O maior timeco do mundo
por Ana Carolina Moreno15h46

Paguei 15 euros por três ingressos (era uma promoção para lotar o estádio e dar apoio ao time), convidei dois amigos, engoli a sinusite e fui enfrentar o vento de Riazor para ver o maior timeco do mundo. Hoje o Dépor esteve longe de ser do time que brigou ferrenhamente pela quina e a sexta posições da tabela, valendo vaga na Liga Europa (ainda que tenha terminado como o único loser dos três candidatos que ficou chupando o dedo). E nem sombra, claro, do tal Superdépor. Difícil acreditar que esse gramado já foi casa de uma equipe daquelas.
A temporada 2009-2010 tinha tudo para ser melhor. Não digo que os corunheses poderiam voltar à Champions, mas pelo menos colocar um pé firme na antiga Copa da Uefa. E o motivo nem era o planejamento do clube, que não fez nenhuma contratação bombástica e provavelmente o maior feito do verão foi ter protegido o Filipe Luís das garras do Barcelona. Era questão de sorte mesmo.
Como já é de conhecimento geral, a Liga Espanhola é o Gauchão mais rico do mundo. Dois times que tratoram os outros 18 e roubam a grande maioria dos pontos, euros, centrímetros do jornal e minutos da televisão. A rapa, claro, tem suas peculiaridades, títulos, história, torcida. O pelotão que segue à dupla Madrid-Barça tem Sevilla e Valencia batendo cabeças pela medalha de bronze, com alguns times na cola: Atlético de Madrid, Villarreal, Deportivo e de vez em quando alguma estrelinha. Esse ano é o Real Mallorca que vem comendo pelas beiradas e aproveitando que a bruxa rola solta.
Para ser sincera, não acompanhei as desgraças alheias. Só sei que Atlético e Villarreal suaram a camisa para saíram da parte vermelha da tabela, e enquanto isso o Dépor e o Mallorca se alternavam em quarto lugar, segundo Sevilla e Valencia tropeçavam.
Aí veio o fim do ano e as contusões. O Dépor, à primeira vista, parece que as atrai. Ou deve ser a falta de planejamento que faz com que a ausência de um jogador seja sentida com tanta força.
Guardado, Juca, Lassad, Sergio, Riki (para me ater aos casos mais sérios) e finalmente Filipe Luís. O problema nem são as lesões, é o fato de que o treinador já está adotando o discurso do bombeiro há tempo demais. Não é culpa do Lotina, não há muito o que ele possa fazer. Mas as contusões e suspensões só magnificam um problema que ataca o núcleo dessa equipe, que é... a equipe.
O Dépor não tem atacante. Tem uns jogadores que povoam mais ou menos ali a parte dianteira do campo. Mas atacantes não são. Riki é o menos pior, porque pelo menos marcava gols de vez em quando. Mas tem fama bem merecida de cai-cai, e nem é tão talentoso para justificar perseguição. Veja que bonita a declaração que ele deu hoje: Preciso que me quebrem a perna para apitarem algo (isso porque esse é o terceiro jogo dele no ano, e ele só entrou depois do intervalo).
Aí passo para o segundo no meu ranking pessoal: Bodipo. Bem intencionado (se essa é a primeira qualidade dele, imaginem o que vem depois), raçudo, mas já um pouco velho e com um talento insuperável para errar a linha de impedimento. Logo vem Adrián, o camisa 10 (na falta de um craque para vesti-la, deram pra ele). Dizem que tem potencial, já o vi jogar bem, mas na maioria das vezes vejo o oposto. Hoje chegou a literalmente fugir da bola.
Lassad... Freud deve explicar. Nunca vi jogar 90 minutos, sempre tem alguma “moléstia”, uma dorzinha incomodando aqui, um cansaçozinho preocupando ali. Os médicos, depois de muito exame, disseram que não conseguem encontrar causa física para tamanho incômodo. Já estou começando a suspeitar ou daquele medo de palco que algumas pessoas sofrem, ou autismo mesmo, porque não existe conexão entre o jogo em que ele está e o que os demais 21 jogadores seguem em campo. Isso quando ele não perde a bola sozinho. Hoje ele apareceu com o cabelo mais curto, e eu quase acreditei que ele talvez pudesse ser o anti-Sansão, mas já sabia que era sintoma de torcedora mesmo. Não deu em nada positivo, e no fim do primeiro tempo, quando já perdíamos de 2 a 0 (o segundo gol foi contra, thanks Zé Castro), ele fingiu uma contusão depois de uma semi-dividida com o goleiro e todos já sabiam que ele não voltaria a campo.
Além da ausência de atacantes, Angulo, o guri contratado para substituir Filipe Luís, caso ele fosse para o Barça, se lesionou no começo da temporada e até agora não voltou. Ou seja, a lateral-esquerda é um buraco geralmente coberto por Laure, um fulano mais ou menos na defesa, mas infinitamente inferior ao brasileiro no ataque, e às vezes um tal de Seoane. Apagando incêndios.
Com a contusão de Guardado, que fazia um belo par com Filipe, o lado esquerdo do campo virou um grande elefante branco. Laure e Lassad falam idiomas completamente distintos, e Antonio Tomás, que era um dos dois no 4-2-3-1 que o Lotina conseguiu montar, tampouco conseguia tirar faíscas dali, mas pelo menos chutava ao gol, coisa que Lassad não fez. Do lado direito, Juan Rodríguez, um meia defensivo que desde 2006 já somou mais gols pelo Dépor que o atacante Bodipo (para ilustrar a questão), foi também um dos que teve melhor chance no primeiro tempo. Na verdade, foi um chute ruim do Lassad que desviou nele e passou por cima do travessão
No segundo tempo aparecemos com Riki e Valerón, o mais próximo de um craque de que dispomos em Riazor. Por que Lotina começou com Adrián e Lassad, se já tinha Riki disponível no banco? Porque é masoquista (olha o Freud de novo). Valerón, que vestiu a camisa da seleção espanhola em 2002, nunca joga 90 minutos, compreensivelmente. Sempre que o time começa com ele no banco a segunda metade ganha um salto de qualidade, porque ele pode correr pouco, mas ainda dá lindos passes e é dos que melhor armam jogadas.
Mas não adianta armar se ninguém sabe rematar, e o Dépor é velho viciado naquela máxima do “quem não faz, toma”. Tomou o terceiro em uma jogada linda do Getafe (sim, jogamos contra o Getafe, aquele time super famoso, cheio de títulos, conhece né?). Jogada linda porque a defesa não sabe marcar, não antecipa uma jogada, é lenta como o Barrichello e hoje ainda estava desfalcada pelo xerife Lopo, expulso na rodada anterior. E do goleiro Aranzubía, também expulso na rodada anterior. O substituto, Manu, fez o que pôde, mas se você deixa o adversário tabelar tranquilamente rumo ao gol, não tem porteiro que segure.
O garotinho ao meu lado pelo menos tentou manter as esperanças e Riki conseguiu marcar um gol em alguma jogada confusa que quase nem convenceu a torcida. Quase nem comemoramos, afinal, tínhamos 20 minutos para marcar outros dois gols e 30 mil pessoas animando o time. Só que todos já sabíamos que nem 200 minutos dariam conta do recado. E no fim, quase tomamos o quarto e quase eu mordo a língua, porque tinha garantido ao garotinho ao meu lado que 3 a 0 era o fundo do poço. Sugeri que ele se apegasse às glorias do passado. Nem eu nem ele estávamos aqui naquela época, mas resolvemos apelar para a imaginação. Era o único que nos restava.
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