xororó.
De Primeira – Obrigado pelo papo e pela atenção. Mande aí um recado pros leitores.
Sócrates - Mando um beijo. Um beijo para todos. Pois o beijo é a melhor coisa do mundo.
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Comentários:
Sócrates, ídolo do meu pai heheh
parabéns!
SCCP 100 anos!
Eu nem sabia, mas descobri que amo o Magrão.
Abraço
Prof Izaias Nascimeto